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Como a Chinesa Denza Quer Criar uma Dinastia Elétrica no Mercado de Carros Premium

A ambição da marca premium do grupo BYD no Brasil começa a se traduzir em novos movimentos e vendas

13 min

A passos largos, a BYD saiu de um projeto incipiente há não muitos anos atrás para ter o carro mais vendido no varejo brasileiro em abril deste ano – Dolphin Mini –, beirando 15 mil unidades vendidas no mês, superando a Volkswagen. A ambição de expansão em solo brasileiro vem ganhando novos capítulos – e, com a Denza na dianteira, a companhia passa a buscar novos marcos, agora no mercado premium.

O Brasil já é o maior mercado para a BYD fora da China, entretanto a dinâmica do luxo é obviamente distinta, e o mercado é mais restrito e com outros desafios – incluindo o fato de ele ser relativa e inerentemente menor do que o de outras geografias, ao menos por ora.

Dados da Fenabrave apontam para 2,54 milhões de veículos emplacados no Brasil em 2025. No entanto, os carros de luxo emplacados no ano passado ficam na casa dos 54 mil, segundo a consultoria K.Lume – ou seja, aproximadamente 2%. Para efeitos de comparação, nos Estados Unidos são mais de 3 milhões de carros de luxo.

A Denza chegou ao Brasil oficialmente em meados de novembro, em anúncio na abertura do 31º Salão Internacional do Automóvel de São Paulo.

Nesses menos de 90 dias de Brasil, a marca emplacou pouco mais de 40 unidades, um pouco menos do que a Lamborghini (55) emplacou no ano todo – embora, por óbvio, sejam veículos com tíquete médio mais alto e usualmente de sete dígitos.

Em junho deste ano, pela primeira vez, a chinesa liderou as vendas do segmento premium:

  1. Denza B5 – 566
  2. BMW X1 – 424
  3. BMW X3 – 308
  4. BMW Série 3 – 296
  5. Volvo XC60 – 265
  6. Mercedes-Benz GLC Coupé – 166
  7. Audi Q5 – 140
  8. Volvo EX30 – 138
  9. Volvo EX40 – 129
  10. Mercedes-Benz GLA – 112

“Chegamos para ocupar uma posição própria, a de uma marca premium tecnológica, sofisticada e preparada para liderar a transformação da mobilidade eletrificada de alto padrão”, diz Werner Schaal, diretor da Denza no Brasil, à Forbes.

A gigante chinesa, assim, tenta usar seu know-how para ganhar market share no Brasil. Isso vale tanto para a estrutura e a força de trabalho, que ficam por aqui, quanto para o conhecimento de mercado da China, que deixou de ser relevante para se tornar o topo do topo.

Atualmente o dragão asiático figura como o maior mercado de carros de luxo do mundo, com valor estimado em US$ 208 bilhões pelo IMARC Group. Essa cifra deve ultrapassar US$ 360 bilhões até 2034, segundo a instituição.

O crescimento é impulsionado pelo aumento da renda disponível da população da China e pelos avanços tecnológicos expressivos – ponto que se tornou um diferencial competitivo da BYD.

Por lá foram 4,5 milhões de carros de luxo emplacados no ano passado, segundo dados da Asian Automotive Analysis (AAA). Isso indica um mercado 80 vezes maior do que o do Brasil.

A AAA revela ainda que, em 2025, marcas chinesas superaram as europeias no mercado de veículos de luxo do país. As locais venderam 2,45 milhões de unidades, alta de 45% ante o ano anterior, contra 2,03 milhões das europeias. A mudança foi impulsionada pela rápida adoção dos elétricos e híbridos plug-in.

IMARC

Globalmente, a Denza vendeu cerca de 157 mil unidades em 2025, crescimento de 24% ante o ano anterior. Em junho deste ano, a marca bateu novo recorde mensal, vendendo 20,3 mil unidades no mês.

A marca começou a exportar em meados de 2024, três anos depois de se tornar uma empresa 100% subsidiária da BYD – anteriormente, operava com um modelo societário de joint-venture, em parceria com a Mercedes-Benz.

A empresa começou expandindo para o Sudeste Asiático em um primeiro momento — Hong Kong, Tailândia, Indonésia e Malásia — e em 2025 entrou na Europa e no Oriente Médio.

A marca já opera ou está lançando operações no México, Malásia, Tailândia, Camboja, Singapura, Filipinas e Indonésia. Na Europa, já marcou presença na Alemanha, França, Itália, Espanha e Reino Unido.

A meta da empresa, entretanto, é de pisar no acelerador para ganhar market share e brigar no mercado. A expectativa é terminar este ano estando em 30 países somente na Europa.

O general, estrategista e filósofo chinês Sun Tzu, cerca de 500 anos antes de Cristo, disse: “A velocidade é a essência da guerra. Aproveite-se da falta de preparo do inimigo; viaje por rotas inesperadas e ataque-o onde ele não tomou precauções.”

“O consumidor brasileiro é exigente e apaixonado”

Atualmente a BYD opera quatro marcas. Além da homônima e da Denza, a empresa tem outras duas divisões, a Yangwang, voltada para ultraluxo e superesportivos, e a Fang Cheng Bao, voltada para SUVs robustos e veículos híbridos e elétricos com foco em uso off-road. Pela dificuldade de falar o nome da última em território ocidental, os modelos são realocados justamente no portfólio da Denza.

Com fábrica já firmada em Camaçari (BA), a empresa não descarta produzir modelos premium nesta unidade, em um futuro breve. Questionado sobre o tema, Schaal aponta que a fábrica já foi concebida com “flexibilidade para receber diferentes modelos, plataformas e tecnologias”.

“A companhia avalia continuamente novas possibilidades para ampliar o portfólio produzido localmente. Essas análises contemplam diferentes modelos e marcas do grupo e levam em consideração fatores como demanda, escala, viabilidade industrial, cadeia de fornecedores, logística e estratégia de longo prazo”, diz o diretor da Denza.

Denza D9
DenzaDenza D9

No momento, ainda não há um veredito sobre o tema, mas a viabilidade é clara e promissora. Desta forma, a companhia reforça que não enxerga o Brasil apenas como mais um mercado dentre as várias geografias em que a montadora chinesa atua.

“O Brasil não é apenas um mercado receptor, mas uma operação com potencial para contribuir diretamente para a expansão internacional dessas marcas [premium/de luxo]. O consumidor brasileiro é exigente, apaixonado por automóveis e receptivo a propostas que apresentem diferenciais concretos, uma combinação que torna o país particularmente estratégico para a Denza.”

Na obra de Mêncio (Mengzi), filósofo que foi um dos maiores expoentes do confucionismo, consta: “Só aquele que desenvolve plenamente o seu coração-mente compreende a sua própria natureza”.

Os desafios da BYD (e da Denza) em globalizar

A gestão da empresa também reconhece que há distinções e desafios inerentes à geografia, e que a estratégia há de ser individualizada.

Em junho, a Forbes esteve em Shenzhen, na China, cobrindo os anúncios da BYD (que incluem um chip de 4nm próprio). Na ocasião, o Global Chief Marketing Officer da empresa, José Miranda, revelou que a empresa teve um crescimento acelerado justamente ao sustentar a tese de que times locais fortes são essenciais.

“Somos obcecados em entender o consumidor local. O produto que funciona na Europa nem sempre funciona no Brasil, e o contrário também é verdadeiro. Muitas vezes as pessoas falam da América Latina como se fosse um único mercado, mas aprendemos que cada país tem características muito próprias”, disse o executivo, em coletiva de imprensa.

Denza Z9 GT
DenzaDenza Z9 GT

Em complemento, diz que a própria operação global se viu surpresa com o ganho de escala no Brasil – e que o país é emblemático por conta disso.

“O Brasil sempre teve um papel muito importante para nós. Nunca imaginamos que ele se tornaria, depois da China, o nosso segundo maior mercado em vendas. É um país grande, complexo e acreditávamos que enfrentaria desafios maiores, mas a equipe conseguiu superar esses obstáculos”, diz.

“O Brasil exemplifica a nossa visão para todos os mercados. Stella Li [ vice-presidente executiva da BYD] tem a convicção de que a única forma de uma empresa ser bem-sucedida em outro país é aliar uma equipe local forte aos profissionais chineses. É isso que permite compreender o consumidor, manter a identidade da marca e, ao mesmo tempo, adaptar a operação às características de cada mercado”, diz.

Um provérbio clássico da filosofia chinesa, originário da obra Zhuangzi, atribuída ao filósofo Zhuang Zhou, do século IV antes de Cristo (a.C.) diz: “Não se pode falar do oceano a uma rã que vive no fundo de um poço, pois ela está limitada pelo espaço em que vive. Não se pode falar de gelo a um inseto do verão, pois ele está limitado pela estação em que vive. Não se pode falar do Tao a um homem de visão estreita, pois ele está limitado por seus próprios ensinamentos.”

Tecnologia como core, não como adicional

O conjunto de anúncios da BYD feito em Shenzhen, em junho, contemplou uma série de novidades voltadas à tecnologia.

Com o skin in the game, a empresa declarou que irá ela mesma custear o seguro e a indenização de quem adquirir o pacote de direção autônoma e vir a bater o carro ou sofrer um acidente – que deve ser evitado pela tecnologia.

O pacote é vendido como opcional e custa em torno de 12 mil yuan (Pouco mais de R$ 9 mil no câmbio atual).

As tecnologias, ou anunciadas ou existentes, incluem sistema de manobragem autônoma – com funcionalidade que permite mover pneus em direções opostas, algo que é impossível para um humano com as mãos no volante.

O sistema de direção autônoma, chamado Tianshen, chegará ao Brasil em 2027. Somado a isso, a empresa anunciou seu chip próprio e entrou na disputa global de semicondutores – e não descarta vender para concorrentes em um futuro breve.

As incontáveis funcionalidades e tecnologias, calcadas em 40 mil patentes detidas pela BYD, são usuais nos modelos premium – que incluem Denza, Fang Cheng Bao e Yangwang.

Segundo Werner Schaal, a Denza não vai “simplesmente incorporar novas tecnologias ao portfólio”, mas sim usá-las para elevar o padrão do segmento premium no Brasil.

“O Denza Z9 GT, próximo modelo a integrar o portfólio da marca no Brasil, será a expressão mais clara dessa estratégia. Ele combina design, performance, inteligência embarcada e uma arquitetura eletrificada de última geração, além de ser o primeiro modelo no país preparado para o Flash Charging”, diz o executivo.

A tecnologia citada permite carregar a bateria em 97% em até 10 minutos. O carro está previsto para chegar ao Brasil no segundo semestre deste ano a um valor de cerca de R$ 1,5 milhão.

“É uma mudança de patamar: a recarga de um veículo elétrico passa a acontecer praticamente no mesmo tempo de um abastecimento convencional. O primeiro Flash Charging começa a funcionar no Brasil ainda neste ano de 2026, como ponto de partida de um plano que prevê 1 mil unidades em todo o país até o fim de 2027.”

Stella Li, vice-presidente executiva da BYD, defende que o sucesso internacional da empresa exige a combinação de profissionais chineses com equipes locais fortes, visão aplicada na expansão da marca para fora da Ásia
BYDStella Li, vice-presidente executiva da BYD, defende que o sucesso internacional da empresa exige a combinação de profissionais chineses com equipes locais fortes, visão aplicada na expansão da marca para fora da Ásia

Em um comunicado publicado em abril deste ano – DENZA goes global – a marca detalhou que a diretriz a ser seguida é de que “a tecnologia impulsiona elegância”.

Para além das tecnologias que acrescentam praticidade, a empresa aposta no aumento de conforto e de luxo propriamente dito na esteira dessa diretriz.

Tanto o Denza Z9 GT quanto o Denza D9 têm sistemas de áudio que são frutos de uma parceria com a francesa Devialet, famosa pelo design futurista e engenharia high-end. Com 20 alto-falantes, o sistema combina a tecnologia de ponta de áudio com Dolby Atmos.

O Z9 GT inclui um display de realidade aumentada com 50 polegadas, um sistema de central de entretenimento de 17,3 polegadas que parece “flutuar” à frente do painel e duas telas adicionais de 13,2 polegadas.

O anúncio destas novidades não foi feito em solo chinês. Mirando na mensagem de globalizar, a companhia promoveu um evento em Paris, na França.

“Por trás dessa filosofia está a força de 120 mil engenheiros da BYD, que estão sempre ampliando os limites do que é possível. Acreditamos que este é o momento para pessoas em todo o mundo se inspirarem pela tecnologia, e a DENZA está em uma posição única para entregar isso”, disse Stella Li, vice-presidente executiva da BYD, sob o teto recheado de ornamentos dourados do tradicional Palais Garnier.

O paradigma do luxo em quilowatts

O percentual de elétricos ou híbridos dentro do mercado premium tem crescido ano a ano, mas em um movimento com nuances.

Algumas marcas construíram um branding que as torna visceralmente vinculadas ao ronco e ao cheiro de gasolina. Motores V8 e V12 não eram puramente engenharia, mas produto e marketing. Isso causou tropeços em decisões de gestão e lançamentos para algumas marcas.

No segundo semestre de 2025 a Bentley seguiu a mesma toada de Audi e Porsche e adiou drasticamente prazos de eletrificação. A Ferrari viu as ações despencarem após o lançamento do Luce. Logo depois os papéis subiram e as encomendas esgotaram, segundo a marca.

Todavia, quem já nasceu ligado à tomada está imune a esse tipo de revés. Nesse movimento, a vanguarda tem sido dos chineses, dado que mais da metade da frota de carros do dragão asiático já é elétrica.

Para Schaal, embora a China esteja capitaneando o movimento de eletrificação do mercado premium, não há uma grande disparidade com o restante do globo.

“O que vemos no país é a antecipação de uma mudança global nos atributos que definem um veículo premium. O próprio Brasil já demonstrou o quanto o público está aberto a novas tecnologias e disposto a incorporar soluções eletrificadas, inteligentes e conectadas quando elas entregam benefícios concretos para a experiência de condução”, diz.

“Durante décadas, esse segmento foi sustentado principalmente pela tradição das marcas, pelo acabamento e pelo desempenho. Esses atributos continuam fundamentais, mas já não são suficientes”, completa.

Segundo o executivo da Denza, o otimismo com a eletrificação dos carros de luxo se dá na esteira dos novos desejos dos consumidores, que passam a priorizar mais atributos como inteligência embarcada, conectividade, softwares avançados, eficiência energética, personalização e experiência digital integrada.

“Quando algo chega ao seu limite, muda. Mudando, encontra um caminho. Encontrando um caminho, perdura”, diz um trecho do Xici Zhuan (Grande Comentário), um dos Dez Apêndices do I Ching (Livro das Mutações) – um dos textos mais influentes da história da China, composto ao longo de vários séculos e base da tradição filosófica chinesa.

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