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Mercado de Trabalho Americano Perde Força e Aumenta Aposta em Pausa do Fed

Payroll cria 29 mil vagas em setembro, ante 90 mil esperadas; salários desaceleram e aposta na manutenção dos juros em outubro chega a 79,6%, segundo o FedWatch

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O payroll, principal relatório sobre o mercado de trabalho americano, perdeu força em setembro em uma intensidade maior do que os economistas esperavam. Os Estados Unidos criaram 29 mil vagas fora do setor agrícola, menos de um terço das 90 mil projetadas por analistas consultados pela Reuters. A taxa de desemprego subiu de 4,1% para 4,2%, enquanto o salário médio por hora avançou apenas 0,1% no mês, para US$ 37,81. Em 12 meses, a alta foi de 3%, abaixo dos 3,2% esperados.

Mais importante do que qualquer um desses números isoladamente é a combinação entre eles: a economia está contratando menos, o desemprego começa a subir e a pressão salarial perdeu intensidade. Para o banco central americano, o Federal Reserve (Fed), que tenta calibrar os juros entre o combate à inflação e o risco de esfriar demais a atividade, é um sinal de que o mercado de trabalho já não exige o mesmo grau de aperto monetário.

O payroll também trouxe um passado menos vigoroso. O dado de julho, que inicialmente mostrava a criação de 21 mil empregos, foi revisado para uma perda de 10 mil postos. Agosto passou de 162 mil para 133 mil vagas. Juntos, os dois meses tiveram 60 mil empregos a menos do que havia sido informado anteriormente.

A mudança já aparece nas apostas para a próxima reunião do Fed. Segundo o FedWatch, 79,6% do mercado agora espera manutenção dos juros na reunião de outubro. Um mês atrás, essa parcela era de apenas 55%. A diferença mostra quanto a percepção sobre a trajetória da política monetária mudou em poucas semanas.

O movimento ganha importância porque o Fed acabou de elevar sua taxa básica em 0,25 ponto percentual, para o intervalo entre 3,75% e 4%, na reunião de setembro, a primeira alta em mais de três anos. A questão agora é se o banco central precisará continuar apertando a política monetária ou se poderá esperar por mais evidências sobre inflação e atividade.

“De modo geral, a leitura do indicador foi mais fraca”, diz Carlos Lopes, economista do banco BV. Para ele, o payroll reduz a urgência de uma nova alta em outubro”, diz.

A inflação, contudo, continua sendo o principal obstáculo para uma mudança mais clara de direção. O índice de preços ao consumidor (PCE), principal referência de inflação para o Federal Reserve, subiu 0,3% em agosto e acumulou alta de 3,4% em 12 meses. O chamado núcleo do PCE, que exclui alimentos e energia para capturar melhor a tendência subjacente dos preços, avançou 0,2% no mês e 3% em 12 meses.

O dado veio abaixo das expectativas: o mercado projetava alta de 0,4% para o índice cheio e de 0,3% para o núcleo e, portanto, oferece algum espaço para o Fed esperar antes de voltar a subir os juros. Mas há uma ressalva: a inflação ainda está acima da meta de 2% perseguida pelo banco central americano.

É por isso que um payroll fraco não significa, necessariamente, juros menores à frente. Significa, antes, que o custo de esperar ficou menor para o Fed. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, vê justamente essa combinação. O emprego mais fraco, o desemprego maior e os salários abaixo das projeções reduzem a pressão sobre a inflação e favorecem a manutenção dos juros. Mas, segundo ele, ainda não há garantia de cortes próximos.

Há ainda uma particularidade na composição do dado. Embora o saldo total tenha sido de 29 mil vagas, o setor privado criou 46 mil empregos. A construção adicionou 11 mil postos e a manufatura, 9 mil. Nos serviços privados, foram 28 mil vagas, das quais 20 mil vieram de educação e saúde.

Para Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital Nova York, isso sugere que a fraqueza do número agregado esteve concentrada no setor público. “A composição, porém, é mais construtiva do que o número cheio sugere”, afirma.

O quadro, portanto, é de desaceleração, não necessariamente de ruptura. Desde março, a taxa de desemprego americana permanece entre 4,1% e 4,3%. Em setembro, 7,1 milhões de pessoas estavam sem trabalho.

Para o Brasil, a diferença entre essas duas interpretações importa. O Fed não define a Selic, mas seus juros alteram o preço do dinheiro no restante do mundo. Quando aumenta a perspectiva de juros americanos mais altos por mais tempo, os Treasuries se tornam mais atraentes, o dólar tende a ganhar força e mercados emergentes enfrentam condições financeiras mais apertadas. Quando essa pressão diminui, ocorre o movimento contrário.

Foi o que aconteceu após o payroll. O índice DXY recuou de 102,07 para 101,85, enquanto o rendimento do Treasury de dez anos caiu de 5,22% para 5,17%. Para Flores, juros longos mais baixos dão sustentação, na margem, tanto às bolsas americanas quanto à brasileira.

Esse canal externo também entra no radar do Banco Central brasileiro. Não porque o Copom acompanhe mecanicamente cada decisão do Fed, mas porque dólar, Treasuries e fluxo de capital ajudam a determinar as condições financeiras que chegam à economia brasileira. Um Fed menos pressionado a subir juros reduz uma fonte de aperto externo, embora não substitua as variáveis domésticas que determinam a Selic.

É uma mudança pequena, mas relevante. Depois de uma alta de 0,25 ponto percentual em setembro, o Fed agora tem diante de si um mercado de trabalho que pede mais cautela.

Por enquanto, o emprego americano perdeu força suficiente para tornar uma nova alta de juros em outubro menos necessária. Para o Brasil, isso significa um pouco menos de pressão vinda de Washington, e mais espaço para que as decisões sobre a Selic sejam determinadas pelas condições da própria economia brasileira.

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