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Vale a Pena Esperar o Corte da Selic para Diversificar o Portfólio de Investimentos?

Tanto no Brasil quanto nos EUA a expectativa é de que a taxa básica de juros comece a cair de forma mais pronunciada nos próximos meses

6 min

Imagine que a queda de juros é como uma viagem de férias muito aguardada. A felicidade — valorização — começa no momento em que você compra as passagens e planeja o roteiro — expectativa do mercado.

No entanto, se você esperar chegar no aeroporto para começar a ficar feliz, terá perdido toda a emoção do planejamento — e no caso dos investimentos, pode ser que a emoção prévia seja onde está a maior parte do lucro.

No momento atual, os investidores locais e estrangeiros se encontram em um impasse. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos a expectativa é de que a taxa básica de juros comece a cair de forma mais pronunciada nos próximos meses. Selic em queda significa maior apetite por risco. Mas será que é necessário esperar a tesoura do BC para começar a redesenhar o seu portfólio de investimentos?

Um estudo feito pelo Ghia Multi Family Office, que tem cerca de R$ 5 bilhões sob gestão, esperar pode não ser a resposta. Em relatório divulgado a clientes, os gestores identificaram que os preços dos ativos financeiros não refletem apenas os fundamentos atuais, mas sim as expectativas futuras. Quando o Banco Central anuncia o “Dia 0” (o primeiro corte de juros), o mercado já incorporou essa notícia nos preços meses antes.

Ou seja, a valorização dos ativos de risco em cenários de alívio monetário ocorre em sua maioria quando o mercado começa a entender que o corte virá, e não quando ele de fato acontece. O relatório classifica esse período como a “parte nobre” da valorização.

Esperar a queda ou mexer agora?

Nesta semana, os olhos estão voltados para a reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) na próxima quarta-feira (10). A expectativa do mercado é de manutenção dos juros da Selic em 15% ao ano.

Em geral, o que chamará a atenção é o tom do comunicado do BC, que pode dar pistas de quando começará o corte de juros. Até o momento, os analistas precificam um corte em março, mas há uma pequena parcela que ainda vê redução de juros em janeiro.

Para o Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (8), em janeiro, os agentes passaram a ver manutenção da Selic, ante corte de 0,25 ponto percentual previsto na semana passada.

Para o investidor brasileiro acostumado com juros de dois dígitos, o conforto do CDI (Certificado de Depósito Interbancário) é tentador. Com retornos reais próximos de 10%, é comum a estratégia de manter o patrimônio em ativos livres de risco e aguardar o BC iniciar o corte da Selic para, só então, migrar para ativos mais arriscados. No entanto, o estudo aponta que essa hesitação pode custar caro.

O levantamento, que analisou ciclos de corte de juros entre 2008 e 2025, conclui que adiar a diversificação gera um custo de oportunidade para a carteira. A simulação aponta que a estratégia de antecipação superou a estratégia de espera em 2,89 pontos percentuais no período investigado.

Para chegar a esse número, o estudo analisou o comportamento do Ibovespa em janelas de 378 dias úteis e descobriu que quem antecipou a movimentação nos seis meses anteriores ao primeiro corte, viu o Ibovespa apresentar uma valorização média de 21,06%. Já os investidores que esperaram, a apreciação foi de 1,58%.

Os dados utilizados na análise têm como base alguns momentos marcantes da economia brasileira. Foram considerados cinco ciclos de queda da taxa Selic, cada um marcado por um contexto macroeconômico específico: o início de 2009, no pós-crise financeira global; setembro de 2011, período de questionamento sobre a credibilidade do Banco Central; outubro de 2016, durante o processo de recuperação da crise econômica doméstica; agosto de 2019, quando o país alcançou as mínimas históricas da taxa básica de juros; e, mais recentemente, agosto de 2023, no cenário de normalização pós-pandemia.

Em outras palavras, historicamente, a Bolsa tende a “andar de lado” — não sobe muito, nem cai muito — no ano seguinte ao início do ciclo de baixa, pois quase todo o retorno foi entregue na fase de expectativa.

Os índices de renda fixa atrelados à inflação (IMA-B) e pré-fixados (IRFM) também se beneficiam da antecipação, mas também conseguem entregar algum retorno positivo após o corte, ao contrário da bolsa, que praticamente fica estagnada.

Para medir o impacto da inércia nos resultados, a Ghia Multi Family Office comparou duas carteiras teóricas. A primeira, chamada de estratégia cautelosa, mantinha 100% dos recursos em CDI e só começava a diversificar no dia do primeiro corte de juros.

A segunda, a estratégia diversificada, assumia posição em uma carteira moderada — composta por ativos em bolsa, renda fixa e crédito — seis meses antes do início do ciclo de baixa. O resultado dos 378 dias mostrou que a diversificação antecipada foi superior. Enquanto a carteira cautelosa acumulou um retorno médio de 19,73%, a carteira diversificada alcançou 22,62%. Ou seja, a espera custou 2,89 pontos percentuais de rentabilidade total ao investidor cauteloso.

Já a carteira diversificada rendeu 3,49% a menos ao ser montada no dia do corte em vez de 6 meses antes.

A antecipação não favorece apenas o mercado de ações. Os títulos pré-fixados, medidos pelo índice IRFM, também recompensam quem se posiciona antes do início efetivo do ciclo de queda da Selic.

O investimento antecipado nesse segmento teria rendido 24,41%, enquanto a entrada tardia proporcionaria 20,84%. Na prática, o investidor mais conservador deixou de ganhar 3,57 pontos percentuais.

Risco do corte

Apesar das vantagens, o estudo destaca que a qualidade do corte de juros é muito relevante. Ou seja, se o mercado perceber que a queda da Selic ocorre por pressão política e não por fundamentos econômicos sólidos — um cenário de “crise de credibilidade” — os ativos de risco podem se deteriorar mesmo com a queda das taxas. Nessa situação, a reação do mercado é oposta ao padrão.

O exemplo histórico foi o ciclo iniciado em setembro de 2011. Na época, o Banco Central iniciou um ciclo de redução da Selic antes do que o mercado projetava e em um contexto de inflação ainda pressionada.

A decisão provocou desconfiança quanto à autonomia técnica da instituição, já que muitos agentes passaram a interpretar o movimento como uma resposta à pressão do governo Dilma Rousseff para estimular o crescimento econômico.

Segundo a Ghia Multi Family Office, esse cenário de crise de credibilidade, semelhante ao início da década de 2010, “não se enquadra na conjuntura de hoje.”

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