Entre os prédios históricos e a vibração do centro, São Paulo vai ganhar um novo polo de gastronomia e cultura no ano que vem: o Ramal. Em pleno bairro da República, o espaço ocupará 4.000 m² no térreo do novo condomínio Basílio 177, projeto de retrofit nas ruas 7 de Abril e Basílio da Gama, e pretende reunir restaurantes, eventos e arte.
Previsto para maio de 2026, o food hall é fruto de uma parceria de R$ 20 milhões entre a incorporadora Metaforma, especializada na requalificação de edifícios, e a Fábrica de Bares, que opera casas como o Bar Brahma, o Blue Note e o Bar dos Arcos na cidade. Juntos, a intenção é criar a versão paulistana de modelos internacionais como o Chelsea Market, em Nova York, e o Time Out, de Lisboa.
Por trás da iniciativa está o engenheiro civil Bruno Scacchetti. Entusiasta do urbanismo, ele fundou a incorporada em 2018 com foco na renovação de ativos. O Edifício 7 de Abril, antiga sede da Telefônica em plena República, foi um dos primeiros alvos. É ali que o Ramal promete “contar todo o potencial de São Paulo”, como ele descreve, com a expectativa de receber 60 mil visitantes mensais no começo – com potencial de atingir 80 mil depois. “Acredito que ele será um marco zero, um ponto de encontro para as pessoas”.

Para dar vida ao Ramal, a Metaforma se aliou este ano com a Fábrica de Bares. A empresa de negócios gastronômicos chega como sócia estratégica, com a expertise na área operacional. “Buscávamos uma empresa que, além de viver o centro e ter capacidade operacional para regiões de alto fluxo, entendesse nossa proposta de montar um espaço rico culturalmente”, diz o engenheiro sobre a parceria.
A sinergia é mútua. Cairê Aoas, diretor da Fábrica de Bares, reforça que a união nasceu de propósitos alinhados, citando a vocação de ambas as empresas em transformar espaços históricos. “O olhar da Metaforma de fazer esse resgate, valorizando o legado, tem muito a ver com a gente, além da crença que temos na transformação do centro de São Paulo”, afirma. A visão para o projeto, segundo ele, é ambiciosa: “Queremos criar um destino gastronômico que seja a porta de entrada da cidade, onde o paulistano e o turista consigam experimentar o que São Paulo tem para oferecer em poucas horas”.

O modelo de negócio para os mais de 20 chefs que ocuparão o espaço também é um diferencial. A ideia não é um aluguel tradicional. O Ramal investirá em toda a infraestrutura, e o chef precisará vir apenas com “suas panelas e fornos”, explica Scacchetti. Em troca de um percentual do faturamento, o food hall cuidará de toda a burocracia, limpeza e segurança.
Para ajudar na curadoria gastronômica, Rosa Moraes, coordenadora brasileira do ranking gastronômico 50 Best, foi convocada. Sua missão não é só garimpar nomes consagrados, mas chefs promissores da nova geração. “Isso aqui também é uma incubadora. Não queremos só os 50 Best, mas também os ‘50 Next’”, brinca Scacchetti. A ideia é juntar estabelecimentos clássicos e modernos de diversas culinárias no mesmo espaço, aberto do café da manhã até de madrugada.
Já o produtor Kauê Fuoco será o curador cultural, responsável em organizar eventos e encontros de arte, com possíveis mostras e exposições de artistas promissores pelo espaço.

A cenografia também será parte importante, incorporando peças originais preservadas do local que já foi sede da Telefônica. Antigas centrais telefônicas do século passado, que datam de 1914, e painéis de interurbano serão utilizados nos espaços. A aplicação dos tacos de madeira originais e a preservação do desenho das paredes, com a remoção de alguns revestimentos, também estão previstos.
Centro retrofitado
O Ramal é a âncora de um projeto muito maior: a renovação completa de um complexo que envolve o retrofit de três edifícios existentes – um deles tombado como patrimônio histórico – para a construção de um novo condomínio na República, o Basílio 177.
“A nossa tese é preservar o que tem história, mas entregar algo totalmente novo e requalificado”, explica o engenheiro. Para ajudar na missão, a Metaforma contou com a ajuda de Gustavo Cedroni, um dos arquitetos responsáveis pelo novo prédio do MASP.
Serão 274 apartamentos residenciais nas três torres, além do Ramal. A operação imobiliária inteira, conduzida pela Metaforma, tem um Valor Geral de Vendas (VGV) que se aproxima dos R$ 300 milhões, diz o engenheiro.
A filosofia da empresa, segundo ele, vai além do retrofit de ativos. O foco é na “requalificação do entorno”, uma abordagem que inclui desde a organização da coleta de lixo e a instalação de nova iluminação na rua até a manutenção de um projeto social que já atendeu mais de mil pessoas na região. A iniciativa terá uma função urbana importante, criando uma nova galeria de serviços que ligará as ruas 7 de Abril e Basílio da Gama.
“Para mim, o projeto é uma ancoragem muito forte e um passo emblemático para dentro do Quadrilátero Histórico. Queremos mostrar que o centro já é uma realidade, uma das mais bacanas que existem em São Paulo”, finaliza Scacchetti.