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Entre o Clima e o Passivo Fiscal: os Desafios do Rio Grande do Sul, Quinta Maior Economia do País

O estado enfrenta a volatilidade das safras, a rigidez do orçamento público e o envelhecimento populacional enquanto busca por produtividade e transição tecnológica

7 min

Com um PIB nominal de R$ 650,11 bilhões, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Rio Grande do Sul ocupa o posto de 5° maior economia do Brasil. O estado é berço de um setor agropecuário altamente competitivo, de um parque industrial tradicional e diversificado e de um dos sistemas universitários mais qualificados do país. 

No entanto, por trás desses números expressivos, desenha-se um quadro de desaceleração relativa que já dura décadas: o ritmo de crescimento gaúcho tem ficado aquém da média nacional e, sobretudo, atrás do desempenho de seus vizinhos da região sul, Santa Catarina e Paraná.

Para os próximos gestores públicos e para o setor produtivo, a missão de acelerar o crescimento passa por um equilíbrio delicado entre a mitigação de choques climáticos recorrentes, a gestão de um severo garrote fiscal e a urgência de reter talentos qualificados. 

Para o professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mauricio Weiss, o estado têm perdido espaço na corrida frente aos seus pares sulistas. “O Rio Grande do Sul, dentro dos países do Sul do Brasil, sempre foi mais desenvolvido. No entanto, já tem um tempo que estamos atrás do Paraná e Santa Catarina”, diz. Ele explica um dos motivos: “a gente tá tendo muita saída de jovens para novos empreendimentos. Santa Catarina e o Paraná têm adotado políticas mais agressivas de atração de empresas.” 

Atrelado à isso, o estado tem a menor taxa de fecundidade do país e uma população cada vez mais idosa, de acordo com levantamento do Censo do IBGE, o que diminui a janela de pessoas economicamente ativas e pressiona a região por produtividade.

As consequências desse déficit são sentidas no passivo fiscal do RS, um dos primeiros estados do país a implementar uma previdência universal para os servidores públicos, ainda no início dos anos 1980. Hoje o estado gasta mais com servidores aposentados do que com colaboradores ativos, desequilibrando as contas públicas.

Por outro lado, o agronegócio é o responsável por puxar os números de sucesso da região. De acordo com dados da Pesquisa Agropecuária Municipal (PAM) feita pelo IBGE, o estado responde por cerca de 70% da produção nacional de arroz, além de figurar entre os líderes na colheita de soja, milho e trigo.

Essa força, contudo, aumenta a dependência do Rio Grande do Sul ao clima e expõe o PIB às mudanças climáticas.

Agro e a vulnerabilidade climática

O RS tem cerca de 85% do território ocupado pela produção agrícola, porém, o estado é a região com a maior incidência de secas graves no Brasil nos últimos 30 anos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

As oscilações climáticas tem afetado diretamente o PIB do estado, lembra Aod Cunha, ex-secretário da Fazenda do Estado do Rio Grande do Sul e economista. “Em 2022, enquanto o Brasil cresceu 3%, o PIB do Rio Grande do Sul recuou 4,5% devido a um período de estiagem. Em contrapartida, em 2024 (ano de enchentes, mas com dinâmica de recuperação e apoio federal), o estado registrou crescimento de 4,5% frente a 3% do país”.

Para além do fluxo corrente do PIB, o impacto dos choques extremos destrói o patrimônio acumulado pelo estado. “O PIB analisa a produção no período corrente. A perda de estoque como maquinários, casas e infraestrutura não é refletida no indicador. Parte do crescimento registrado no período pós-desastre é simplesmente o custo para reconstruir o que foi perdido”, explica Weiss.

Sem investimento contínuo em prevenção e contenção climática, o maior motor do estado vira a principal trava de crescimento.  Para voltar a impulsionar a economia, Weiss aconselha que o próximo gestor deva ter uma agenda de diversificação e investimentos no estado. “Então, tem que haver um investimento substancial, para depender menos da parte do agro, né? O agronegócio como um todo é interessante. O problema é a dependência.” 

O caminho apontado para mitigar essa dependência é a transição da matriz produtiva para setores de maior valor agregado, apostando fortemente em tecnologia de ponta, inovação e serviços voltados à exportação.

Como atrair empresas ainda lidando com a dívida fiscal 

Devido a uma dívida histórica muito alta em relação à sua receita, o estado possui pouquíssimo espaço fiscal para realizar investimentos diretos. Para gerar alguma folga financeira para investimentos no curto prazo, o governo estadual precisa manter um forte compromisso com o ajuste fiscal e o controle de gastos.

“A principal medida é o comprometimento de ajuste fiscal e de controle de gastos. Assim é possível ter alguma folga fiscal para o investimento, mesmo tendo uma dívida muito alta”, indica Cunha ao próximo gestor público.

O ex-secretário da Fazenda do Estado do Rio Grande do Sul também sugere apostar em parcerias público-privada por programas de concessão. “O estado precisa avançar num desenho de concessões que também possam aumentar a oferta de investimentos.”

A urgência de impulsionar a infraestrutura passa por modernizar as rotas de escoamento das indústrias manufatureiras, como a da Serra Gaúcha, por exemplo, que sofre com a falta de malha ferroviária e de gargalos rodoviários históricos. Para Weiss, esse é um exemplo de como a parceria público-privada pode ser positiva para o estado.

Outro caso prático e emblemático de política industrial e atração de tecnologia é o da Ceitec, estatal de semicondutores instalada em Porto Alegre. Weiss destaca que “a Ceitec, tem um papel importante de atração de mão de obra que pode criar todo um um know-how para o estado.”

Para completar, a recém-aprovada Reforma Tributária surge como uma luz no fim do túnel ao migrar a cobrança do imposto para o local de consumo e eliminar progressivamente a guerra fiscal via ICMS, o novo sistema extingue a vantagem competitiva de estados que concediam isenções.

Para Weiss, o fim da disputa tarifária favorece o Rio Grande do Sul, que possui menor folga orçamentária para conceder incentivos fiscais. “A competição entre os estados do Sul tende a se equalizar, passando a focar na qualidade do ambiente de negócios, infraestrutura e capital humano.”

Reter talentos para agregar valor ao estado

Diferente do diagnóstico de que faltaria formação de profissionais no estado, os especialistas indicam que o verdadeiro desafio está na capacidade de atração e fixação de talentos.

O Rio Grande do Sul abriga um parque universitário e tecnológico de excelência — com instituições de destaque como a UFRGS, PUCRS e Unisinos, além de ecossistemas inovadores como o Instituto Caldeira, o Tecnopuc e o Tecnosinos.

“A mão de obra não é o problema; o problema é conseguir reter. A gente forma muita gente qualificada. A UFRGS é uma universidade gigantesca, além de contarmos com diversas instituições públicas e privadas de ponta. A mão de obra está aqui, só que vai saindo”, analisa o professor Weiss.   

Cunha complementa que a dinâmica migratória do estado não é marcada por um êxodo massivo, mas por uma baixa capacidade de atração de novos moradores de fora do estado: “Quando olhamos os dados de migração total, o gaúcho sai pouco. O Rio Grande do Sul tem, na verdade, a menor taxa de entrada de população do país. O desafio demográfico exige atrair novas pessoas e oferecer condições para que os talentos qualificados optem por permanecer.”

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