Há uma parte do trabalho de um CEO que não aparece nas apresentações de resultados: decidir quando qualquer escolha terá consequência para alguém. Ronald Koning, presidente e CEO da Mercedes-Benz Cars & Vans Brasil, não tenta suavizar esse momento. Para ele, o primeiro passo é explicar por que a decisão precisa ser tomada.
“Eu tento primeiro trazer transparência e mostrar o propósito, o porquê de aquilo ser importante. Depois, comunico a decisão da forma mais transparente possível”, afirmou em entrevista exclusiva à Forbes Brasil. Quando a mudança envolve pessoas, ele acrescenta uma distinção: “Não é uma decisão contra a pessoa. É uma decisão pela empresa.”
A resposta ajuda a revelar o estilo de um executivo que completa dois anos no comando brasileiro da Mercedes-Benz e que construiu boa parte da carreira fora do próprio país. Holandês, Koning entrou na empresa em 2008, passou pelas áreas de vendas e, quatro anos depois, mudou-se para Shenzhen, na China, para trabalhar na criação de uma marca elétrica em uma joint venture.
Em Pequim, liderou projetos ligados à arquitetura de veículos elétricos e à implantação de serviços de recarga. Em 2024, assumiu a operação de Cars & Vans no Brasil. O país exigiu uma adaptação que ele resume em uma palavra: proximidade.
Um CEO que foi para a rua
Ao chegar, Koning estabeleceu como prioridade conhecer pessoalmente concessionários, famílias empresárias, equipes regionais e clientes. O Brasil, diz, é grande demais para ser entendido apenas de dentro do escritório.
“Você precisa entender o país e precisa entender os clientes. Tem que conversar com eles para saber o que funciona, o que não funciona e quais produtos são necessários.” Esse contato acabou influenciando decisões de produto.
O recém-lançado Classe V é um exemplo. Durante visitas à rede, Koning ouviu pedidos por um veículo desse tipo e enxergou espaço para entrar em um nicho ainda pequeno no Brasil. A minivan de luxo tem sete lugares e chega por R$ 729.900 na configuração V 300 Avantgarde. Na Elegance, com bancos traseiros climatizados, apoio para os pés e carregamento por indução, o preço sobe para R$ 834.900.
“Se você olha apenas para os números de hoje, pode dizer que o mercado é pequeno. Mas acredito que é possível fazer esse segmento crescer”, diz Koning.
É uma característica que ele inclui entre as qualidades necessárias a um CEO: curiosidade suficiente para testar caminhos mesmo quando o mercado ainda não está pronto.
Mais perto também dentro de casa
Uma das mudanças implementadas por Koning foi mais sensível. A equipe trabalhava bastante de casa, mas ele considerava que determinados problemas demoravam mais para ser resolvidos e que a comunicação perdia velocidade. A companhia aumentou a convivência presencial.
Segundo o executivo, a reação dos parceiros comerciais foi perceptível: mais comunicação, maior engajamento e respostas mais rápidas.
A aproximação também vale para os concessionários. Pelo menos uma vez por ano — em alguns casos, duas —, parceiros brasileiros são levados à sede da Mercedes-Benz na Alemanha para conhecer antecipadamente produtos, tecnologias e direções de design.
A lógica é simples: quem terá de investir em loja, serviço e estrutura precisa saber para onde a fabricante pretende ir. “Você precisa dar a eles uma visão do futuro”, afirma.
AMG bate recorde no Brasil
Os dois primeiros anos de Koning também coincidiram com um momento importante para a divisão de performance. Em 2025, a Mercedes-AMG vendeu 1.157 carros no Brasil, maior volume anual de sua história no país. O resultado representou crescimento de 35% sobre as 852 unidades de 2024. Em cinco anos, foram 4.046 emplacamentos.
As versões 45 e 63 responderam por 567 unidades em 2025, contra 417 no ano anterior, avanço próximo de 36%. Globalmente, a AMG entregou 145 mil veículos, alta de 7%.
Koning atribui ao brasileiro uma relação particularmente emocional com determinados produtos. “Os nossos clientes têm paixão pela marca, pelo produto e também por esportes.”
Mais lançamentos a caminho
O portfólio continuará mudando. Koning afirma que novos modelos ainda chegarão ao Brasil neste ano, incluindo o novo Classe S. O cenário comercial, porém, é diferente do encontrado em 2025. Depois do forte crescimento do ano passado, o mercado desacelerou em 2026. A meta da Mercedes-Benz, segundo o CEO, é preservar sua participação e esperar uma recuperação do tamanho do mercado a partir do fim deste ano e de 2027.
Também há fatores que exigem atenção: eleições, reforma tributária, câmbio e mudanças regulatórias. Koning costuma explicar à matriz que não existe apenas um Brasil. As dimensões do país criam mercados e comportamentos diferentes dentro de uma mesma fronteira.
Sua recomendação para lidar com a volatilidade brasileira poderia igualmente servir para qualquer executivo: não reagir a cada mudança como se ela fosse definitiva. “Minha mensagem é sempre: tranquilo. Não super-reaja. Hoje pode parecer de um jeito e amanhã ser diferente. Você precisa parar, observar o que vai acontecer e não perder o controle nem a oportunidade de negócio.”
No fim, quando perguntado sobre o que diferencia um bom CEO, Koning não começa por balanços ou indicadores financeiros. Fala em capacidade de se conectar com pessoas, comunicação, visão estratégica e curiosidade.
Especialmente no Brasil, acrescenta, é preciso continuar olhando para novos produtos, novos segmentos e ideias que talvez já tenham sido testadas antes. “Você precisa continuar inovando.”