A Audi atravessa um ano de vendas menores, pressão crescente da concorrência chinesa e queda de receita. Mas, em meio a um balanço que expõe os desafios da marca, um carro segue na direção oposta: toda a produção do novo Audi RS 5 prevista para 2026 já está esgotada. Na Europa, os pedidos chegaram a quase o dobro do que a fabricante esperava.
O esportivo aparece como um dos sinais positivos em um momento em que a empresa tenta recuperar competitividade e rentabilidade. Entre janeiro e setembro, o Audi Group faturou € 42,1 bilhões, abaixo dos € 48,38 bilhões registrados no mesmo período de 2025. Mesmo assim, encerrou os nove primeiros meses com € 1,15 bilhão de lucro operacional e margem de 2,7%.
O resultado é inferior aos € 1,55 bilhão de lucro operacional e à margem de 3,2% do ano anterior, mas mostra que a companhia continua no azul apesar de uma combinação pouco favorável de queda nas vendas, pressão sobre preços e aumento da competição.
É nesse ambiente que o RS 5 ganha importância. O modelo não pode ser apontado isoladamente como responsável pelo lucro da Audi — a empresa não divulga quanto cada carro contribui para o resultado. Mas o desempenho comercial do esportivo mostra justamente o tipo de produto que a fabricante tenta colocar no centro de sua renovação: tecnológico, de alto desempenho e com demanda capaz de superar as projeções iniciais.
O primeiro RS híbrido plug-in
O novo RS 5 inaugura uma mudança importante dentro da Audi Sport. É o primeiro RS de alta performance híbrido plug-in da marca e combina um motor V6 2.9 biturbo de 510 cv com um propulsor elétrico de 177 cv.
Juntos, entregam 639 cv e 825 Nm de torque. A aceleração de 0 a 100 km/h leva 3,6 segundos e, com o pacote Audi Sport opcional, a velocidade máxima chega a 285 km/h.
A bateria tem 25,9 kWh de capacidade bruta, dos quais 22 kWh são utilizáveis. O RS 5 pode percorrer até 84 km apenas com eletricidade, número que chega a 87 km em uso urbano. A recarga em corrente alternada aceita até 11 kW e leva cerca de 2h30 para completar a bateria.
A eletrificação, neste caso, não foi usada apenas para reduzir consumo. O sistema elétrico também participa diretamente da dinâmica do carro.
O RS 5 estreia uma nova geração do sistema quattro com Dynamic Torque Control, solução que distribui eletronicamente a força entre as rodas traseiras. Segundo a Audi, é o primeiro sistema eletromecânico desse tipo usado em um automóvel de produção. A central recalcula a distribuição ideal de torque a cada cinco milissegundos.
O carro é oferecido nas carrocerias Sedan e Avant e é produzido em Neckarsulm, na Alemanha. No mercado alemão, os preços partem de € 106,2 mil para o Sedan e € 107,85 mil para o Avant.
Vendas caem, mas Audi continua lucrativa
O sucesso inicial do RS 5 contrasta com o desempenho geral da companhia. Entre janeiro e setembro, o Brand Group Progressive (que reúne Audi, Bentley, Lamborghini e Ducati) entregou 1.056.103 veículos, ante 1.191.141 no mesmo período do ano passado. Considerando somente a marca Audi, foram 1.042.150 carros, queda de 11,4%.
O cenário foi especialmente difícil na China. As entregas da Audi no país recuaram 24,5%, para 328.042 unidades. Na América do Norte, a retração foi de 17,3%.
Europa e Alemanha seguiram caminho diferente. As vendas cresceram 1,3% no mercado europeu, excluindo a Alemanha, e 1,8% no mercado doméstico.
A eletrificação também produziu resultados contraditórios. Os híbridos plug-in da Audi avançaram 103% globalmente, enquanto as entregas de modelos totalmente elétricos caíram 12%, para 143.748 unidades.
A própria empresa atribui parte da piora do desempenho ao enfraquecimento do mercado chinês, principalmente entre os veículos a combustão, ao aumento da concorrência e à maior pressão das fabricantes chinesas sobre o mercado europeu.
Também pesaram a aceleração da transição para veículos elétricos na Europa, as incertezas provocadas pela situação no Oriente Médio e pelo aumento dos custos de energia, além das tarifas dos Estados Unidos.
Há ainda um efeito interno. A Audi está em processo de substituição de seus modelos de entrada, com a saída de A1 e Q2 e a preparação para a chegada do elétrico A2 e-tron, movimento que também afetou os números do período.
Menos custos e novos produtos
A resposta da Audi passa por uma reorganização mais ampla. A companhia afirma que está reduzindo custos e complexidade, aumentando a eficiência das estruturas e direcionando investimentos para novos produtos e tecnologias como software, inteligência artificial e sistemas de assistência ao motorista.
Ao mesmo tempo, acelera a renovação da gama. O Q9 passa a integrar o topo do portfólio a partir de novembro, enquanto o A2 e-tron começa a chegar às concessionárias europeias em dezembro.
O RS 5 ocupa outra frente dessa estratégia: desempenho. Além de ser o primeiro híbrido plug-in de alta performance da Audi Sport, o modelo foi apresentado pela empresa como o esportivo de rua que acompanha seu envolvimento com a Fórmula 1.
A procura inicial sugere que existe público para essa combinação. A produção planejada para todo o ano de 2026 já foi vendida, e os pedidos europeus ficaram perto do dobro da projeção da companhia.
Isso ganha peso justamente porque a Audi revisou para baixo suas expectativas para o ano. A empresa agora projeta receita entre € 55 bilhões e € 59 bilhões, margem operacional de 3% a 5% e fluxo de caixa líquido entre € 2,5 bilhões e € 3,5 bilhões em 2026.
Nos primeiros nove meses, o fluxo de caixa líquido ficou em € 2,44 bilhões, acima dos € 2,11 bilhões registrados um ano antes.
O RS 5, portanto, não resolve sozinho os problemas mostrados pelo balanço. A Audi continua vendendo menos carros e enfrenta um ambiente que a própria administração descreve como cada vez mais competitivo.
Mas, num período em que a companhia busca descobrir onde investir, cortar custos e recuperar margem, ter um modelo com a produção anual inteira vendida antes do fim do ano é uma pista importante. E, desta vez, ela vem de um carro que mistura justamente duas apostas da marca: eletrificação e alta performance.
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