“O Brasil foi para nós como uma meca da arquitetura modernista e agora eu sou um europeu e volto ao Brasil para projetar algo modernista”. É com essa reverência que o arquiteto e designer italiano Piero Lissoni descreve sua relação com o país ao falar de seu primeiro projeto no Rio de Janeiro e que levará o seu nome, RIO by Piero Lissoni.
Conhecido internacionalmente por seu trabalho, e integrante da lista dos Melhores Arquitetos e Designers de Hospitalidade dos Estados Unidos segundo a Forbes, ele esteve na capital fluminense no final de fevereiro para o lançamento de um ambicioso projeto residencial de R$ 1,8 bilhão num terreno de 30 mil metros quadrados, a última faixa livre à beira-mar na avenida Lúcio Costa, um dos endereços mais requisitados da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro.
No mercado imobiliário de luxo, a escassez sempre foi um dos maiores ativos. Mas, para quem assina o projeto, essa raridade também traz uma pressão extra. É uma responsabilidade terrível”, afirma Lissoni. “Quando comecei a projetar os edifícios, fiquei assustado. Você precisa colocar consciência quando projeta, porque a nossa responsabilidade como arquiteto é que você constrói algo e, depois disso, alguém vive com aquilo”, diz.
O projeto, que terá nove torres com unidades que chegam a 1.042 m² de área privativa, marca a primeira assinatura do arquiteto italiano de um projeto da Tegra, a segunda incursão dele no Brasil. O acordo prevê 11 projetos no Brasil, alguns deles em São Paulo, cidade que abrigou a estreia de Lissoni no continente com o Arborea Itaim, projeto da Benx.
À Forbes, a brasileira Mitla Morato, integrante do conselho administrativo do Lissoni & Partners, renomado escritório do italiano, afirmou que o contrato com a Tegra é exclusivo. Ou seja, Lissoni não poderá fazer acordos comerciais para assinar outros projetos residenciais verticais com nenhuma outra empresa brasileira.
Participação maior e integração com natureza
E essa exclusividade comercial não se resume apenas aos projetos. Desta vez, em vez de participar apenas do conceito arquitetônico, como acontece com frequência em empreendimentos assinados por grandes nomes, Lissoni e sua equipe assumiram um controle muito mais amplo sobre o projeto, formando identidade visual e conceitual completa.
“Em uma atitude clássica, nós projetamos tudo. Projetamos o edifício, o interior e projetamos os gráficos. Cuidamos de tudo com a Tegra”, explica.

Em uma reunião intimista que reuniu os principais arquitetos do Rio, executivos da incorporadora e alguns jornalistas, entre eles a Forbes, o arquiteto refletiu sobre a sua atuação, dizendo que a sua responsabilidade é grande, tendo em vista que um edifício pode levar anos para ficar pronto, mas depois permanece ali por décadas, e, às vezes, por gerações.
A ideia é tratar o empreendimento como um sistema completo, onde arquitetura, interiores e paisagismo seguem a mesma lógica de design. Para Lissoni, muitos empreendimentos contemporâneos começam eliminando completamente o ambiente natural do terreno. Ele prefere o caminho contrário. “É como um enorme jardim com alguns edifícios no meio”, resume.
Sem citar nomes, ele diz que, em alguns projetos, os arquitetos simplesmente limpam tudo. A proposta dele segue na direção oposta: preservar a natureza e integrá-la ao projeto. Ou seja, para ele, o luxo contemporâneo passa menos pela ostentação e mais pela qualidade da relação entre arquitetura e paisagem.
A visão de sustentabilidade de Lissoni
Essa decisão para o projeto da Tegra no Rio não é apenas estética, mas parte de um pensamento que privilegia a qualidade da experiência do lugar, de modo a criar “um enorme jardim com alguns edifícios no meio”.
O raciocínio leva ao tema da sustentabilidade, hoje onipresente no mercado imobiliário. Lissoni demonstra ser crítico em relação a como esses preceitos são empregados. ‘A sustentabilidade é uma palavra falsa. Pense no que acontece: cortamos florestas, não respeitamos a natureza ao redor. Por que falamos sobre sustentabilidade?”
Para ele, a discussão costuma ficar no discurso quando deveria estar no processo. “A sustentabilidade é usar trabalhadores locais, materiais locais, conhecimento local, artesãos e fábricas”, afirma Lissoni.
Além disso, segundo o arquiteto, um projeto responsável começa na engenharia.
“Quando você desenha um prédio, precisa projetá-lo de forma inteligente, com as esquadrias corretas, as dimensões corretas dos vidros, as quantidades corretas de ar-condicionado e questões mecânicas. Isso é a verdadeira sustentabilidade.”
Piero Lissoni
Elogio ao Brasil
Ao falar sobre arquitetura brasileira, Lissoni lembra, rindo, de sua conterrânea, a também itliana Lina Bo Bardi, arquiteta referência que assinou projetos tais como o Masp, Teatro Oficina e Sesc Pompeia, entre vários outros.
Ele também cita nomes contemporâneos que admira, dizendo que o Brasil teve um papel central na história da arquitetura moderna, e também fonte de inspiração. “O Brasil foi para nós como uma meca da arquitetura modernista e agora eu sou um europeu e volto ao Brasil para projetar algo modernista”, diz.
Quando o assunto é o design de mobiliário brasileiro, Lissoni faz questão de defender o legado de mestres como Sergio Rodrigues. Questionado sobre o fato de o designer não ser um nome tão famoso internacionalmente quanto outros, o italiano rebate apontando o que realmente importa no alto padrão: “Você precisa ser único. É diferente, sabe? Não importa se você é famoso ou não”, diz.
Além dos clássicos, Lissoni acompanha de perto os talentos contemporâneos do país. Ele cita os Irmãos Campana, lembrando que são muito famosos na Itália por entregarem um trabalho altamente sofisticado, e rasga elogios a Marcio Kogan. Segundo o italiano, Kogan e sua equipe são “incrivelmente bons” (unbelievable good) e realizam um “trabalho incrível em todo o mundo, não apenas no Brasil”, diz.