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Como as Mulheres Impulsionam o Crescimento do Festival de Parintins

De empresárias a cunhãs-porangas, elas brilham dos bastidores ao Bumbódromo e transformam a festa em motor da cultura e economia amazônica

9 min

A 370 quilômetros de Manaus, após 18 horas de barco, oito horas de lancha ou apenas uma hora de voo, está Parintins, a segunda maior cidade do Amazonas. Com cerca de 100 mil habitantes, o município mais do que dobra sua população na última semana de junho, com o Festival Folclórico de Parintins, que pinta a ilha toda de vermelho e azul.

Durante três noites, turistas do Brasil e do exterior desembarcam na ilha para acompanhar a disputa entre os bois-bumbás Garantido e Caprichoso, campeão da edição deste ano. “Esperamos o ano todo por esse momento”, diz Valentina Cid, Sinhazinha da Fazenda do Boi Caprichoso e descendente do fundador da agremiação. “A gente já cresce escolhendo um boi. A cidade respira o boi-bumbá.”

Picture Alliance/Getty ImagesValentina Cid, Sinhazinha da Fazenda do Boi Caprichoso

Neta de povos originários, a empresária amazonense Gisele “Gigi” Cunha, uma das principais fomentadoras da moda na Amazônia, cresceu acompanhando de perto a movimentação cultural e econômica em torno da festa. “O Festival se tornou uma verdadeira vitrine da criatividade amazônica, unindo cultura, tecnologia, sustentabilidade e geração de renda.”

Maior espetáculo folclórico a céu aberto do mundo, em 2025 o festival recebeu 120 mil turistas, que movimentaram diretamente R$ 215,6 milhões na economia local, alta de 19,3% em relação ao ano anterior.

“A cada ano, o festival cresce e amplia seu impacto na economia e na geração de renda para a população, afirma Ana Rego, diretora de marketing da Amazonastur (Empresa Estadual de Turismo do Amazonas).

As cunhãs-porangas do Festival de Parintins

Esse crescimento acompanha a expansão da projeção do festival no Brasil e no exterior. Um dos fatores que contribuíram para isso foi a participação das cunhãs-porangas no Big Brother Brasil. Elas representam as guerreiras mais belas da aldeia e compõem um dos itens avaliados pelos jurados na disputa entre os bois. Marciele Albuquerque, cunhã-poranga do Caprichoso, participou da edição deste ano do reality; e Isabelle Nogueira, do Garantido, em 2024. “Foi um palco onde eu não subi sozinha, subi com o meu povo”, disse à Forbes. “Depois disso, batemos recorde de turistas, de apoio e de retorno financeiro.”

Há mais de uma década no Garantido, Isabelle anunciou que esta foi sua última apresentação como item 9 do festival, que acompanha desde criança e viu evoluir. “Antigamente, a mulher item era vista apenas como dançarina. Hoje estamos no lugar que merecemos, de porta-voz. Lutamos pela nossa cultura, pelos povos da floresta. Lutamos pela nossa Amazônia de pé.”

Rafael Leal AndradeIsabelle Nogueira, do Garantido

Isabelle usou sua posição de cunhã-poranga para levantar esses temas e representar as mulheres amazônidas. “Existe uma força feminina no festival folclórico, principalmente na dança, com a cunhã-poranga, a Rainha do Folclore, a Sinhazinha, que são as grandes protagonistas, assim como as costureiras, merendeiras, as outras mãos que fazem Parintins.”

Desafios na liderança dos bois

Valentina Cid também vê na própria família um retrato da força feminina que sustenta o Festival de Parintins. Sua mãe foi Sinhazinha da Fazenda do Caprichoso na década de 1990 e a inspirou a seguir o mesmo caminho.

“As mulheres mantêm essa tradição viva dentro de casa, passando de geração em geração”, afirma. “Minha bisavó, que não cheguei a conhecer, também foi uma grande mulher do boi. Costurava os vestidos do festival e abrigava, em casa, pessoas talentosas que não tinham onde ficar.”

Apesar desse protagonismo e da evolução, a liderança dos dois bois ainda é predominantemente masculina. Para quem acompanha o evento há décadas, no entanto, as mulheres sempre estiveram entre as principais responsáveis por manter viva a tradição e impulsionar seu crescimento.

“Não tenho dúvidas de que seria impossível para o Festival chegar ao tamanho que chegou se não fossem as mulheres”, afirma Marcia Nogueira, head de patrocínios e parcerias da Maná Produções, empresa responsável pela gestão comercial do Festival de Parintins.

Exemplo disso é Socorro Carvalho, primeira mulher a ocupar a vice-presidência de um dos bois (entre 2011 e 2013) e atual conselheira de artes do Caprichoso. A agremiação também teve sua primeira presidente, Márcia Baranda. “Por muitos anos fui a única mulher. Hoje, somos quatro”, diz ela. “A força feminina está muito presente nos bastidores do festival. Muitas vezes esse trabalho acontece longe dos holofotes, mas é fundamental para que o espetáculo aconteça.”

Socorro Carvalho no Bumbódromo

Na avaliação dela, ampliar a presença feminina nos cargos de comando ainda passa por mudanças culturais, pela quebra de barreiras históricas e pelo apoio da própria torcida. “A tendência é que, com a crescente participação das mulheres em todas as áreas do Festival de Parintins, seja cada vez mais natural vê-las ocupando os cargos mais altos de liderança nos bois.”

Claudia Oliveira dos Santos, presidente do MAG (Movimento Amigos do Garantido), onde atua há quase 30 anos, compartilha dessa visão. “Hoje vemos mais mulheres ocupando espaços importantes e participando das decisões. Ainda há desafios, mas é bom perceber que o reconhecimento do trabalho feminino vem crescendo.”

Muito além do Bumbódromo

Fora do Bumbódromo (a arena onde acontece o festival), empreendedoras transformam o crescimento do turismo em oportunidades de negócio. “O protagonismo feminino é um dos grandes impulsionadores do desenvolvimento do Amazonas”, diz Gigi Cunha, também idealizadora do Baile da Amazônia.

Rafael Leal AndradeGigi Cunha, empresária amazonense

É o caso de Egreen Baranda, médica e empresária, fundadora do Kwati Club, em Parintins, e filha da única mulher que já presidiu o Caprichoso. “O machismo ainda é muito forte no Amazonas, mas há muitas mulheres que, nos bastidores, ajudaram a transformar a história do festival e hoje também lideram negócios”, afirma.

Outra empreendedora que aproveita o impacto econômico da festa é Val França. Durante a alta temporada, ela comercializou seus acessórios sustentáveis produzidos com sementes amazônicas na Estação da Cultura, um dos espaços mais movimentados da cidade durante o festival.

“A temporada bovina abre grandes oportunidades para as empreendedoras pelo fluxo de visitantes. É geração de renda na veia”, diz Ananda Pessoa, diretora-superintendente do Sebrae Amazonas.

Parintins atrai grandes marcas

Há 23 anos na Amazonastur, Ana Rego acompanhou de perto a transformação do Festival de Parintins. Além do aumento do público, ela viu a ilha ampliar sua estrutura para receber turistas e consolidar o evento como um dos principais ativos culturais e econômicos da Amazônia. Parte desse trabalho passa pela ampliação da malha aérea durante o período do festival. “São seis meses de organização para a cidade receber o turista.”

ana rego, diretora de marketing da Amazonastur
Rafael Leal AndradeAna Rego, diretora de marketing da Amazonastur

O interesse de grandes empresas acompanha esse crescimento. “À medida que o evento se torna mais conhecido, atrai mais público, mais conexão entre marcas e pessoas e abre possibilidades para mais parcerias”, afirma Marcia, head da Maná.

Seu trabalho começa cerca de 15 meses antes de cada edição e envolve negociar os patrocínios que ajudam a colocar a festa de pé, com grandes empresas como Coca-Cola, Bradesco e Vivo. Segundo ela, os contratos firmados por meio de incentivos fiscais variam entre R$ 850 mil a R$ 3 milhões.

Marcia Nogueira, head de patrocínios e parcerias da Maná Produções

As marcas entram no clima do festival. A Coca-Cola fazia uma versão azul de sua latinha para homenagear os bois de forma equilibrada. Nos últimos anos, a personalização das embalagens tem sido realizada com o Guaraná Tuchaua, produzido com guaraná do Amazonas, assim como faz a Brahma.

A Coca-Cola Brasil e a Solar, fabricante e distribuidora da companhia na região Norte, mantêm iniciativas voltadas à reciclagem, ao fortalecimento da cadeia produtiva do guaraná amazônico e à capacitação de mulheres empreendedoras. “O empoderamento econômico feminino é uma das frentes prioritárias da nossa atuação na região”, afirma Katielle Haffner, diretora de sustentabilidade da Coca-Cola Brasil.

Neste ano, a empresa completou 30 anos de patrocínio ao Festival de Parintins. Além de dois camarotes — um em cada lado do Bumbódromo. “É uma manifestação cultural que movimenta a economia local, gera oportunidades para milhares de pessoas e fortalece a identidade amazônica”, diz a executiva.

DivulgaçãoA Coca-Cola patrocina o Festival de Parintins há 30 anos

Bradesco, Natura e Vivo também estão entre os principais patrocinadores. “A região Norte está no centro do nosso negócio há mais de 25 anos”, afirma Júlia Ceschin, Head Global de Brand Experience da Natura e Avon. Segundo ela, mais do que expor a marca durante os dias do festival, a estratégia contempla ações antes, durante e depois do evento para fortalecer a conexão com a cultura local.

Além das ativações em Parintins e de um camarote para convidados, a Natura distribuiu brindes para a galera (como é chamada a torcida dos bois), promoveu ações de proteção solar, inclusive para trabalhadores do festival, e ambientou 15 lojas no Amazonas com a temática da festa. A empresa também entregou hidratantes aos passageiros dos voos da Azul com destino à ilha. Ao final da viagem, a mensagem tradicional da tripulação da companhia aérea também foi adaptada para o espírito da cidade: “Tenham um dia azul e vermelho.”

A executiva da Natura também destaca a força e o protagonismo das cunhãs e de outras mulheres no festival. “O fortalecimento e a abertura de cada vez mais espaços para as lideranças e visões femininas, em todas as esferas do festival, são essenciais não apenas para manter a riqueza de Parintins viva, mas para inspirar as próximas gerações dentro e fora da região.”

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