Escondida no lago Flathead, esta ilha privada de 1,4 milhão de metros quadrados reúne quase cinco quilômetros de costa intocada, florestas densas e uma mansão de pedra de quatro andares que lembra mais o início de um palácio europeu do que uma típica casa à beira de um lago. O tamanho impressiona — e mais surpreendente ainda é o fato de que a obra jamais foi concluída.
Robert M. Lee, explorador e conservacionista, idealizou a mansão antes de morrer, em 2016. Hoje, a mansão inacabada ocupa o centro da ilha. Seus tetos altos e cômodos vazios, organizados em torno de uma grande escadaria, refletem silenciosamente a sensação de um sonho que nunca chegou ao fim.
A Cromwell Island está agora à venda pela Hall and Hall por US$ 72 milhões (R$ 360 milhões), tornando-se o imóvel residencial mais caro listado em Montana. Para o comprador certo, ela oferece mais do que apenas uma propriedade de prestígio: uma ilha privada inteira, a base para um complexo autossuficiente e a oportunidade de dar continuidade à visão de uma das personalidades mais singulares do Oeste americano.
Bill McDavid, da Hall and Hall, resumiu o fascínio do local durante entrevista: “Ao longo da minha carreira de mais de 30 anos, Cromwell Island se destaca como uma das raríssimas propriedades que exercem uma força gravitacional inexplicável e quase assombrosa. Simplesmente não existe nada parecido em nenhum outro lugar.”
“Quando visitei a ilha pela primeira vez para fotografá-la, levei meu trailer na balsa e passei alguns dias em um estado de puro deslumbramento”, acrescentou. “A forma como a luz se espalha pela topografia e reflete na superfície do lago parece uma pintura em constante transformação pelas mãos de um artista invisível. Depois do pôr do sol, pensei que o espetáculo tivesse acabado, até que a paisagem noturna se revelou. Cada visita à ilha parece um privilégio.”

O cenário
Para entender a Cromwell Island, é preciso começar pelo lago Flathead. Com quase 518 km² de área no noroeste de Montana e cerca de 298 quilômetros de margem, o Flathead é o maior lago natural de água doce a oeste do rio Mississippi. Ele é até maior que o lago Tahoe. As águas são conhecidas pela transparência; o fundo rochoso reflete tons turquesa e, em dias claros, os barcos parecem flutuar acima da superfície como uma miragem.
Cromwell fica próxima à extremidade sul desse lago glacial. A ilha tem formato quase quadrado, com seu ponto mais alto situado a cerca de 1.036 metros acima do nível do mar, próximo ao centro. A margem está a aproximadamente 884 metros de altitude. Cerca de 40% da ilha é coberta por floresta, 46% é destinada a pastagem, e o restante se divide entre áreas irrigadas e terrenos residenciais. A paisagem se estende em todas as direções: ao sudeste, as montanhas Mission mantêm neve durante boa parte do ano, enquanto, do outro lado da água, a Wild Horse Island parece uma companheira na mesma narrativa.
A Wild Horse Island é mais do que apenas uma bela vista. Acredita-se que os povos Salish e Kootenai atravessavam cavalos a nado para mantê-los protegidos durante ataques de tribos rivais. Essa tradição deu origem ao nome da ilha e acrescenta uma profundidade histórica a essa região do lago Flathead que nenhum empreendimento de luxo conseguiria reproduzir.

O monstro
Há um detalhe que os folhetos imobiliários do lago Flathead convenientemente omitem: o monstro.
Muito antes da chegada dos colonizadores, o povo Kootenai — integrante das Tribos Confederadas Salish e Kootenai — contava histórias sobre uma criatura gigantesca em forma de enguia, que poderia chegar a 12 metros de comprimento. Desde 1889, já foram registrados 109 relatos de avistamentos, começando quando o capitão de um barco a vapor e cerca de 100 passageiros disseram ter visto algo semelhante a uma baleia sobre a água. Segundo a história, a criatura mergulhou após alguém disparar um tiro. Mais tarde, os moradores passaram a chamá-la de “Flessie”, em referência ao monstro do lago Ness, na Escócia.
De certa forma, tudo parece perfeitamente apropriado: a ilha privada mais misteriosa dos Estados Unidos dividindo suas águas com um monstro que pode — ou não — existir.

O homem que construiu tudo
Ernest White e seu filho Thane, integrantes de uma família pioneira de Montana, foram os primeiros proprietários da Cromwell Island. Criadores de ovelhas, eles utilizavam uma jangada para levar os animais até a ilha durante o verão, já que era mais fácil manter o rebanho unido e protegido dos lobos. Mas a história da Cromwell Island está diretamente ligada a Robert M. Lee, que adquiriu o terreno posteriormente.
Nascido em Long Island, Lee personificava o espírito inquieto da reinvenção americana. Ele fundou a Hunting World, marca de luxo inspirada nos anos em que liderou safáris na África. Também ficou conhecido como colecionador de carros raros e armas antigas, escritor, explorador e conservacionista que apoiou iniciativas pioneiras de preservação de espécies ameaçadas. Viajava com frequência, colecionava com paixão e sempre fazia tudo em grande escala.
Lee comprou a Cromwell Island no fim dos anos 1980, provavelmente atraído pelo isolamento, tamanho e potencial da propriedade. Ele e sua esposa, Anne, começaram a planejar e construir ali uma residência privada permanente. As obras tiveram início nos anos 1990 e duraram cerca de dez anos, mas o casal decidiu direcionar seu foco para o lago Tahoe. Lee morreu em 2016, aos 88 anos. A mansão que imaginou nunca foi finalizada.
Durante conversa com Anne Lee, atual proprietária da Cromwell Island, ela relembrou com emoção por que ela e o marido decidiram se afastar da ilha que um dia chamaram de lar. “Fizemos uma pausa na construção em 1997 e visitamos Lake Tahoe, na Califórnia, onde nos apaixonamos por uma propriedade de 101 mil metros quadrados à beira do lago”, contou. “Por mais que amássemos a Cromwell Island, Tahoe ficava muito mais perto do escritório de Bob, além de suas coleções de armas e armaduras antigas e carros clássicos. Estávamos ocupados com a vida em Tahoe quando a saúde de Bob piorou. Depois da morte dele, em 2016, mantive a propriedade porque adoro passar os verões na ilha. Sou viúva e felizmente tenho muitos hobbies, então decidi que chegou a hora de permitir que outra pessoa aproveite este lugar.”

A propriedade
Acima de tudo, o comprador está adquirindo uma ilha. A Cromwell é considerada a maior ilha privada de água doce sob propriedade única a oeste do rio Mississippi — e não existe nada parecido.
A propriedade conta com duas construções principais: a residência principal, chamada The Villa, e uma Guest Villa separada. Ambas são sustentadas por uma ampla infraestrutura instalada na ilha. A Villa é, ao mesmo tempo, o maior trunfo e o principal desafio da propriedade. Projetada para lembrar uma obra-prima da arquitetura francesa do século XVI, ela oferece mais de 4.180 metros quadrados de área parcialmente concluída. O projeto original previa de três a quatro quartos e nove banheiros, mas o conceito aberto permite que o interior seja reinventado para diferentes usos, desde uma residência familiar privada até um clube para um retiro de luxo.
A construção é excepcionalmente robusta. A estrutura de concreto foi moldada no local e reforçada com vergalhões revestidos com epóxi.

Todos os materiais foram escolhidos pensando em durabilidade: travertino de Montana vindo da região de Gardiner, calcário dolomítico da Vetter Stone, em Minnesota, telhado de terracota da Ludowici, mogno Swietenia nas janelas, portas e acabamentos, ferragens de latão sob medida e espessas placas no deck assentadas sobre areia para facilitar a drenagem.
No interior, o senso de grandiosidade continua. Duas escadarias suspensas idênticas na entrada principal foram inspiradas na escadaria suspensa da Nathaniel Russell House, em Charleston. Uma escada helicoidal também atravessa a torre norte. Mesmo inacabado, o espaço já parece teatral — parte villa francesa, parte fortaleza do Oeste americano e parte manifesto arquitetônico.
A Guest Villa, localizada nas proximidades, está praticamente concluída. O imóvel está pronto para receber moradores, restando apenas alguns detalhes finais para personalização pelo novo proprietário. O espaço pode servir como casa de hóspedes, residência para funcionários ou moradia temporária enquanto a mansão principal é finalizada. Os serviços públicos chegam à Guest Villa por meio de uma rede subterrânea conectada à The Villa, mostrando que a Cromwell foi concebida mais como um complexo privado autossuficiente do que como uma simples casa de férias.

A infraestrutura
A infraestrutura da ilha é tão ambiciosa quanto sua arquitetura. Uma linha elétrica trifásica passa sob a água até a ilha, com capacidade extra para futuras demandas. Os sistemas de utilidades ficam afastados da Villa e da Guest Villa para preservar a tranquilidade das áreas residenciais. Há ainda caldeiras e bombas de reserva responsáveis pelo aquecimento radiante do piso em toda a propriedade.
O fornecimento de energia emergencial também foi tratado com rigor. Três tanques de diesel de 8 mil galões abastecem um gerador Caterpillar de 750 quilowatts, capaz de manter a ilha operando fora da rede elétrica por aproximadamente oito a doze semanas.
Para prevenção contra incêndios, existem cinco reservatórios com tubulações de duas polegadas, além de entre 30 mil e 40 mil galões de água armazenados no subsolo sob a The Villa. A ilha também possui dois poços artesianos ativos: um atende à Villa e à Guest Villa, produzindo 30 galões por minuto a partir de 88 metros de profundidade, e outro atende à área do píer, produzindo 24 galões por minuto a partir de 103 metros.

O acesso durante todo o ano foi cuidadosamente planejado. Um terminal para balsas e uma rampa para barcos no continente garantem a travessia em qualquer estação. Cinco agitadores submersos foram instalados ao longo do canal para evitar a formação de gelo no inverno. A venda também inclui uma balsa customizada de 18 metros, construída em 1961, equipada com motores Vortec V6 duplos e sistema Volvo Penta. A embarcação possui pontões para transporte pesado, sistema de ancoragem, guindaste de uma tonelada e aerador instalado na popa. Ela foi amplamente utilizada durante a construção, chegando a transportar caminhões de concreto através do lago.
O píer conta com cinco vagas para embarcações. A maior delas foi construída para um iate de 65 pés e, acredita-se, pode acomodar embarcações de até 70 pés. Há ainda um estande de tiro subterrâneo próximo à mansão principal, com alvos posicionados a até 91 metros de distância. É o tipo de detalhe que só faz sentido quando se entende quem construiu esse lugar.

A oportunidade
O preço de US$ 72 milhões (R$ 360 milhões) coloca a Cromwell Island entre as propriedades mais exclusivas dos Estados Unidos, mas o valor não é o principal ponto. Não se trata apenas de uma mansão convencional. É uma ilha — uma das maiores ilhas privadas de água doce do Oeste americano. Ela inclui uma mansão inacabada, uma confortável guest villa, ampla infraestrutura de serviços, píeres privados, equipamentos de transporte pesado e uma história impossível de fabricar artificialmente.
Um comprador pode optar por concluir a The Villa e criar uma das grandes residências privadas dos Estados Unidos. Outro pode transformar a Cromwell em um clube privado, um complexo familiar ou um retiro ultraluxuoso, desde que os planos futuros respeitem as exigências locais de revisão e preservação ambiental. O tamanho da ilha torna essas possibilidades viáveis; sua história as torna irresistíveis.
Muitas propriedades históricas oferecem aos compradores a chance de acrescentar um novo capítulo à sua trajetória. A Cromwell Island se diferencia porque sua história ainda está sendo escrita. O que acontecer daqui para frente moldará o que este lugar se tornará — e o que sempre esteve destinado a ser. Até mesmo o monstro do lago parece disposto a esperar.
Reportagem originalmente publicada na Forbes.com