Mãe e atleta: como Allyson Felix quebrou tabus e redefiniu a indústria esportiva

Maior medalhista da história do atletismo, norte-americana ganhou ainda mais notoriedade ao advogar a favor da maternidade no esporte .

Rebecca Silva
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Tim Clayton - Corbis/Getty Images
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Após participação em Tóquio, Allyson Felix se tornou a maior medalhista de atletismo na história

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Os Jogos Olímpicos costumam revelar histórias de superação e inspiração para o mundo e a última edição, realizada em Tóquio, não foi diferente. Para a atleta norte-americana Allyson Felix, suas conquistas significaram muito mais do que um lugar ao pódio: ela entrou para a história ao se tornar a maior medalhista do atletismo desde a criação da Olimpíada. A atleta superou seu conterrâneo Carl Lewis ao ganhar bronze e ouro na competição, chegando ao total de 11 medalhas olímpicas. E a vitória teve um gostinho ainda mais especial por causa da trajetória de Allyson, uma potente voz contra a represália sofrida por atletas quando decidem ser mães. Ela já declarou que chegou a esconder a gravidez para não perder um patrocínio. “Eu decidi começar uma família sabendo que a gravidez poderia ser ‘o beijo da morte’ na minha indústria”, disse.

Allyson trouxe visibilidade também para as estatísticas que mostram que as mulheres negras têm de duas a três vezes mais chances de enfrentar uma gravidez de risco, segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA). Mãe de Camryn, de dois anos, a atleta precisou passar por uma cesárea de emergência para trazer a filha ao mundo, com apenas 32 semanas, após ser diagnosticada com pré-eclâmpsia.

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Em entrevistas, a atleta disse que nunca imaginou que viveria apuros durante a gravidez, justamente por causa do seu acompanhamento frequente da saúde. Mas, em uma consulta de rotina, o médico percebeu excesso de proteína em sua urina e pressão alta, sinais do quadro que acomete 1 em 12 gravidezes de mulheres entre 20 e 44 anos nos Estados Unidos, de acordo com o CDC.

Allyson ganhou sua primeira medalha olímpica em 2004, em Atenas. Com 18 anos recém-completos, ela conquistou a prata na prova dos 200 metros. Nas edições seguintes, em Pequim, Londres e Rio de Janeiro, também esteve no pódio. Pouco depois dos Jogos realizados em solo brasileiro, a atleta entrou em negociação do seu contrato de patrocínio com a Nike. Eles a ofereceram um valor 70% menor do que recebia até então.

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As conversas com a patrocinadora avançaram por meses, apesar de não chegarem a um acordo, até que Allyson engravidou. “Eu decidi começar uma família sabendo que a gravidez poderia ser ‘o beijo da morte’ na minha indústria. Foi um momento de muito medo porque eu estava negociando o meu contrato com a Nike. Apesar de todas as minhas vitórias, eles queriam me pagar 70% menos. Se eles pensavam que era isso que eu valia no momento, eu aceito. Mas eu não estava disposta a aceitar o status quo em torno da maternidade”, desabafa a atleta.

Por conta da situação delicada e por medo de que o contrato viesse a ser encerrado de vez, Allyson decidiu esconder a gravidez. Ela passou a treinar antes do dia amanhecer para que ninguém a visse, assim como usar roupas largas para esconder a barriga, cada vez mais visível. Seu chá de bebê foi limitado a apenas 15 pessoas, que não puderam fazer registros fotográficos do evento. Hoje, ela lamenta não ter vivido todas as emoções que uma primeira gravidez proporciona a uma mulher. Mas na época, sentia medo de perder a segurança financeira que tanto precisava para cuidar da família que estava prestes a crescer.

Patrick Smith/Getty Images
Patrick Smith/Getty Images

Allyson ao lado da filha, Camryn, em Tóquio

O mundo ficou sabendo da história entre a atleta e a Nike em maio de 2019, quando ela denunciou a situação da negociação de seu patrocínio em um texto para o “The New York Times”. “Eu pedi para a Nike garantir, contratualmente, que eu não seria punida caso não entregasse o meu melhor nos meses após o parto. Queria criar um novo padrão. Se eu, uma das atletas mais divulgadas da Nike, não pudesse garantir essas proteções, quem poderia?”, questionou. Três meses após a divulgação da carta da medalhista, a Nike anunciou uma nova política sobre maternidade. O novo contrato garante pagamento e bônus por 18 meses, durante e após a gravidez.

O novo contrato com a Nike não foi assinado e, dois meses após a divulgação do texto, a atleta se tornou a primeira patrocinada da Athleta, marca de equipamentos esportivos focada em mulheres. A ginasta Simone Biles seguiu o movimento e também entrou para a lista de patrocínio da empresa. Pela Athleta, Allyson conseguiu benefícios maternos, caso decidisse engravidar novamente. “Atletas ouvem que precisam se calar e jogar. Nos dizem que somos apenas entretenimento, então devemos correr rápido, pular alto e arremessar longe. E não podemos errar. Mas a gravidez não é um erro. Para as mulheres, engravidar pode e deve ser parte de uma carreira profissional e espero mostrar isso”, afirma no texto.

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A situação, infelizmente, não é exclusiva do atletismo ou de atletas norte-americanas. Jogadoras brasileiras de vôlei já se manifestaram anteriormente sobre a mesma situação. Tandara, oposta da seleção brasileira e medalhista de ouro na Olimpíada de Londres, entrou para a história do esporte ao se tornar a primeira atleta a vencer uma batalha jurídica sobre direitos trabalhistas acerca da maternidade.

Maria Elisa Antonelli, jogadora de vôlei de praia, fez um desabafo em seu Instagram no início do mês sobre a sua experiência materna. “Ser mulher mãe não deveria ter dificuldades a mais do que já tem. Os homens podem ser pais na hora que eles quiserem, fisicamente não são prejudicados.” No seu caso, a contestação foi em relação ao regulamento que retira 25% dos pontos das atletas que se afastam das quadras por causa da gestação, no Circuito Brasileiro e no Mundial. “Você faz excelentes resultados ao longo da sua vida, passa 15 anos entre as melhores do mundo, engravida entre as 10 primeiras atletas ranqueadas do mundo e um regulamento pode te inibir a querer desenvolver o papel mais lindo e poderoso que existe, que é gerar uma vida”, desabafa.

As medidas podem desmotivar atletas a voltarem para a prática dos esportes que as consagraram, somado a todas as dificuldades de se adaptar à intensa rotina de treinos após a gravidez por causa das modificações pelas quais o corpo passa durante a gestação. No caso de Allyson Felix, ela voltou a treinar seis semanas após o parto de emergência para conseguir se qualificar para o Campeonato Mundial de 2019. Dez meses após ser mãe, ela quebrou o recorde de Usain Bolt em Doha, no Catar, tornando-se a maior campeã da história do Mundial de atletismo, com 13 medalhas de ouro, 18 no total.

Kai Pfaffenbach/Reuters
Kai Pfaffenbach/Reuters

Nos Jogos de Tóquio, a atleta conquistou duas medalhas: um ouro e um bronze

Antes de embarcar para Tóquio, a atleta anunciou uma nova empreitada: ela lançou sua própria marca de calçados e vestuário, a Saysh. A empresa conseguiu arrecadar US$ 3 milhões em rodadas de investimento. A estreia dos pares aconteceu na Olimpíada e a atleta se tornou a sua própria patrocinadora, ao lado da Athleta. “Usei a minha voz e criei essa empresa para vocês não precisarem treinar de madrugada aos cinco meses de gravidez para poder se esconder dos patrocinadores. Não fiz isso sozinha, por mim, mas por vocês”, anunciou no lançamento.

Entre um ciclo olímpico e outro, Allyson se transformou e foi da atleta que brigava pelo ouro e pela excelência esportiva para a mulher que luta por direitos maiores que ela, seja expondo situações injustas ou cedendo sua voz e notoriedade para conscientizar negras acerca de sua saúde.

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