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Futebol Brasileiro Precisa de um Choque de Gestão

Acreditar em jogadores com poderes mágicos e na mística de uma camisa são métodos ultrapassados. É preciso profissionalismo, capacidade e um projeto esportivo que até hoje não existiu

6 min

Terminada a Copa do Mundo, fica, novamente, um gosto amargo para o brasileiro. Serão pelo menos 28 anos sem conquistas até 2030. O Brasil segue sendo o único país com cinco títulos mundiais no futebol, mas é preciso tomar atitudes e medidas emergenciais para que essa história não seja contada apenas em arquivos e livros de História.

O futebol brasileiro carece, há muito tempo, de um choque de gestão. É preciso sepultar o modelo vigente, que é datado e ineficiente. Passou da hora de colocar competência, conhecimento técnico e capacidade à frente de conchavos, politicagem e bastidores.

Competência, o Brasil tem no futebol. Sempre teve. Falta balizar os parâmetros para que os resultados buscados sejam apenas os esportivos.

O primeiro passo desse choque de gestão deveria ser o básico: profissionalismo. Não basta contratar um treinador vencedor e consagrado como Carlo Ancelotti e terceirizar a gestão da seleção. Qual é o projeto de Ancelotti? Simplesmente ganhar a Copa do Mundo? O que ele pode acrescentar em termos de inovação e adaptação? Que tipo de legado pode deixar para o futebol brasileiro? Duvido que alguém tenha pensado nisso quando ele foi contratado.

O ambiente que redundou na conquista de cinco Copas pelo futebol brasileiro não existe mais. A captação orgânica de atletas em campos de várzea e praias, o modelo de clubes, a formação empírica, que se acreditava perpétua, estão esgotados. Infelizmente, pouco se produziu de literatura acadêmica e científica sobre esse modelo. Dele restaram a prepotência e a crença em uma superioridade perene, que hoje está em choque com a realidade. Não existe mais o modelo de futebol brasileiro, o que coloca nossa escola histórica em risco de extinção.

Urge uma análise séria do momento. Onde estamos? Onde estão nossos adversários? Onde queremos estar em cinco, dez ou vinte anos?

Até 2008, a Espanha era uma seleção de terceira linha no futebol internacional. Vivia de uma solitária conquista europeia, em 1964, e de um título olímpico, em 1992. Mesmo com dois dos maiores clubes do mundo em seu território, Real Madrid e Barcelona, era coadjuvante em torneios de seleções. A partir de 2008, com a conquista da Eurocopa, começou a ser implantado um conceito de jogo, impulsionado, em parte, por um representante da velha Espanha, o treinador campeão de 2008, Luis Aragonés, e, em parte, pelo modelo de jogo do Barcelona, aprimorado e consagrado por Pep Guardiola, que assumiu o time catalão 12 dias antes da conquista de Aragonés.

Havia conceito, projeto, ideias e objetivos claros. Dezoito anos depois, em 2026, a Espanha é tetracampeã europeia, bicampeã mundial masculina e atual campeã mundial feminina. O conceito está aí. Goste-se ou não, o futebol espanhol tem um DNA, uma escola que coloca o jogo coletivo acima da individualidade. Homens e mulheres colocam essa ideia em campo. A base desse processo está no estudo e na formação. Há tempos, os cursos de treinadores ministrados na Espanha são referência.

A informação circula, os conceitos são atualizados e aprimorados. O futebol tem um modelo de gestão. Longe de ser perfeito, enfrenta problemas, mas possui diretrizes. O Campeonato Espanhol, La Liga, é um projeto independente da Real Federação Espanhola de Futebol, que cuida da seleção e de alguns outros torneios. Existe um Comitê de Coordenação que reúne o futebol profissional masculino e feminino, com participação da Federação, da La Liga e da Liga F (a liga profissional feminina). A Federação regula o futebol, e as ligas cuidam das competições profissionais.

Quanto à formação de jogadores, há um plano desde cedo. O maior exemplo disso é o Barcelona, com sua mítica categoria de base, conhecida como La Masia. Os jovens jogadores são formados para abastecer o time principal. Desde cedo, os atletas trabalham com um conceito claro, que tem como objetivo final a chegada ao time principal. Há um modelo de jogo que começa nas categorias de base e chega ao profissional. Dali saíram jogadores como Xavi, Iniesta, Pedri, Yamal e Messi.

Faltam à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) projeto, conceito e objetivo. Querer simplesmente voltar a ganhar a Copa do Mundo, transferindo essa responsabilidade para treinadores importantes, é andar na contramão da história.

É preciso investir na formação acadêmica de ex-jogadores de futebol como treinadores e gestores esportivos para conduzir um projeto de longo prazo. A Itália contratou Leonardo, ex-jogador campeão mundial pelo Brasil em 1994, para participar do processo de reconstrução de seu futebol. Leonardo jogou e trabalhou como dirigente no futebol italiano. É comprovadamente capaz.

Profissionais com esse perfil não são buscados pela CBF. O campo acadêmico é incipiente. Falta peso e reconhecimento aos cursos de formação ministrados pela entidade. As seleções de base trabalham sem ideia e sem unidade conceitual. Não é por acaso que o Brasil deixou de vencer nas categorias de base. O último título foi em 2019, no Mundial Sub-17.

Por fim, há o futebol feminino, ainda deixado em segundo plano, vivendo das sobras do masculino. Mesmo com a realização da Copa do Mundo Feminina no Brasil, em 2027, o que se vê é a ausência de projetos consistentes, um campeonato nacional desnivelado e a falta de um projeto consistente de captação de talentos.

O futebol brasileiro é uma empresa arrogante, que foi líder de mercado durante muitos anos, invejada e imitada. Nunca se preocupou muito com a concorrência, acreditou que existisse uma reserva eterna em seu mercado e que o acesso à matéria-prima de excelência fosse permanente.

O mundo soube estudar e copiar o que o futebol brasileiro sempre teve de bom, adaptou isso às suas necessidades e gerou culturas de competitividade baseadas em estudo, inovação e competência.

Há exemplos de sucesso e de fracasso. A Itália luta para sobreviver. A Alemanha sofre na busca por uma nova identidade. A Inglaterra brilha no futebol de clubes, mas não repete o sucesso nas seleções. A Argentina precisa descobrir como será a vida depois de Messi. A Espanha vive seu grande momento. A França precisa gerir a vaidade de seus talentos.

E o Brasil?

Enquanto seguir acreditando que camisa joga sozinha, que sempre surgirá um salvador da pátria e que um craque milagroso resolverá todos os problemas, continuará sendo uma empresa que foi grande, mas que, a cada ano, vai sendo ultrapassada e engolida por uma concorrência mais preparada, capacitada e profissional.

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