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Relatório FTI Consulting: Risco Político e Geopolítico Vira Variável de Negócio no Brasil, Mas Poucas Empresas Se Preparam

Para a diretora sênior Raquel Rocha, a maioria das companhias, sobretudo as pequenas e médias, ainda isola política e geopolítica da matriz de risco operacional

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A tarifa adicional de 25% que os Estados Unidos passaram a cobrar sobre a maior parte das importações brasileiras, em vigor desde 22 de julho, e a entrada do Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) na lista de organizações terroristas estrangeiras de Washington têm um ponto em comum: são decisões tomadas fora do país que recaem diretamente sobre o custo, o compliance e a reputação de quem opera no Brasil.

É esse novo desenho, em que política doméstica, política externa e segurança pública se fundiram num único ambiente de risco, que a FTI Consulting procurou mapear no relatório How Geopolitics and Domestic Politics Have Rewired Brazil’s Business Risk.

O documento elenca cinco riscos, todos classificados como de alta probabilidade e alto impacto: a capacidade de governabilidade e a fricção estrutural entre os poderes; a importância da corrida ao Senado; a chamada armamentização da interdependência, que inclui a tarifa da Seção 301 e o Pix, apontado pelo governo americano como um “campeão nacional” que desfavorece as bandeiras de cartão dos EUA; o uso das narrativas de segurança pública como instrumento eleitoral; e a polarização entre bolsonarismo e petismo.

Mais do que a lista, porém, o que interessa ao empresariado é a leitura de que essas variáveis deixaram de ser episódicas.

“A situação atual não é novidade, mas é um resultado, uma fotografia muito mais impactante do que a gente tinha nos últimos anos”, afirma Raquel Rocha, diretora sênior da FTI Consulting. Para ela, o quadro é o acúmulo de anos em que governos de diferentes matizes tiveram dificuldade de aprovar reformas estruturais e de organizar a relação entre os poderes.

Do ruído de fundo à variável importante

O risco que mais afeta o dia a dia das empresas, na leitura de Rocha, é a previsibilidade. E o melhor exemplo disponível é a reforma tributária. “A gente aprovou que a reforma vai acontecer, mas não tem clareza do que ela é no seu detalhe, qual vai ser a mudança do dia a dia para o empresariado. Muitas empresas ainda estão meio que esperando a discussão evoluir”, diz.

Para a diretora, na prática essa indefinição vira paralisia: “Não vou me preparar para um split payment por enquanto, porque não sei se de fato isso vai ser aprovado. Não vou começar a mudar os códigos do meu produto, porque não sei se essa é a versão final da reforma”.

Essa imprevisibilidade estrutural, e não o resultado das urnas em si, é o que o relatório trata como pano de fundo permanente. O estudo se apoia em entrevistas com acadêmicos brasileiros conduzidas pela própria FTI e um deles, o cientista político Guilherme Casarões, sustenta no relatório que nem uma maioria legislativa alinhada ao presidente eleito garantiria governabilidade, o que reforça a distância entre vitória eleitoral e capacidade de governar.

A matriz de risco que ignora a política

Se o ambiente mudou, a resposta corporativa ainda engatinha. “O que a gente tem visto de forma bem ampla é que as empresas ainda são pouco preparadas, no sentido estrutural, para entender, identificar esses riscos e criar planos de mitigação”, diz Rocha.

O ponto vale para todas, desde as pequenas e médias até as grandes e multinacionais: muitas mantêm áreas de relações governamentais voltadas apenas para o Legislativo e deixam de olhar para a pauta internacional, esquecendo de pensar em como isso vai impactar diretamente o seu negócio”.

A falha mais comum, segundo ela, é metodológica. Se a empresa isola as variáveis político-regulatória e geopolítica da matriz operacional acaba perdendo o propósito da análise de risco assumindo um teste de laboratório, em que se examina câmbio, juros e rotas logísticas como se não houvesse oscilação política capaz de afetá-los.

Incorporar essas variáveis de forma integrada é difícil porque exige que todas as áreas da empresa conversem e para Rocha as empresas ainda precisam ganhar maturidade para tratar da ameaça. “As empresas que atuam no Brasil ainda estão num nível de maturidade inicial para lidar com essas dinâmicas”, completa.

O ponto cego das pequenas e médias empresas

O desafio se agrava um degrau abaixo. Rocha observa que, quando se fala em pequenas e médias empresas brasileiras, fala-se sobretudo em serviços e que essas companhias têm pouca visibilidade desses riscos e a razão é um equívoco de percepção. Existe a compreensão de que a política está muito longe das decisões da empresa.

O paralelo que a diretora traça é a pandemia. “A maioria das empresas não tinha fluxo de caixa. Não tinha o básico para conseguir pensar num médio, longo prazo”, lembra, remetendo às linhas de financiamento criadas para simplesmente manter o caixa girando.

Boa parte do pequeno empresário, vive sufocado e não encontra espaço para incorporar análise de risco geopolítico. Para esse público, a recomendação é pragmática: o esforço de acompanhamento deve se concentrar nas variáveis econômicas mais próximas da operação.

“Pode ser que a taxa de juros impacte mais do que o câmbio, ou o contrário. Depende se você tem algum vínculo com importação ou não. Se a gente olha para os dados isolados, desemprego, inflação, eles são todos positivos. Mas o brasileiro médio vai dizer que a vida dele piorou, porque o poder de compra foi prejudicado”, diz Rocha para exemplificar que o erro de leitura pode ser comum.

O Senado subestimado e o horizonte de 2030

Entre os riscos que o mercado costuma ignorar, o relatório destaca a composição do Senado, que renova mais da metade das cadeiras em outubro. Soma-se a isso o peso crescente das presidências das Casas e o saldo para o ambiente de negócios e a falta de previsibilidade e morosidade.

No relatório, Casarões vai além e alerta que um Senado mais alinhado ao bolsonarismo poderia abrir caminho para o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, o que elevaria a insegurança jurídica e regulatória.

A saída que a FTI propõe passa por uma mudança de postura do empresariado. “A nossa intenção com essa análise é fazer com que mais empresas se proponham a ter esse corpo a corpo. Por muito tempo o empresariado só falava com o governo quando precisava pedir alguma coisa. A gente precisa mudar essa dinâmica para que seja algo construído por todas as partes.”

Se o cenário se confirmar, o recado às empresas é que o risco político não se encerra na apuração de outubro mas caminha de mãos dadas com o Brasil rumo à uma crise institucional que já é vista no horizonte de 2030.

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