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“Cautelosa”: Renner Reduz Projeção de Vendas após Trimestre e Ação Desaba

Diretor financeiro da Renner, Daniel Martins, afirma que a varejista espera acelerar as vendas no segundo semestre, apesar do cenário macroeconômico desafiador

7 min

A Lojas Renner (LREN3) reduziu sua projeção de crescimento das vendas para 2026 após registrar um segundo trimestre abaixo do planejamento. Além da desaceleração da receita, o balanço mostrou queda de 5,3% no Ebitda ajustado consolidado e redução de 59,4% no fluxo de caixa livre. O lucro líquido, por sua vez, ficou praticamente estável em R$ 404,6 milhões.

O efeito é sentido no valor das ações. Na bolsa paulista, por volta de 10h30, os papéis da empresa caíam 11,42%, a R$11,94, trabalhando em mínimas desde abril do ano passado. Os papéis também respondiam pelo pior desempenho do Ibovespa, que cedia 0,12%.

A varejista passou a estimar crescimento de 4% a 8% para a receita líquida de varejo neste ano. A faixa anterior ia de 9% a 13%. Considerando o ponto médio dos intervalos, a expectativa caiu de 11% para 6%.

A revisão ocorreu depois de a receita líquida de varejo crescer 1,1% no segundo trimestre, para R$ 3,69 bilhões. As vendas em mesmas lojas, indicador que considera unidades em operação há pelo menos 12 meses, avançaram 0,5%.

No primeiro semestre, a receita líquida de varejo aumentou 2,5%, para R$ 6,57 bilhões. O desempenho indica que a Renner precisará acelerar as vendas nos últimos seis meses do ano para alcançar até mesmo o piso da nova projeção.

A companhia atribuiu o resultado abaixo do esperado a uma base de comparação elevada, ao menor fluxo de clientes nas lojas físicas durante a Copa do Mundo e a um ambiente econômico e competitivo mais difícil.

Segundo a Renner, desde a elaboração das projeções para 2026 houve deterioração do cenário macroeconômico, com redução dos juros em ritmo mais lento e aumento do endividamento das famílias. A companhia também citou o maior envolvimento dos consumidores com plataformas de apostas esportivas e o aumento da atividade de plataformas internacionais de comércio eletrônico.

A Copa do Mundo ainda teve reflexos sobre as vendas de julho, de acordo com o diretor financeiro da Renner, Daniel Martins. Mesmo assim, a companhia espera acelerar na segunda metade do ano, apoiada por uma base de comparação mais favorável, pela abertura de lojas e pela reinauguração de unidades reformadas.

“Você retoma um crescimento maior do que teve no primeiro semestre, no segundo trimestre”, afirmou Martins em entrevista à Reuters.

Resultado de serviços financeiros diminui

O Ebitda ajustado consolidado da Renner alcançou R$ 844,6 milhões no segundo trimestre, queda de 5,3% em relação ao mesmo período de 2025. A margem passou de 24,4% para 22,9%, uma redução de 1,5 ponto percentual.

O resultado foi pressionado principalmente pela operação de serviços financeiros. A Realize apresentou resultado de R$ 53,5 milhões, ante R$ 118,5 milhões no segundo trimestre do ano passado.

A comparação direta representa uma queda de 54,9%, mas é influenciada por um efeito contábil registrado em 2025 relacionado à Resolução 4.966. Excluído esse efeito, o resultado comparável dos serviços financeiros recuou 21,9%.

As receitas da operação financeira diminuíram 2%, enquanto as despesas operacionais cresceram 8,1%. As perdas líquidas com crédito caíram 2,3% em valor, para R$ 298,6 milhões, mas passaram a representar 4,5% da carteira média, aumento de 0,4 ponto percentual.

Martins afirmou que a companhia não identifica problemas de inadimplência na carteira, mas reconheceu que o cenário ainda não é favorável para ampliar a concessão de crédito a consumidores de maior risco.

“A Lojas Renner segue cautelosa, aguardando o momento que possa eventualmente fazer uma originação a um perfil de risco maior”, disse.

O executivo citou os juros elevados, as preocupações com a política fiscal e a inflação, além da volatilidade internacional, como justificativas para a postura conservadora.

Operação de varejo preserva rentabilidade

Embora o resultado consolidado tenha recuado, a operação de varejo apresentou crescimento de rentabilidade. O Ebitda do segmento aumentou 2,3%, para R$ 791,2 milhões. A margem Ebitda passou de 21,2% para 21,4%.

A margem bruta do varejo alcançou 57,5%, ante 57,1% um ano antes, resultado recorde para um segundo trimestre, segundo a companhia. No segmento de vestuário, a margem subiu de 58,4% para 58,7%.

O avanço foi atribuído à gestão dos estoques, à maior participação das vendas a preço cheio e ao efeito favorável do câmbio. As despesas operacionais cresceram 1,5%, para R$ 1,34 bilhão, ritmo próximo ao da receita.

“Para o segundo semestre, vamos contar com uma margem relativamente estável e saudável”, afirmou Martins. A companhia indicou que não pretende sacrificar rentabilidade para aumentar o volume de vendas.

Os estoques cresceram 6,5% no trimestre. A Renner afirmou, no entanto, que a qualidade dos produtos armazenados permanece adequada. A participação de itens com mais de 16 semanas caiu 11,9% na comparação anual.

O canal digital também apresentou desempenho superior ao das lojas físicas. O volume bruto de mercadorias vendido pela internet, o GMV, cresceu 13,1%, para R$ 837,6 milhões. A participação do digital nas vendas totais avançou de 15,2% para 16,9%.

Fluxo de caixa livre cai 59%

Outro ponto de atenção foi a geração de caixa. O fluxo de caixa livre passou de R$ 333,1 milhões no segundo trimestre de 2025 para R$ 135,1 milhões neste ano, uma redução de 59,4%.

Segundo a companhia, a diminuição refletiu o Ebitda mais baixo e a maior necessidade de capital de giro, influenciada pelos estoques e por movimentos em outras contas operacionais.

A Renner encerrou junho com R$ 1,92 bilhão em caixa e aplicações financeiras. A posição líquida de caixa ficou em R$ 1,16 bilhão, ante R$ 1,52 bilhão no final de 2025. A redução ocorreu principalmente após o uso de R$ 313,1 milhões na recompra de ações e o pagamento de R$ 384,2 milhões em juros sobre capital próprio no semestre.

Martins afirmou não haver preocupação com a geração de recursos e ressaltou que a companhia costuma produzir mais caixa na segunda metade do ano.

“A Lojas Renner é uma forte geradora de caixa no segundo semestre e continuará sendo assim”, declarou.

O lucro líquido ficou em R$ 404,6 milhões, praticamente estável na comparação anual. Excluídos efeitos extraordinários, o lucro ajustado cresceu 8%, para R$ 397,3 milhões. O lucro por ação avançou 3,5%, para R$ 0,4165.

Expansão fica concentrada no segundo semestre

Para acelerar as vendas, a Renner manterá o plano de expansão da rede. O grupo abriu 16 lojas no primeiro semestre: três da marca Renner, dez da Youcom e três da Camicado.

A projeção para o ano inteiro continua entre 50 e 60 inaugurações. Desse total, entre 22 e 30 serão da Renner, de 23 a 25 da Youcom e aproximadamente cinco da Camicado. A maior parte das aberturas, portanto, ficará concentrada no segundo semestre.

A companhia também está renovando sete lojas relevantes da marca Renner. Cinco já foram entregues. As unidades dos shoppings Eldorado, em São Paulo, e Tijuca, no Rio de Janeiro, devem ser reinauguradas no terceiro trimestre.

Apesar de reduzir a estimativa para 2026, a Renner manteve a projeção de crescimento anual da receita entre 9% e 13% para o período de 2027 a 2030. As demais metas, incluindo investimentos, abertura de lojas e distribuição de capital aos acionistas, também permaneceram inalteradas.

O resultado mostra uma desaceleração das vendas maior do que a prevista pela administração, com efeitos sobre o Ebitda consolidado e a geração de caixa. Ao mesmo tempo, a companhia preservou a margem bruta, manteve lucro estável e encerrou o trimestre com posição líquida de caixa. A reação do consumo e a execução do plano de expansão serão determinantes para o cumprimento da nova projeção anual.

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