As vendas no varejo brasileiro recuaram 0,8% em julho na comparação com junho, resultado quatro vezes pior que a queda de 0,2% projetada por economistas consultados pela Reuters. Foi o desempenho mais fraco em três meses e apenas a segunda retração mensal registrada neste ano.
Na comparação com julho de 2025, o comércio avançou 1,2%, também abaixo da expectativa de alta de 2,15%. No acumulado do ano, as vendas cresceram 1,8%. Em 12 meses, a expansão desacelerou para 1,6%, segundo os dados divulgados nesta terça-feira (15) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A composição da Pesquisa Mensal de Comércio, a PMC, mostra que a perda de fôlego atingiu principalmente os segmentos mais dependentes de crédito, confiança e renda disponível. Cinco das oito atividades pesquisadas pelo IBGE registraram queda em julho.
Móveis e eletrodomésticos tiveram o pior resultado, com retração de 4,9%, a maior desde dezembro de 2023. As vendas de livros, jornais, revistas e papelaria caíram 4,2%, enquanto tecidos, vestuário e calçados recuaram 2,7%.
Também ficaram no campo negativo outros artigos de uso pessoal e doméstico, com queda de 2,2%, e hipermercados e supermercados, com baixa de 0,2%.
“De modo geral, o dado de varejo reafirma os indícios de uma demanda enfraquecida na economia brasileira, com esgotamento tanto da renda quanto do crédito”, afirma André Valério, economista sênior do Inter.
Segundo ele, as categorias mais associadas ao consumo discricionário apresentaram quedas expressivas, enquanto os poucos segmentos que avançaram tiveram desempenho modesto.
Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria cresceram 0,6%. Equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação também avançaram 0,6%, enquanto combustíveis e lubrificantes subiram 0,3%.
Consumo essencial evita resultado ainda pior
Apesar da pequena queda mensal, os supermercados ainda foram responsáveis por sustentar o resultado do varejo na comparação anual. O segmento cresceu 2,9% em relação a julho de 2025 e contribuiu com 1,6 ponto percentual para a alta total de 1,2%.
Isso significa que, sem os supermercados, o varejo teria registrado retração na comparação anual, segundo análise da Lev Intelligence.
Para Jason Vieira, economista-chefe da Lev, o resultado indica que o consumo essencial continua relativamente sustentado, mas os bens discricionários apresentam uma deterioração mais ampla. A queda simultânea em móveis, eletrodomésticos, vestuário e artigos pessoais reduz a possibilidade de que o desempenho seja apenas uma oscilação pontual.
No varejo ampliado, que inclui veículos, material de construção e atacado de alimentos, as vendas cresceram 0,4% em julho, ante expectativa de 0,5% considerada pela ASA. O resultado, porém, veio depois de uma queda revisada de 1,1% em junho.
A alta foi sustentada por material de construção, com avanço de 0,7%, e veículos, motos, partes e peças, com crescimento de 0,3%. Na comparação anual, o varejo ampliado avançou 1,8%.
PIB perto da estagnação no terceiro trimestre
Para Leonardo Costa, economista do ASA, a PMC reforça os sinais de enfraquecimento da atividade no início do terceiro trimestre.
“O resultado reforça a leitura de que os indicadores de atividade no início do terceiro trimestre seguem mais fracos na margem e consistentes com um cenário de desaceleração gradual da economia”, afirma.
A perda de força do varejo se soma à estabilidade do setor de serviços e ao crescimento modesto da produção industrial em julho. O ASA projeta alta de 0,2% para o Produto Interno Bruto no terceiro trimestre, na comparação com os três meses anteriores.
O Inter também espera que o Índice de Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-Br, confirme o desempenho fraco de julho, com retração de 0,2%. Para 2026, o banco projeta crescimento de 1,7% para o PIB.
O consumo das famílias já havia recuado 0,4% no segundo trimestre, a primeira queda em três trimestres. Mesmo com o mercado de trabalho ainda aquecido, a inflação mais fraca e as medidas de estímulo ao consumo, a Selic em 14% continua limitando o crédito e as compras de bens duráveis.
Os números da PMC também chegam às vésperas da decisão do Comitê de Política Monetária. O Copom anuncia nesta quarta-feira (16) a nova taxa básica de juros, com expectativa predominante de corte de 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano.
A fraqueza do comércio reforça o espaço para a continuidade dos cortes. Ainda assim, a inflação de serviços, os riscos fiscais e cambiais e a alta do petróleo reduzem a possibilidade de uma aceleração imediata do ciclo.