A ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente do Conselho de Governadores do Federal Reserve, Janet Yellen, fez um dos alertas mais duros desde que deixou o governo de Joe Biden. Em entrevista à Forbes Brasil, durante a XP Expert, ela afirmou que o presidente Donald Trump “está tentando destruir a independência do Federal Reserve (Fed)” e advertiu que os Estados Unidos apresentam condições cada vez mais favoráveis ao surgimento de um cenário de dominância fiscal – situação em que a política monetária passa a ser subordinada às necessidades de financiamento do governo.
Embora ressalte que o Fed continua atuando de forma independente e que não vê evidências de interferência direta nas decisões de política monetária, Yellen disse estar “extremamente preocupada” com a pressão exercida pela Casa Branca sobre a instituição. ” “Acho que ele (Trump) realmente está tentando destruir a independência do Federal Reserve”, afirmou.
A declaração faz referência a uma escalada de ataques de Trump ao banco central, intensificados durante a gestão de Jerome Powell, encerrada neste ano. Ao longo de seu mandato, o presidente pressionou repetidamente o Fed por cortes de juros, criticou publicamente as decisões de política monetária e questionou a atuação da autoridade monetária.
Desde que Kevin Warsh assumiu a presidência do Federal Reserve, em maio deste ano, Trump ainda não direcionou críticas públicas semelhantes ao novo comandante da instituição. Em sua primeira reunião à frente do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), Warsh manteve o compromisso com a meta de inflação de 2% e evitou sinalizações mais claras sobre os próximos passos dos juros, reforçando uma estratégia de menor orientação prospectiva (“forward guidance”) e maior dependência dos dados econômicos.
Para Yellen, o problema vai além das divergências sobre juros. O risco está na erosão gradual das barreiras institucionais que garantem a autonomia do banco central. Ela lembrou que, embora a Suprema Corte tenha recentemente preservado o status especial do Federal Reserve ao limitar a autonomia de outras agências reguladoras independentes, Trump continua tentando ampliar sua influência sobre a instituição. Segundo Yellen, caso esse tipo de comportamento passe a ser considerado aceitável, poderá representar uma ameaça significativa à credibilidade do banco central. “Até agora, não vejo evidências de que a política monetária tenha sido comprometida. Mas isso representa uma ameaça muito séria.”
O risco da dominância fiscal
Além da independência institucional, Yellen demonstrou preocupação com outro fenômeno que considera crescente nos Estados Unidos: a possibilidade de a política monetária passar a responder às necessidades fiscais do governo. Na literatura econômica, esse cenário é conhecido como dominância fiscal – quando o elevado endividamento público passa a limitar a atuação do banco central, pressionando-o a manter juros artificialmente baixos para reduzir o custo de financiamento da dívida.
Segundo Yellen, alguns dos elementos que tradicionalmente antecedem esse processo já estão presentes. “Há um presidente que disse explicitamente que quer juros mais baixos porque está preocupado com o custo de carregamento da dívida pública. É exatamente assim que a dominância fiscal começa.”
Ela pondera que esse quadro ainda não se materializou. “Ele ainda não foi bem-sucedido. O Federal Reserve continua tomando decisões de forma independente.” Mesmo assim, considera que o risco aumentou. “Neste momento, ainda é apenas um risco, mas eu diria que esse risco aumentou.”
Dívida elevada amplia a pressão
Na avaliação da economista, a principal fonte dessa preocupação é a trajetória das contas públicas americanas.
Embora considere o nível atual da dívida administrável, Yellen afirma que a dinâmica fiscal se tornou mais preocupante com o aumento dos juros. “Não estou realmente preocupada com o nível atual da dívida. O que me preocupa é sua trajetória.”
Ela observa que os Estados Unidos registram hoje um déficit primário próximo de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) e um déficit total, incluindo o pagamento de juros, de cerca de 6% do PIB – patamar normalmente observado apenas durante guerras ou recessões profundas. Ao mesmo tempo, o custo da dívida aumentou significativamente. “O gasto com juros se tornou uma despesa muito relevante.”
Segundo Yellen, projeções do Congressional Budget Office indicam que a relação entre dívida e PIB poderá alcançar cerca de 120% em meados da próxima década caso nenhuma medida seja adotada. Ela atribui essa trajetória principalmente ao envelhecimento da população americana, ao crescimento das despesas com saúde e Previdência e à ausência de consenso político para enfrentar o problema. “Nem republicanos nem democratas estão apresentando propostas significativas de redução do déficit.”
Para ela, ainda existe espaço para estabilizar as contas públicas, mas o tempo está se tornando um fator cada vez mais importante.
“Acredito que seja possível lidar com esse problema. Mas precisamos começar logo para colocar a dívida em uma trajetória sustentável.”
Um debate que vai além dos Estados Unidos
Os alertas de Yellen extrapolam o cenário doméstico americano. A independência do Federal Reserve é considerada um dos principais pilares da estabilidade financeira global, uma vez que suas decisões influenciam o custo do crédito, os fluxos internacionais de capital, o comportamento do dólar e o financiamento de economias emergentes.
Caso a política monetária passe a ser percebida como subordinada às necessidades fiscais do governo americano, investidores podem exigir prêmios maiores para financiar a dívida dos Estados Unidos, elevando os juros de longo prazo e aumentando a volatilidade dos mercados internacionais. Por isso, embora ressalte que ainda não vê interferência direta sobre as decisões do Fed, Yellen considera que a tentativa de enfraquecer a autonomia da instituição representa um risco que não deve ser tratado apenas como um debate político, mas como uma questão com potencial de afetar a arquitetura financeira internacional.