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Margem de Erro da Selic Diminui e Coloca Copom em Terreno Delicado

De um lado, o BC enfrenta a desaceleração da atividade, reflexo dos efeitos defasados dos juros elevados; de outro, choques externos deterioram as expectativas

4 min

O Banco Central do Brasil tenta conduzir a economia brasileira por um terreno cada vez mais estreito. De um lado, os sinais de desaceleração da atividade doméstica tornam-se mais evidentes; de outro, a inflação volta a surpreender negativamente, impulsionada por choques externos e pela persistente desancoragem das expectativas. A ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (5), revela um diagnóstico mais tenso do que o comunicado inicial sugeria, e reforça a delicada engenharia de política monetária em curso.

O comitê reduziu a taxa Selic para 14,50% ao ano, em decisão unânime, mantendo o ritmo de cortes graduais. Ainda assim, a mensagem subjacente é menos complacente: o ciclo segue, mas sob crescente vigilância.

Para o economista da gestora ASA, Leonardo Costa, a desaceleração da economia brasileira já evidencia, de forma mais nítida, os efeitos defasados da política monetária contracionista. “O Banco Central mantém a avaliação de moderação da atividade doméstica, agora com maior ênfase na transmissão do aperto via contração do crédito livre”, afirma.

O diagnóstico indica que o ciclo prolongado de juros elevados começa a cumprir seu papel clássico de esfriar a demanda. Em um cenário isolado, isso abriria espaço para uma redução gradual da Selic, trajetória que era amplamente esperada antes da escalada do conflito no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. O recente choque nos preços do petróleo alterou significativamente o cenário inflacionário. “As últimas leituras, tanto ao consumidor quanto ao produtor, vieram significativamente acima do esperado, com sinais claros dos efeitos dos conflitos”, observa Costa. O impacto não se restringe aos índices correntes: as expectativas de inflação também se deterioraram, especialmente nos horizontes mais longos. A desancoragem, termo técnico para a perda de confiança na convergência da inflação à meta, se tornou central no debate. O próprio Copom reconhece que parte desse risco “já pode ter se materializado”, sobretudo nas projeções para 2028.

Para a economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, a ata confirma um Banco Central dividido entre a inércia do ciclo de cortes e a deterioração do ambiente inflacionário. “A Ata reconheceu um espaço menor para cortes e demonstrou uma preocupação com as expectativas ainda mais acentuada”, afirma. Segundo ela, há uma “preferência revelada” por seguir reduzindo juros com base nos efeitos defasados já observado. Uma leitura que, em suas palavras, se apoia no “retrovisor econômico”.

Mas essa estratégia não está isenta de riscos. “O fato de o comitê não ter discutido seriamente a interrupção dos cortes agora evita uma revisão generalizada de curto prazo, mas não anula a pressão da realidade”, diz Victal, destacando o risco crescente associado à desancoragem das expectativas.

Mesmo em um cenário hipotético de alívio nos preços de commodities, a dinâmica inflacionária doméstica pode se mostrar mais persistente. Victal chama atenção para uma possível mudança qualitativa: “prevemos uma mudança na composição da inflação”, com maior pressão nos preços livres, impulsionada por atividade ainda aquecida e efeitos secundários acumulados.

Essa visão é compartilhada por Paula Zogbi, estrategista-chefe da corretora de investimentos Nomad. Para ela, a ata explicita uma preocupação crescente com a inflação “acima da meta em todos os horizontes”, reforçando a necessidade de manter a política monetária restritiva por mais tempo. “O tom foi de cautela”, afirma. “De maneira geral, mais duro que o comunicado lançado no comunicado da decisão.”

O Copom insiste que o ciclo de cortes não está pré-determinado. A magnitude e a duração dos ajustes dependerão da evolução de variáveis-chave: o conflito geopolítico, o comportamento das expectativas e a intensidade da desaceleração doméstica. Na prática, isso transforma cada reunião em um novo teste de equilíbrio. Cortar juros cedo demais pode reforçar a desancoragem; esperar demais pode aprofundar a desaceleração. Por ora, o Banco Central aposta que o aperto já implementado continuará a produzir efeitos. Mas, como sugere o próprio tom da ata, e as leituras dos economistas, a margem de erro está diminuindo.

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