“Toy Story 5” chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (18) e vive uma grande virada de protagonismo. Após anos com os personagens Woody e Buzz no centro da história, quem assume a narrativa da franquia bilionária da Pixar desta vez é Jessie. “Ter essa protagonista feminina traz um diferencial para o filme. É algo que muitos de nós na Pixar queríamos há muito tempo”, diz Kenna Harris, que codirigiu o longa.
A produtora do filme e vice-presidente de desenvolvimento da Pixar, Lindsey Collins, conta que a ideia já existia desde seu trabalho em “Toy Story 2”, em 1999. “Lembro de quando ela entrou em cena e transformou a história, foi impressionante. A energia borbulhante que ela tem sempre nos fez perguntar como cineastas: ‘Quando será a vez dela? Quando ela estará na liderança e poderá contar a sua própria história?’”.
Sob a perspectiva feminina, a trama acompanha a nova ameaça dos brinquedos: a tecnologia. No centro da história está Bonnie, uma menina que se sente pressionada a trocar seus brinquedos por um tablet para se encaixar. O conflito desencadeia uma jornada emocional para Jessie, que questiona seu próprio lugar em um mundo dominado pelas telas. “O longa celebra as garotas e a Jessie, ao mesmo tempo em que se apoia naquele humor, voz e tom dos filmes clássicos da Pixar”, diz Collins.
Bastidores da Pixar
O filme chega aos cinemas mais de 30 anos após o lançamento do primeiro “Toy Story”, em 1995, que mudou a indústria do cinema por ser o primeiro longa totalmente animado em CGI (computação gráfica). De lá para cá, a franquia da Disney já arrecadou mais de US$ 3 bilhões em bilheteria global, de acordo com a Rentrak, empresa global de pesquisa e medição de mídia especializada na indústria do entretenimento.
Para a veterana Lindsey Collins, que acompanha o dia a dia da Pixar desde que chegou ao estúdio em 1997, a evolução foi além dos filmes, transformando também a dinâmica nas salas de reunião. “Hoje, temos uma diversidade de gerações que nunca tivemos antes na Pixar. Há profissionais na faixa dos 20 até os 60 anos nas salas de roteiro, discutindo os personagens a partir de perspectivas completamente diferentes, com muita visão, humor e bom gosto.”
Vencedora do Oscar pelo trabalho como produtora em “WALL-E” e com sucessos como “Vida de Inseto”, “Procurando Nemo”, “Ratatouille”, “Red: Crescer é uma Fera” e “Elio” no currículo, a executiva explica o ingrediente secreto para continuar atraindo o público em meio às novas gerações. “Queremos que os filmes conversem com as pessoas hoje tanto quanto conversavam há 30 anos, além de dialogarem com os seus filhos e seus pais”, diz Lindsey. “Esse sempre foi o objetivo, mas a chave para isso é garantir que as equipes sejam amplas e diversas.”
À frente do programa SparkShorts da Pixar, criado para descobrir novos contadores de histórias, a executiva é a responsável por aplicar essa visão na prática. Lindsey também lidera o grupo de desenvolvimento do estúdio para longas-metragens e streaming, onde cineastas atuais e futuros criam e moldam projetos para a produção.
Ela ainda faz parte da equipe de liderança criativa, que apoia o diretor de criação (CCO), Pete Docter, na orientação da empresa. “Nos últimos oito anos, tivemos um esforço conjunto para garantir que saibamos quem é a próxima geração de talentos, não apenas promovendo, mas celebrando e tentando acelerar esse processo.”
Novos talentos
Kenna Harris, que estreia na codireção ao lado de Andrew Stanton — vencedor do Oscar, roteirista e diretor de alguns dos maiores sucessos da Pixar —, é um dos destaques dessa nova geração da companhia. “O fato de o Andrew me tirar do anonimato e me colocar no projeto me fez passar vários anos pensando: ‘Espera, isso é uma pegadinha?’”, conta. “Além de ser o meu primeiro longa-metragem, dirigir logo um filme de Toy Story foi, para dizer o mínimo, um verdadeiro treinamento intensivo.”
O entusiasmo não é à toa. Kenna passou a infância assistindo aos filmes da Pixar. Foi assim que descobriu sua vocação. “Lembro que assistir a ‘Toy Story 2’ quando criança foi uma das primeiras vezes em que entendi a arte por trás daquilo. O fato de eles me fazerem sentir aquelas emoções ali na poltrona me fez pensar: ‘Quero fazer isso’.”
O caminho até a codireção de “Toy Story 5”, no entanto, não foi linear. Formada em artes e animação pela CalArts, nos EUA, iniciou sua carreira como designer de personagens na série “Ursos Sem Curso”, do Cartoon Network. Em 2016, entrou na Walt Disney Animation Studios como artista de storyboard, onde trabalhou em “WiFi Ralph: Quebrando a Internet”, “Frozen 2” e “Raya e o Último Dragão”. Em 2021, chegou à Pixar e trabalhou nos bastidores de “Luca” até dirigir e escrever o curta-metragem “Ciao Alberto”.
“Não importava se eu tinha público ou não, eu continuava escrevendo e desenhando as minhas histórias”, lembra. “O segredo é se concentrar, ignorar as distrações e dar o seu melhor naquilo que você mais ama. Hoje, penso: ‘Ainda bem que nunca desisti e continuei produzindo por conta própria’.”
O foco na produção independente defendido por Kenna é compartilhado por Lindsey. De olho em novos talentos, a produtora e sua equipe monitoram frequentemente o trabalho de artistas na internet. “Nós também somos fãs. Assistimos a conteúdos o tempo todo no YouTube e no Instagram. Você se surpreenderia com o quanto o seu trabalho pode circular”, afirma. “Nós sempre estamos compartilhando materiais que encontramos online e isso vira pauta nas nossas conversas. Às vezes, são criações de fãs, como curtas-metragens baseados nas nossas histórias. Outras vezes, é um material original.”
A executiva ressalta que o ambiente digital é a melhor vitrine para quem sonha em trabalhar na Pixar. “Como tudo é tão acessível hoje em dia, pode parecer intimidador colocar a sua arte no mundo achando que ninguém vai ver, mas os cineastas estão sempre intrigados e encantados por boas histórias, e eles vão acabar te encontrando”, afirma. “Nunca subestime o poder de criar algo e colocar no mundo.”