A prévia da inflação de maio divulgada nesta quarta-feira, 27, pelo IBGE subiu 0,62% no mês e chegou a 4,6% em 12 meses, ultrapassando o teto da meta de inflação perseguida pelo Banco Central. A meta é de 3%, com limite de tolerância até 4,5%. O resultado do IPCA-15 veio acima das expectativas de economistas e analistas do mercado financeiro que chamam atenção para o peso dos alimentos e o risco de novos choques climáticos no segundo semestre. Meteorologistas alertam para a chegada do Super El Ninõ e alimentam preocupações com as colheitas globais.
No dado divulgado nesta quarta, a principal pressão partiu do grupo alimentação e bebidas, que avançou 1,38% e respondeu sozinho por quase metade da inflação do mês. Para Patrícia Krause, economista-chefe para a América Latina da Coface, a desaceleração em relação a abril é insuficiente para aliviar a cautela do mercado.
“Os núcleos continuam pressionados e o cenário segue preocupante, principalmente pelas questões geopolíticas e possíveis choques de oferta, com reflexos em combustíveis e alimentos”, afirma. Segundo ela, a previsão de chegada do fenômeno El Niño no segundo semestre também adiciona pressão sobre os preços de alimentos nos próximos meses.
Apesar disso, a economista avalia que o dado não altera, por enquanto, a expectativa de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic na próxima reunião do Copom.
Na avaliação de Gabriel Pestana, economista-sênior da Genial Investimentos, o dado veio pior do que o esperado principalmente por causa dos alimentos, justamente o grupo em que o mercado apostava em desaceleração nos próximos meses.
“A disseminação da surpresa altista ao longo de grande parte dos itens ressalta um qualitativo pior no grupo”, afirma. Segundo ele, a alimentação no domicílio subiu 1,73% no mês, pressionada tanto por produtos in natura quanto por industrializados , algo menos comum e que aumenta a preocupação com a cadeia de produção.
Apesar da pressão dos alimentos, outros grupos ajudaram a segurar um resultado ainda mais forte. Serviços vieram um pouco abaixo do esperado, enquanto os bens industriais tiveram desempenho mais benigno, com destaque para a queda dos automóveis.
Mesmo assim, Pestana avalia que o resultado deve levar o mercado a revisar para cima as projeções de inflação de curto prazo. “Não muda a leitura para política monetária por ora, mas deve trazer um IPCA de curto prazo mais pressionado”, diz. A Genial mantém projeção de IPCA em 4,9% e Selic em 13,25% em 2026.
Para Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, o resultado mostra que a desinflação no Brasil continua lenta, principalmente por causa da inflação de serviços.
“O grande ponto de atenção continua sendo a inflação de serviços subjacentes, que segue pressionada e acelerando, refletindo um mercado de trabalho ainda resiliente e uma demanda doméstica aquecida”, afirma.
Segundo ele, houve algum alívio nos preços administrados, principalmente com a queda da gasolina e a desaceleração dos bens industriais, mas o cenário externo ainda segue pressionando a inflação brasileira.
“As tensões no Oriente Médio impactam petróleo, fretes e expectativas inflacionárias globais”, afirma. Para Spyer, o dado reforça a percepção de que a Selic deve continuar elevada por mais tempo.
Na avaliação de Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o dado reforça a percepção de uma inflação resiliente, especialmente em serviços e itens ligados ao mercado de trabalho, o que mantém a curva de juros pressionada nos vértices mais longos.
“Mais importante do que o dado cheio é a composição qualitativa da inflação, porque ela sugere uma economia ainda rodando acima do nível compatível com convergência rápida para a meta”, afirma. Para ele, o cenário prolonga um ambiente de retorno real elevado e aumenta a pressão sobre setores mais dependentes de funding, projetos de longa maturação e empresas alavancadas.
A leitura é semelhante à de André Matos, CEO da MA7 Negócios. Segundo ele, a inflação ainda distante do centro da meta praticamente reduz o espaço para cortes mais agressivos da Selic, atualmente em 14,5% ao ano.
“Na prática, isso significa curva de juros longa pressionada, crédito bancário ainda caro para as empresas e custo de capital elevado, o que tende a adiar decisões de investimento em CAPEX e comprimir margens ao longo do segundo semestre”, afirma.
Os efeitos para as empresas
A inflação persistente exigindo ambiente de juros elevados por tempo prolongado altera a dinâmica de crédito e investimento das empresas. Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, afirma que o IPCA-15 influencia diretamente o custo de capital corporativo.
“Quando a inflação segue pressionada, o crédito fica mais caro, mais seletivo e mais dependente de estruturas bem montadas. Isso obriga companhias a buscar alternativas além do financiamento tradicional”, diz. Segundo ele, o mercado tende a premiar empresas com maior previsibilidade de recebíveis e capacidade de pagamento, enquanto penaliza negócios mais dependentes de rolagem de dívida.