Como funcionam os fundos cambiais?

Fundos podem apresentar vantagens sobre a compra direta de moedas estrangeiras, embora investimento envolva mais taxas.

Isabella Velleda
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Jose Luiz Pelaez/Getty Images
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Os fundos cambiais utilizam contratos futuros que servem como proteção a carteiras de investimentos

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O câmbio é um dos indicadores econômicos mais observados pelos participantes do mercado financeiro e também um dos mais difíceis de se prever. Investidores que desejam se proteger das oscilações do real frente a moedas fortes, como dólar e euro, e ainda internacionalizar os investimentos, podem investir em fundos cambiais.

Os fundos cambiais funcionam da mesma maneira que fundos de investimentos comuns: investidores adquirem cotas, e seus recursos são aplicados em conjunto no mercado financeiro. O montante total é o que compõe o patrimônio do fundo, que é aplicado por um gestor profissional de acordo com políticas pré-estabelecidas.

Os ganhos, dessa forma, são divididos entre os participantes proporcionalmente aos valores depositados por cada um.

A diferença é que os fundos cambiais devem ter no mínimo 80% da carteira composta por ativos relacionados a moedas estrangeiras, seja de forma direta ou através de derivativos. Embora o dólar e o euro sejam as moedas mais comuns, também é possível encontrar outras opções que envolvem a libra e o iene, por exemplo.

Os outros 20% que compõem a carteira podem ser ativos de outras categorias, como CDBs (Certificados de Depósito Bancário) ou títulos públicos. “Aqui vale uma curiosidade”, diz André Moura, sócio da Nau Capital, “Até alguns anos atrás, o fundo cambial comprava títulos da dívida pública interna brasileira, porque eles eram emitidos em dólar. Hoje isso não acontece mais.”

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Proteção contra oscilações

O desempenho dos fundos cambiais tende a acompanhar o da moeda de referência, fazendo com que, apesar das flutuações, o investidor mantenha o seu poder de compra na moeda estrangeira. Mas é principalmente através do mercado futuro que esses fundos garantem proteção.

“Imagina que um investidor quer fazer uma viagem daqui a seis meses, e ele tem medo do que vai acontecer com o câmbio até lá”, exemplifica Fernanda Mansano, economista-chefe do TC. “O contrato futuro serve para travar o valor desse câmbio, minimizando o que pode acontecer no futuro.”

Ao contrário do mercado à vista, em que o investidor paga pelo ativo no momento em que ele é adquirido, o mercado futuro leva em consideração um tempo posterior. Assim, os contratos desse tipo dão ao seu titular o direito de comprar ou vender esse ativo por um valor pré-determinado.

Mansano comenta que essa é uma alternativa vantajosa não só para investidores de varejo, como também para empresas. “Incluo aqui principalmente as exportadoras, que possuem muito de sua receita em dólar, e as importadoras, que não podem correr o risco de pagar muito alto no câmbio e aumentar os custos”, explica.

Por outro lado, isso não significa que os fundos cambiais não apresentem riscos. Em fundos cambiais de curto prazo – muitas vezes utilizados para fins especulativos -, as flutuações das moedas podem ser bastante bruscas, se assemelhando às do mercado de ações. Também há pouca previsibilidade dos rendimentos, já que o segmento oscila seguindo o noticiário e a percepção dos investidores estrangeiros sobre a economia brasileira.

“Na América Latina, vemos bastante influência dos fatores políticos e dos preços das commodities nessas variações”, afirma Erminio Lucci, CEO da BGC Liquidez.

Os fundos cambiais geralmente são mais indicados para investidores com perfis moderados ou arrojados. Para quem quer ficar de fora da especulação, eles podem ser uma alternativa interessante para investimentos mais longos.

Vale a pena investir em fundos cambiais?

Para os especialistas ouvidos pela Forbes, os fundos cambiais podem oferecer algumas vantagens sobre a compra direta das moedas estrangeiras.

A principal delas é a gestão profissional, que dá acesso ao investidor a instrumentos financeiros como derivativos, que podem minimizar os riscos desse tipo de investimento – algo que ele não teria ao comprar a moeda estrangeira diretamente.

Comprar dinheiro em espécie também costuma ter algumas restrições legais que não se aplicam aos fundos cambiais. Isso ocorre quando o investidor deseja adquirir um valor superior a US$ 3 mil (contabilizado em um período de 12 meses), o que exige a apresentação de papelada específica e pode ser uma burocracia indesejada pelo investidor.

Por outro lado, na hora de investir, é necessário considerar as taxas de administração dos fundos e, se for o caso, de performance. “Isso tudo encarece e diminui a rentabilidade, às vezes sendo mais adequada a aquisição direta da moeda estrangeira”, diz Douglas Ferreira, diretor de câmbio da Planner.

É importante lembrar que os fundos cambiais sofrem tributação do IOF (imposto sobre operações financeiras), que incide sobre resgates em aplicações com menos de 30 dias – se o investidor mantiver o dinheiro no fundo depois desse período, o imposto não é devido.

A compra de moeda estrangeira em espécie também é tributada com IOF, mas a alíquota é menor e cobrada independentemente de prazo.

Os rendimentos dos fundos ficam sujeitos ainda ao imposto de renda, que funciona de forma regressiva: quanto maior o período de investimento, menor a alíquota.

Ferreira argumenta que agora é um bom momento para estudar os fundos cambiais. “O mercado ainda não está considerando os efeitos eleitorais, e há uma tendência de apreciação do câmbio nos próximos meses”, afirma. “Para os investidores com um alto apetite de risco, é uma opção interessante.”

Já Mansano comenta sobre a vantagem de internacionalizar os investimentos a fim de se proteger das oscilações que podem ocorrer no mercado doméstico: “Empresas como Petrobras, Klabin e JBS dependem muito do mercado externo, e uma valorização do câmbio prejudica a receita delas, por exemplo. Nesses casos, o investidor pode usar o fundo cambial para se proteger aqui dentro.”

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