A oportunidade que poderia encerrar a carreira de Cairo Santos foi a mesma que mudou o tamanho dela. Em 2020, depois de lesão, cortes, dois anos tentando recuperar a melhor forma e um jogo ruim pelo Tennessee Titans, o brasileiro chegou ao Chicago Bears diante de uma encruzilhada. O kicker titular havia se machucado, e a franquia precisava de uma solução. Para Cairo, aquele convite tinha peso de recomeço – ou de fim.
“Eu encarei como um lugar muito difícil de chutar. Então, ou vai ser onde eu vou elevar a minha carreira ou provavelmente vai matar a minha carreira”, diz o jogador, em entrevista à Forbes Brasil.
Aos 34 anos, Cairo Santos fará sua 13ª temporada na NFL. Natural de Limeira, no interior de São Paulo, e criado também em Brasília, ele é o primeiro brasileiro a jogar na liga. Ao longo da carreira, já disputou 158 jogos, marcou 1.144 pontos e acertou 260 field goals, jogada que vale três pontos. Também foi o primeiro brasileiro a ultrapassar a marca de 1.000 pontos na NFL.
Hoje no Chicago Bears, onde está desde 2020 e se prepara para sua sétima temporada pelo time, Cairo conversou com a Forbes Brasil em uma sala dentro do centro de treinamento da franquia. Pela janela, era possível ver o campo. Pelo corredor, jogadores passavam, brincavam com ele e mostravam a naturalidade de quem já o enxerga como parte do ambiente.
Do futebol ao futebol americano
Antes da NFL, Cairo queria ser jogador de futebol. No Brasil, passou pela base do Fluminense em Brasília. Como não encontrava tantas oportunidades, aceitou a sugestão do pai de fazer um intercâmbio nos Estados Unidos.
“Eu vim para fazer um intercâmbio na high school e para jogar futebol, o soccer”, afirma. “Meu pai sugeriu fazer um intercâmbio nos Estados Unidos e investir na minha educação, no meu inglês.”
Foi na escola americana que amigos o apresentaram ao futebol americano. A lógica parecia simples: se ele chutava bem no futebol, poderia testar a posição de kicker. Cairo não conhecia a função. Mesmo assim, aceitou ir ao treino.
“Quando eu acertei o chute de 50 jardas pela primeira vez, o técnico falou: ‘Você não só tem talento para entrar no time e jogar esse esporte, mas tem talento para ganhar uma bolsa e um dia talvez se profissionalizar’.”
A frase mudou a rota. Cairo ainda amava o futebol, mas percebeu que o caminho para se tornar atleta profissional poderia estar em outro esporte. “Naquela época, o futebol era minha paixão número um, mas eu sentia que o meu talento no futebol americano estava mais próximo de chegar ao meu sonho de ser jogador profissional.”
Ele jogou pela Universidade de Tulane até ser contratado para a NFL. A estreia na liga veio pelo Kansas City Chiefs. Depois, teve passagens por New York Jets, Los Angeles Rams, Tampa Bay Buccaneers e Tennessee Titans, antes de chegar ao Chicago Bears.
A chance que poderia acabar com tudo
O ponto de virada veio depois de um dos momentos mais difíceis da carreira. Cairo estava estabelecido na liga, mas se machucou, foi cortado e passou dois anos tentando voltar à melhor forma. Em 2019, pelo Tennessee Titans, teve um jogo em que errou três chutes e viu outro ser bloqueado. Depois, foi dispensado.
“Fui cortado e não tive nenhuma outra oportunidade de assinar com uma equipe aquele ano”, lembra. Em seguida, veio a pandemia. Sem contrato, ele só voltou a ter uma chance no training camp dos Bears, em 2020.
O começo em Chicago também não foi perfeito. Cairo errou dois chutes em jogos diferentes e sentiu que poderia estar diante do limite da própria carreira. Foi ali, no banco do time, que viveu o que descreve como um momento decisivo.
“Eu meio que entreguei para Deus a minha carreira”, diz. “Eu tentei controlar tanto essa oportunidade de conseguir dar a volta por cima. Eu falei: está nas suas mãos.”
Naquele período, sua esposa estava grávida. Cairo já pensava que talvez fosse hora de mudar de vida. “Se for para ser pai o resto da minha vida, focar em ser pai ou trabalhar com outra coisa, que seja. Se for para jogar na NFL, que seja.”
Depois daquele momento, ele acertou o chute seguinte. A partir dali, iniciou uma sequência de 40 field goals convertidos – a terceira maior da história da NFL e recorde da franquia de Chicago. O desempenho rendeu um contrato de três anos e recolocou sua carreira em outro patamar. “Foi um momento marcante para mim”, afirma. “Mudou a minha trajetória.”
A pressão de decidir um jogo
A posição de kicker é uma das mais solitárias do futebol americano. Em poucos segundos, um chute pode decidir uma partida inteira. Para Cairo, a pressão sempre foi tratada como oportunidade.
“Quando eu vi o momento de pressão, eu vi uma oportunidade para crescer, para me mostrar, entrar no mapa de olheiros da NFL”, afirma. “Isso sempre me deu mais inspiração do que medo.”
Mesmo depois de mais de uma década na liga, ele diz que ainda usa treinos e situações de jogo para reforçar sua posição dentro do elenco. “Eu vejo esses momentos para eu me elevar. Sempre me dei bem em situações de pressão.”
Cairo segue como o kicker mais preciso da história da franquia, com 88,3% de aproveitamento: 159 acertos em 180 tentativas. Entre 2023 e 2024, também estabeleceu a marca de precisão da equipe em chutes de longa distância, acima de 50 jardas.
O Brasil no mapa da NFL
Cairo também acompanha de perto o crescimento do futebol americano no Brasil. Para ele, a ida da NFL ao país confirmou algo que os torcedores brasileiros já demonstravam havia anos. “Me dá muito orgulho”, diz. “Os fãs brasileiros de NFL conquistaram esse interesse da NFL de chegar até o Brasil.”
Ele conta que já previa uma relação forte entre a liga e o público brasileiro. “Eu já falava que a liga ia se apaixonar pelo Brasil muito mais até do que os brasileiros vêm se apaixonando pelo produto da NFL.”
O jogador também se vê como parte desse movimento. “Eu consegui ter sido um pouquinho desse influenciador desde que eu entrei e me tornei o primeiro brasileiro”, afirma. “O orgulho maior é dos torcedores que vivem hoje o sonho que a gente sonhava em ser realidade há décadas.”
O sonho que ainda falta
Mesmo com recordes individuais, Cairo diz que o próximo objetivo não está nas estatísticas pessoais. Está no coletivo. “Para mim, é importante acertar meus chutes e ter boas temporadas, mas, no final, a gente joga um jogo de equipe”, afirma. “O sucesso coletivo é muito mais legal, muito mais gostoso do que o meu sucesso individual.”
A meta agora é ajudar o Chicago Bears a chegar mais longe. “A aspiração que eu tenho hoje em dia é levantar a taça.”
Para quem saiu do Brasil tentando jogar futebol, descobriu uma nova posição por acaso, atravessou lesões, cortes e uma quase despedida da liga, a frase carrega mais do que ambição esportiva. Cairo Santos já transformou uma chance improvável em carreira. Agora, quer transformar carreira em título.