O mercado financeiro brasileiro levou apenas um pregão para mudar de patamar. Na segunda-feira (5), depois de Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Ibovespa disparou 7,70%, fechou aos 206.904 pontos e superou pela primeira vez a marca dos 200 mil pontos. O dólar caiu 4,12%, para R$ 5,0010, depois de tocar R$ 4,9530 durante o dia. Os juros futuros também recuaram, sobretudo nos vencimentos mais longos.
A reação foi menos uma celebração do estado atual da economia brasileira do que uma aposta no que ela poderá se tornar. O resultado eleitoral alterou as expectativas sobre a política econômica a partir de 2027, levando investidores a reavaliar o risco fiscal do país, a trajetória dos juros e o valor das empresas brasileiras. A perspectiva de uma mudança de orientação econômica ganhou força nos preços dos ativos antes mesmo de haver um novo governo ou medidas concretas.
O resultado eleitoral levou investidores a reavaliar o risco fiscal do país, a trajetória dos juros e o valor das empresas brasileiras. A perspectiva de uma mudança na orientação econômica ganhou espaço nos preços antes mesmo de haver um novo governo ou medidas concretas.
Para quem ainda não investiu, a dúvida é se ainda há dinheiro a ganhar até o segundo turno, em 25 de outubro, ou se a disparada deixou os ativos caros demais. A resposta depende do horizonte e do risco que o investidor está disposto a assumir. Tentar lucrar com oscilações eleitorais nas próximas semanas é diferente de comprar ações de empresas que podem se beneficiar de uma redução duradoura dos juros.
A janela de ganhos já fechou depois da disparada da Bolsa?
Boa parte da reação inicial já aconteceu. Para Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, o contrato de DI para 2029, que reflete as expectativas para os juros futuros, recuou de aproximadamente 13,6% para 12,6%, uma redução de 1 ponto percentual. No câmbio, o dólar passou de cerca de R$ 5,22 para menos de R$ 5.
Quem já estava posicionado capturou uma parcela importante dessa reprecificação. Para quem entra agora, a questão é se haverá uma nova rodada de valorização suficiente para compensar o risco de uma reversão.
Araújo vê espaço para o dólar testar R$ 4,80 a R$ 4,90 caso as próximas pesquisas mantenham Flávio Bolsonaro competitivo ou à frente. Os juros futuros de prazo mais longo também poderiam cair, à medida que o mercado incorporasse uma percepção de menor risco fiscal.
O cenário contrário, porém, também está no radar. Uma recuperação de Lula nas pesquisas poderia levar o dólar novamente para R$ 5,30 ou R$ 5,50, segundo as estimativas do consultor. Quem apostar na continuidade da queda da moeda pode, portanto, perder mais em uma reversão do que ganhar caso o movimento esperado se confirme.
Lucas Xavier, head da mesa de renda variável e sócio da AW Capital, também considera improvável que o mercado repita automaticamente a disparada do primeiro turno. Na avaliação dele, a primeira votação tende a provocar movimentos mais fortes porque permite comparar o resultado efetivo com as pesquisas e reduz parte das incertezas sobre a disputa. Até o segundo turno, uma parcela maior das expectativas já estará incorporada aos preços.
Se o resultado confirmar o cenário que os investidores passaram a considerar mais provável, pode haver realização de lucros. É o movimento conhecido como “comprar no boato e vender no fato”: os ativos sobem diante da expectativa de um acontecimento, mas recuam quando ele se concretiza, porque parte da notícia já estava precificada.
“Quanto mais surpreendente for o resultado, mais volatilidade teremos”, afirma Xavier. Para ele, o investidor precisa identificar quais ativos podem reagir a cada cenário, em vez de simplesmente apostar que a Bolsa continuará subindo.
A conclusão é que a janela de oportunidades não necessariamente se fechou, mas mudou de natureza. Depois de uma alta expressiva, perseguir o mesmo movimento pode oferecer uma relação entre risco e retorno menos favorável. A alternativa é procurar ativos com potencial de valorização adicional ou estruturar posições compatíveis com um cenário específico, sem comprometer uma parcela excessiva do patrimônio.
Dólar abaixo de R$ 5 ainda vale a aposta?
A queda da moeda americana pode parecer uma oportunidade para quem espera uma valorização adicional do real. Mas, depois do recuo de 4,12% em um único pregão, o potencial de ganho precisa ser comparado ao risco de uma recuperação do dólar. Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, avalia que a relação entre risco e retorno ficou menos atraente. “ Pode existir espaço adicional para valorização do real em um cenário benigno, mas boa parte do primeiro movimento já aconteceu”, afirma.
Há outro fator a considerar: o câmbio não depende apenas da eleição brasileira. Juros nos Estados Unidos, condições financeiras internacionais e acontecimentos geopolíticos também influenciam a cotação. Mesmo que o cenário doméstico favoreça o real, fatores externos podem limitar sua valorização.
Isso não significa que comprar dólar tenha perdido toda a utilidade. Para quem tem despesas previstas em moeda estrangeira, como viagens, cursos ou compromissos empresariais, a queda pode reduzir o custo de uma necessidade concreta. Já para quem ainda não possui investimentos internacionais, a diversificação pode fazer sentido no longo prazo, independentemente de uma previsão para o câmbio nas próximas semanas.
Xavier avalia que investidores sem exposição internacional podem aproveitar a cotação para começar a diversificar a carteira. A tese, nesse caso, não é necessariamente ganhar com uma alta imediata do dólar, mas reduzir a concentração de recursos no Brasil e acessar mercados e setores com dinâmicas diferentes, como o de inteligência artificial.
Quais ações podem subir se os juros caírem?
Para quem aceita investir em renda variável, uma possibilidade é buscar empresas que possam se beneficiar de uma redução sustentável dos juros. Nesse caso, o horizonte vai além do segundo turno: a valorização depende de as expectativas eleitorais se traduzirem em condições econômicas mais favoráveis.
João Luiz Braga, sócio e analista de investimentos da Encore Asset Management, prefere empresas ligadas à economia doméstica, como varejistas, incorporadoras voltadas para a baixa renda e Localiza. Sua tese é que esses negócios foram penalizados pelo custo elevado do crédito e estão negociados a preços baixos em relação ao potencial de seus resultados.
“Para mim, o melhor trade neste momento é apostar nas empresas domésticas da Bolsa”, afirma Braga. Ele acredita que a valorização pode continuar depois da eleição, desde que a expectativa de mudança na orientação econômica se traduza em juros menores e melhora da atividade.
A lógica é que juros mais baixos reduzem o custo de financiamento das empresas e podem estimular o consumo, o crédito e a compra de imóveis. Também aumentam o valor presente dos lucros esperados para os próximos anos, o que tende a favorecer ações que ficaram descontadas durante um período de taxas elevadas.
Xavier também vê espaço para empresas de varejo e bens de consumo em um cenário de crédito mais barato. Os grandes bancos brasileiros são outra possibilidade apontada pelo analista, tanto pela capacidade de atravessar diferentes ciclos econômicos quanto pelo potencial de valorização caso o ambiente doméstico melhore.
Empresas endividadas também podem ter espaço para uma reavaliação caso os juros caiam. Xavier considera possível que algumas companhias com dívidas relevantes atreladas ao CDI valham pelo menos 30% a mais em um cenário de redução da Selic para um dígito. Essa é uma estimativa condicionada à concretização desse cenário, e não uma previsão generalizada para as ações brasileiras.
Para que a valorização se sustente, porém, não basta a queda do custo da dívida. A melhora dos resultados também depende da capacidade de aumentar receitas, preservar margens e gerar lucros. Se as expectativas positivas já estiverem incorporadas aos preços, ou se a redução dos juros não se concretizar, parte da alta pode ser devolvida.
E se o dólar subir? Quais empresas podem se beneficiar?
Uma eventual recuperação do dólar mudaria a atratividade relativa entre os setores da Bolsa. Empresas exportadoras ou com receitas relevantes em moeda estrangeira podem ter desempenho melhor em um cenário de real mais fraco, embora o efeito varie conforme os custos, o endividamento e a exposição cambial de cada companhia. Exportadoras como Vale, Gerdau, JBS e Suzano também podem oferecer proteção relativa em um cenário de desvalorização do real.
Investidores que desejam ampliar a exposição internacional também podem considerar BDRs, certificados negociados no Brasil que representam ativos emitidos no exterior. Eles permitem acessar empresas estrangeiras sem comprar diretamente suas ações nos mercados internacionais, mas continuam sujeitos às oscilações dos papéis de origem e do câmbio.
Na outra ponta, empresas dependentes do consumo doméstico e do crédito tendem a enfrentar condições mais difíceis se a combinação de juros elevados, renda pressionada e incerteza fiscal persistir. Os analistas consideram o varejo particularmente vulnerável nesse cenário, porque o custo do crédito afeta tanto as empresas quanto as famílias.
O Banco do Brasil (BBAS3) também merece atenção por ser uma estatal. Xavier avalia que as ações podem apresentar volatilidade elevada diante da possibilidade de interferência política na gestão. A instituição enfrenta ainda desafios de inadimplência entre pessoas físicas e no agronegócio, fatores que podem afetar os papéis independentemente do resultado eleitoral.
A escolha, portanto, não é simplesmente entre ações que sobem e ações que caem. É preciso avaliar como cada empresa responde às taxas de juros, ao câmbio e à atividade econômica, além de considerar os riscos próprios do negócio.
Quanto investir até a eleição?
Em operações guiadas pelas pesquisas eleitorais, o risco não está apenas em errar o cenário, mas também em acertá-lo e perder dinheiro porque o mercado se moveu antes do esperado ou porque o investidor não conseguiu suportar as oscilações. Por isso, definir o tamanho da posição e o limite de perda é tão importante quanto escolher o ativo.
Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, recomenda operações táticas de poucos dias a uma semana, com limites de perda preestabelecidos e sem alavancagem. Lucas Xavier, sócio da AW Capital, sugere que investidores com patrimônio e carteira já estruturados limitem as apostas eleitorais a cerca de 5% dos ativos, ajustando a exposição ao próprio apetite por risco.
Xavier também cita opções de compra e venda, conhecidas como calls e puts, com vencimentos de um a dois meses. Esses instrumentos permitem montar estratégias direcionadas a diferentes cenários, mas envolvem riscos elevados e podem levar à perda integral do capital aplicado. Não são adequados, portanto, para investidores sem experiência com derivativos.
O prazo também precisa estar definido desde o início. Para Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, uma posição montada para aproveitar a volatilidade eleitoral não deve se transformar em investimento de longo prazo apenas porque o mercado caminhou na direção contrária à esperada. Se a tese deixar de fazer sentido, insistir nela pode ampliar o prejuízo.
Para quem prioriza previsibilidade e liquidez, a renda fixa continua sendo uma alternativa. Com a Selic em 13,75% ao ano, aplicações pós-fixadas oferecem exposição menor às oscilações do mercado e não exigem uma aposta sobre o resultado das urnas. A rentabilidade efetiva, porém, depende do produto, do prazo, dos impostos e das taxas cobradas.
Títulos prefixados e papéis indexados à inflação de prazo longo também podem se valorizar se os juros de mercado caírem. O movimento, contudo, funciona nos dois sentidos: se as taxas subirem, o preço desses títulos poderá recuar. Quem precisar vendê-los antes do vencimento estará sujeito à marcação a mercado e poderá realizar prejuízo.
O que pode mudar o mercado depois do segundo turno?
A eleição é apenas o primeiro teste para os preços dos ativos. Depois da apuração, os investidores passarão a avaliar as prioridades do próximo governo, a equipe econômica, o compromisso com as contas públicas e a capacidade de aprovar medidas no Congresso. O resultado das urnas pode definir a direção inicial do mercado, mas a sustentação de uma tendência dependerá das decisões tomadas em seguida.
Se o novo governo transmitir confiança em uma trajetória fiscal mais previsível, a percepção de risco poderá melhorar. Juros futuros mais baixos tenderiam a favorecer empresas domésticas, enquanto a entrada de capital estrangeiro poderia contribuir para a valorização do real e das ações brasileiras.
Xavier, da AW Capital, avalia que uma melhora da disciplina fiscal poderia abrir espaço para um ciclo mais amplo de valorização da Bolsa, com crédito mais barato, redução do custo de capital e maior disposição de empresas e investidores estrangeiros para investir no país. O analista ressalva, porém, que o câmbio também responde às condições internacionais. Mesmo um cenário doméstico favorável não garante, por si só, a queda do dólar.
Se as decisões econômicas frustrarem as expectativas, o movimento pode ser o inverso: a aversão ao risco aumentaria, pressionando as ações e favorecendo a alta da moeda americana. Araújo, da ZERO Markets Brasil, considera, em um cenário adverso, a possibilidade de queda de até 25% do Ibovespa, dólar entre R$ 5,50 e R$ 6 e juros longos entre 14% e 18% ao ano. São estimativas de estresse do consultor, não projeções consensuais para o mercado.
A disparada da Bolsa e a queda do dólar após o primeiro turno mostram a velocidade com que os preços podem reagir a uma mudança nas expectativas. Não garantem, porém, a continuidade desse movimento. Para quem pretende operar até o segundo turno, a pergunta central não é apenas quanto ainda pode ganhar, mas se o retorno potencial compensa o risco de perder caso o cenário esperado não se confirme.