O recuo de 1,2% do setor de serviços em março, resultado 12 vezes pior do que a expectativa do mercado, reforçou entre economistas a percepção de que a atividade brasileira começa a perder tração sob o peso dos juros elevados. Apesar da surpresa negativa com resultado do maior setor da economia brasileira, a avaliação predominante entre economistas é que a desaceleração ainda não representa um alívio suficiente para a inflação de serviços nem abre espaço imediato para cortes da Selic. O setor representa mais de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.
O dado divulgado pelo IBGE veio muito abaixo da projeção de retração de 0,1% e marcou a quarta queda do setor nos últimos cinco meses. Ainda assim, o instituto também destacou que os serviços acumulam alta de 2,8% em 12 meses e crescimento de 3% frente a março do ano passado, no 24º resultado positivo consecutivo nessa base de comparação.
Para Rafael Perez, economista da Suno Research, os números mostram uma acomodação mais clara da economia em patamares mais baixos. Segundo ele, o setor de serviços caiu 0,7% na comparação trimestral, no pior desempenho para o período desde 2020.
“Os dados mais recentes sugerem uma acomodação da atividade em patamares mais baixos, refletindo os efeitos defasados da política monetária restritiva, mas também uma moderação do forte crescimento observado no setor de serviços nos últimos cinco anos”, afirma.
Perez destaca que a queda foi disseminada entre os segmentos, com destaque para outros serviços (-2,0%), transportes (-1,7%), serviços prestados às famílias (-1,5%), serviços profissionais (-1,1%) e informação e comunicação (-0,9%).
Mesmo assim, o economista considera que a atividade ainda encontra sustentação em outras áreas da economia. “O desempenho mais forte da indústria e do varejo deve contribuir para um avanço robusto da atividade econômica no período”, diz. A Suno mantém projeção de alta de 1% para o PIB do primeiro trimestre, embora com desaceleração gradual nos próximos meses.
Para André Valério, economista sênior do Inter, o resultado aponta uma desaceleração mais intensa do setor de serviços e pode refletir mudanças recentes no padrão de consumo das famílias após a alta dos combustíveis.
“O recuo parece ser efeito de realocação de consumo, dado o aumento nos preços dos combustíveis”, afirma. Segundo ele, o impacto foi percebido principalmente nos serviços prestados às famílias e nos transportes, segmento que caiu 1,7% no mês.
Valério também chama atenção para o enfraquecimento de áreas que vinham sustentando a expansão do setor. Os serviços de tecnologia da informação recuaram 1,7% em março, apesar de terem sido um dos principais motores de crescimento dos serviços nos últimos anos.
Banco Central segue cauteloso
Para os analistas, o desempenho do maior setor do PIB em março reforça os efeitos dos juros altos sobre a atividade, mas ainda sem alterar de forma relevante o cenário para a inflação.
Na avaliação de Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o resultado indica perda de tração da economia, mas o dado isolado ainda é insuficiente para alterar de forma relevante a leitura do Banco Central sobre a inflação.
“Essa retração interrompe uma sequência de atividade ainda resiliente para um ambiente de juros reais elevados, mas isoladamente não altera de forma relevante a leitura do Banco Central sobre a inflação de serviços”, afirma.
Segundo ele, a desaceleração ainda ocorre em um nível elevado de atividade, com mercado de trabalho pressionado e renda sustentando o consumo doméstico. “O BC deve interpretar o número mais como sinal inicial de perda de tração cíclica do que como evidência de desinflação estrutural”, diz.
Para Sidney, o principal risco continua vindo da combinação entre política fiscal expansionista, renda resiliente e eventual afrouxamento prematuro das condições financeiras. “Isso pode reativar rapidamente a demanda doméstica e limitar o espaço para flexibilização da Selic”, afirma.
O dado também reforçou a percepção de cautela em relação às próximas decisões do Banco Central para Peterson Rizzo, head de relações com investidores da Multiplike. “A queda no volume de serviços em março é decorrente da política monetária que está restritiva há bastante tempo, mas não significa alívio na inflação do setor”, afirma.
Segundo ele, o mercado de trabalho aquecido, a renda das famílias e os custos logísticos pressionados pela alta do petróleo continuam limitando uma melhora mais consistente do quadro inflacionário. “Isso torna improvável qualquer sinalização de corte no Copom de junho”, diz.
Na avaliação de Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, o dado também reforça um cenário de atividade moderada, mas ainda resiliente no horizonte mais longo.
“O setor de serviços registrou recuo em março, após estabilidade em fevereiro, mas mantém expansão de 3,0% na comparação anual”, afirma.
Para ele, essa diferença entre o desempenho mensal e anual mostra que a atividade continua sensível a choques conjunturais, especialmente em segmentos ligados a transporte e consumo das famílias.
“Para o Banco Central, o dado reforça que o ritmo de atividade segue moderado, justificando manutenção cautelosa da Selic”, diz.