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“Não Franzo a Testa Desde 1987”: A Médica que Descobriu Por Acaso o Uso Estético do Botox

Jean Carruthers ajudou a criar uma indústria bilionária, mas não conseguiu a patente por sua principal inovação

19 min

“Não franzo a testa desde 1987”, diz Jean Carruthers, aos 78 anos e praticamente sem linhas de expressão. Mais de 40 anos atrás, uma bronca de uma paciente levou a oftalmologista canadense à descoberta que mudaria o rumo de sua vida e também de uma indústria bilionária.

Na época, Jean aplicava toxina botulínica para tratar espasmos oculares quando a paciente percebeu que a substância suavizava as rugas da testa. “Ela ficou brava e disse: ‘Você não me tratou aqui’”, relembra a médica, apontando para a região entre as sobrancelhas. A questão ali não eram os espasmos, mas a “expressão serena” que a substância proporcionava. “Foi um momento ‘aha’.”

Ela tinha três filhos pequenos e trabalhava em cinco hospitais tratando crianças e adultos. Naquela noite, durante o jantar, Jean propôs ao marido, o dermatologista Alastair Carruthers (que faleceu em 2024), que estudassem juntos o potencial estético da substância. “Vamos fazer o estudo usando seus pacientes com rugas e a minha toxina botulínica.”

Até aquele momento, desde a década de 1970, a toxina botulínica, que atua como um bloqueador neuromuscular, era utilizada exclusivamente para aplicações médicas. Quando o casal iniciou os primeiros estudos, naquele mesmo ano, não podia imaginar onde aquilo chegaria.

Botox de bilhões

O mercado de toxina botulínica, que inclui aplicações terapêuticas e estéticas, movimentou cerca de US$ 10,2 bilhões em 2025 e deve chegar a US$ 21,2 bilhões até 2033, segundo a consultoria Grand View Research. O segmento terapêutico representa 51,2% do mercado, enquanto centros e clínicas de medicina estética respondem por 44,9%.

Apesar de terem sido pioneiros no uso cosmético da substância, Jean e Alastair não conseguiram registrar uma patente para a aplicação na região entre as sobrancelhas, conhecida como glabela. “Não que eu não tenha tentado. Tentei com advogados em Vancouver e também em Toronto”, conta a médica.

Na época, ela ouviu que a patente já existente para o tratamento de blefaroespasmo não apresentava diferenças suficientes para justificar um novo registro. “Sabendo o que sei hoje, teria continuado até encontrar um advogado que entendesse.”

A primeira patente foi registrada pela farmacêutica Allergan, adquirida em 2020 pela AbbVie, empresa que lidera o mercado global. Botox, nome que se tornou praticamente sinônimo do procedimento, é, na realidade, uma marca de toxina botulínica tipo A desenvolvida pela Allergan.

Apesar de não negar que gostaria de ter participado do sucesso comercial de sua descoberta, Jean não se frustrou. O casal conseguiu patentear o uso da toxina para rugas ao redor da boca e vendeu os direitos para a Allergan. “Naquela época, era a única empresa que tinha o produto e tivemos muitos projetos como resultado”, diz. “A alegria dos muitos anos de pesquisas e tratamentos valeu a pena.”

Sua carreira também deslanchou. Professora da Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver, Jean publicou mais de 400 artigos científicos, escreveu 80 capítulos de livros e 11 obras especializadas. Também foi eleita membro honorário da Sociedade Americana de Cirurgia Dermatológica e da Academia Americana de Dermatologia.

De “veneno” a fenômeno global

Segundo a consultoria MarketsandMarkets, o avanço da toxina botulínica é impulsionado pela maior aceitação de procedimentos pouco invasivos e pela expansão de suas aplicações terapêuticas, como tratamentos de enxaqueca crônica, hiperidrose (suor excessivo), bexiga hiperativa e depressão. “Acho fascinante descobrir como o uso de neuromoduladores como o Botox pode afetar nosso humor”, diz a médica canadense.

A crescente preocupação com a aparência, potencializada pelas redes sociais, também acelerou a popularização dos procedimentos estéticos e consolidou o Botox como um dos maiores símbolos dessa indústria. No Brasil, esse mercado movimentou US$ 443,3 milhões em 2025 e deve alcançar US$ 1 bilhão até 2033.

Jean Carruthers ajudou a pavimentar esse caminho. Em 2002, a FDA, agência regulatória dos Estados Unidos, aprovou o uso do Botox para tratar linhas de expressão na região da glabela. Posteriormente, a aprovação foi ampliada para pés de galinha e linhas da testa.

Por aqui, o Botox foi aprovado para uso estético pela Anvisa em 2000. Este ano, a agência aprovou também para o tratamento da região do pescoço.

Mas a descoberta enfrentou resistência no início. Jean precisou convencer médicos e pacientes de que uma substância vista como perigosa poderia ser usada com segurança para fins estéticos. “Quando apresentei a ideia, a sala ficou em choque. Depois, eles perguntaram: ‘Como você pôde usar aquele veneno terrível para algo tão frívolo quanto rugas?’”, relembra.

Ela não poderia discordar mais. “É uma forma muito importante de ajudar as pessoas a recuperarem sua autoestima.”

A médica destaca especialmente o impacto sobre as mulheres, inclusive no ambiente profissional. “Se um homem tem rugas de expressão, é visto como um líder. Mas para uma mulher no mercado de trabalho, dizem que está cansada, que tem uma expressão de raiva crônica. É tudo negativo para nós.”

A seguir, Jean Carruthers relembra o momento da descoberta do uso estético do botox, os desafios para conquistar a confiança da comunidade médica e dos primeiros pacientes, além de compartilhar sua visão sobre envelhecimento, pressão estética e o segredo da longevidade.

Forbes Brasil: Me leve de volta ao momento em que a senhora percebeu que o botox poderia ter aplicações estéticas. Como foi?

Jean Carruthers: Foi o que eu chamo de momento “Aha”. Eu vinha trabalhando com a toxina botulínica para fins terapêuticos como parte de um estudo do NIH [National Institutes of Health] com o Dr. Alan Scott. Estava tratando pessoas com estrabismo (olhos desalinhados, virando para dentro, fora, cima e baixo), e também com blefaroespasmo, onde os olhos se fecham por espasmo e não conseguem abrir.

Eram pacientes que não tinham preocupações cosméticas, e sim funcionais. Suas pálpebras não abriam. É muito difícil viver a vida quando você não consegue dirigir um carro ou ganhar a vida. Então, de repente, surge esse medicamento maravilhoso que relaxa os músculos hiperativos e permite que as pálpebras se abram. Eu tive pacientes que eram trazidos pela mão pelo cônjuge e, três dias depois, enviavam uma foto dirigindo o próprio carro.

A maioria dos pacientes ficava tão grata por ter a vida de volta que sempre saía feliz. Mas uma paciente com blefaroespasmo ficou brava comigo. Ela disse: “Você não me tratou aqui”, apontando para o meio das sobrancelhas. Pedi desculpas e respondi: “Sinto muito, não achei que você tivesse espasmos nessa região”. Então ela explicou: “Eu não tenho. Mas toda vez que a senhora aplica o tratamento aí, fico com essa linda expressão serena”. Esse foi o momento.

Como começou a sua pesquisa?

Meu marido, Alastair Carruthers, era dermatologista e estava tratando linhas de expressão usando colágeno, fibrina e gordura autóloga, mas não estava funcionando. Só funcionava quando o rosto estava relaxado e não quando se movia. Tinha três filhos pequenos e fui para casa naquela noite e disse para ele: “Deveríamos fazer o estudo juntos usando seus pacientes com rugas e a minha toxina botulínica”. E foi assim que começou.

Como o botox atua quando aplicado para fins estéticos? A senhora tem usado desde a descoberta?

Ele interrompe o sinal nervoso que está sendo transmitido para o músculo. Você até sente que quer franzir a testa, mas o músculo não é capaz. É como se você não pudesse esperar que a chaleira ferva se não a tiver ligado na tomada.

Se eu já usei? Claro! Eu tive que começar a usar quando estava recrutando pacientes para aquele primeiro estudo. Eles diziam: “Acho que não… Isso é um veneno terrível.” E eu percebi que eles simplesmente não entendiam. Então, pedi ao Alastair que aplicasse em mim e, ao recrutá-los, mostrava uma foto antiga franzindo a testa e dizia: “O que você acha?” e eles queriam fazer também. Eu não franzo a testa desde 1987.

Quanto tempo dura?

Depende da quantidade de massa muscular e da dose aplicada, mas geralmente dura por volta de quatro a seis meses, dependendo da pessoa.

Quando a senhora percebeu a magnitude e o impacto que sua descoberta teria?

Acho que só percebi isso no início dos anos 2000, quando o Botox cosmético recebeu a aprovação do FDA [a Anvisa dos EUA]. E então, em 2007, o iPhone foi lançado com a internet e as plataformas, permitindo que as pessoas passassem a tirar selfies, compartilhar e comentar, o que iniciou uma conversa global. Então acho que foi em algum lugar entre 2002 e 2007.

Como sua vida profissional e pessoal mudou desde então?

Profissionalmente mudou drasticamente, porque naquela época, além de ser cirurgiã de estrabismo em adultos, eu também era oftalmologista pediátrica. Passei todos os meus pacientes aos meus colegas e comecei a tratar pessoas de um ponto de vista estético. Isso causou uma enorme mudança profissional e comecei a fazer muitas pesquisas com meu marido dermatologista. Publicamos muitos estudos e fomos a muitas reuniões apoiando o conceito de uso dessa nova droga para tratar indicações cosméticas.

Pessoalmente, passei a ter um pouco mais de tempo para a minha família. Antes, eu trabalhava em cinco hospitais para conseguir tempo de centro cirúrgico suficiente na oftalmologia pediátrica, e depois eu tinha um pouco mais de sanidade no dia a dia para ficar com meus filhos. Foi uma mudança muito boa.

Por que a senhora não pôde patentear sua descoberta?

Conseguimos uma patente para o tratamento das rugas ao redor da boca e vendemos para a Allergan. Mas, para as rugas entre as sobrancelhas (glabela), não conseguimos. Não que eu não tenha tentado. Tentei com advogados em Vancouver e também em Toronto. A orientação que recebi de ambos foi que o tratamento da glabela para fins estéticos não era suficientemente diferente do tratamento para blefaroespasmo para que fosse patenteável. Sabendo o que sei hoje, perceberia que os advogados simplesmente não entenderam e teria continuado até encontrar um advogado que entendesse. Aprendi muito com essa experiência.

Ao ver o sucesso comercial do botox, a senhora se sentiu frustrada por não ter conseguido a patente?

Sim e não. Sim, porque quem não gostaria de ter uma quantia inesperada e enorme de dinheiro? Mas, por outro lado, era um medicamento novo e fascinante. Naquela época, a Allergan era a única empresa que tinha o produto e tivemos tantos projetos de pesquisa como resultado, o que foi muito emocionante, melhorar as coisas para tantas pessoas ao redor do mundo. Então não sei se foi bom ou ruim, mas acho que, no geral, foi bom, e a alegria dos muitos anos de pesquisas e tratamentos realmente valeu a pena.

A senhora mencionou que foi um desafio convencer os pacientes no início. E a comunidade médica? Como ela reagiu quando a senhora começou a defender o potencial cosmético do botox?

Eles ficaram chocados porque havia um número muito pequeno de médicos que entendia que o que era um veneno poderia ser um medicamento. Paracelso foi um famoso médico suíço que, há 500 anos, disse que qualquer coisa pode ser um veneno se você der a dose suficiente. O ponto de partida para os médicos, no meu caso, foi no encontro anual da Sociedade Americana de Cirurgia Dermatológica, onde apresentei nosso primeiro artigo sobre nossos primeiros 18 pacientes.

Normalmente, quando apresento um artigo, recebo perguntas, as pessoas se interessam, mas dessa vez a sala ficou num choque mortal. Depois, eles vieram e perguntaram “como você pôde usar aquele veneno terrível para algo tão frívolo quanto rugas?”. Primeiro, não é um veneno se você souber o que está fazendo com ele; e segundo, não há nada de frívolo nas rugas, porque as rugas realmente afetam a autoestima das pessoas. É uma forma muito importante de ajudar as pessoas a recuperarem sua autoestima.

Como conseguiu convencê-los disso?

Foi uma questão de usar o método científico, porque nossos colegas são brilhantes e se preocupam com a segurança de seus pacientes. Tivemos que convencê-los usando ensaios clínicos prospectivos e randomizados e outras avaliações científicas que incluíam fotografias, resultados relatados pelos pacientes, estudos ao longo de um período que mostraram que as pessoas estavam perfeitamente saudáveis, tinham uma aparência melhor e se sentiam melhor como resultado. Foi esse trio de fatores que fez com que fôssemos convidados a palestrar no mundo todo para explicar, e então esses profissionais começaram a fazer suas próprias pesquisas.

E a partir daí, vira uma grande bola de neve. Hoje existem mais de 6.000 artigos científicos revisados por pares sobre o Botox na literatura mundial, o maior número entre qualquer neuromodulador.

Existe muita pressão para parecer mais jovem hoje, especialmente sobre as mulheres. Como a senhora enxerga isso?

É verdade. As condições não são equilibradas para homens e mulheres. Por exemplo, para nós, começamos a perder e ter remodelação dos nossos ossos faciais por volta dos 20 e poucos anos. Nos homens, isso não começa até os 40 e poucos. Então, eles têm um passe livre de 20 anos, enquanto nós estamos começando a ter nossas sobrancelhas caindo, olheiras fundas, bigode chinês e perdendo nossa linha da mandíbula. E no mundo social, se um homem tem rugas de expressão e um pouco de flacidez no rosto, ele é visto como líder, estratégico, todas essas coisas positivas. E se nós temos isso no mercado de trabalho, dizem que a mulher está cansada, que não está lidando bem, que tem aquela expressão de raiva crônica, é tudo negativo para nós. Para nós podermos levantar as sobrancelhas de forma não cirúrgica, com duração de quatro a cinco meses, suavizando linhas e rugas, é algo muito poderoso no mundo corporativo.

As redes sociais e os filtros mudaram a forma como nos vemos e queremos ser vistos. Até que ponto essa exposição tem impulsionado a demanda por procedimentos estéticos como o botox?

Acho que há muita informação realmente boa na internet, mas também muitas fora da realidade. Por exemplo, as pessoas criam um avatar delas mesmas e trazem para o consultório dizendo “me deixe assim”. Não é possível. Mas, no geral, acho que a internet tem sido uma influência positiva para mostrar às pessoas o que poderia acontecer e como as coisas ficariam em outras pessoas. E acho que dá o benefício da informação que era algo que faltava. Essa é uma das características dos pacientes de hoje, eles são muito mais informados do que costumavam ser, e isso é a internet.

Para a senhora, o que significa envelhecer bem? Como sua relação com o envelhecimento evoluiu ao longo dos anos?

Quando eu era mais jovem, nunca pensei que envelheceria. Isso só acontece com as outras pessoas, certo? Não vai acontecer com você. À medida que seus filhos crescem e vão para a universidade, você começa a perceber que as coisas estão mudando. Para mim, tem sido uma busca para me manter em forma. Eu me exercito todos os dias por pelo menos uma hora. Cuido do que eu como e me mantenho socialmente conectada. Mas acho que é tentar dar o seu melhor em cada fase da sua vida. A atitude é a poção antienvelhecimento mais importante. Ser grata ao acordar de manhã por ter os dedos das mãos e dos pés funcionando, ser grata por ter essa família linda, por dar a partida no carro e ele funcionar. E ter uma atitude positiva e gentil. É muito melhor para o seu coração e corpo se você for uma pessoa positiva. E minha segunda regra é ligada a isso: cerque-se de pessoas positivas.

Se você puder se divertir enquanto passa por isso e se relacionar com muitas pessoas, é a melhor forma. Sabemos que ninguém até hoje viveu para sempre. Mas eu estive nos Túmulos da Dinastia Ming perto de Pequim e havia algumas pinturas adoráveis de imperatrizes que arrancavam os pelos das sobrancelhas e as redesenhavam mais altas, muito antes do Botox. Acho que as mulheres têm consciência há anos de que seus rostos envelhecem um pouco mais rápido e têm desejado fazer algo a respeito.

O Brasil é um dos maiores mercados do botox e de procedimentos estéticos no mundo. Na sua avaliação, o que explica isso?

Eu notei que os brasileiros trabalham muito duro, até mesmo na sua aparência. São fashionistas notáveis. Embora sejam brilhantes no que fazem, buscam sempre fazer o seu melhor. Tem outro lado dos brasileiros na minha visão: eles trabalham duro, mas se divertem muito. Acho que é um país de energia muito alta, e acho que eles veem o valor disso. Os homens também, não são apenas as mulheres.

O Brasil é famoso pela expertise de seus médicos. Vocês têm médicos e cirurgiões brasileiros fantásticos que conseguem realizar tratamentos cosméticos sem que pareça que foi feito algo. Ivo Pitanguy, no Rio de Janeiro, um cirurgião plástico mundialmente famoso, e os médicos de hoje possuem níveis de habilidade maravilhosos. Então, por que você não iria querer aparentar o seu melhor e fazer o seu melhor se você tem médicos que podem realizar um tratamento excelente para que você possa confiar que ficará com uma aparência melhor, mais jovem e se sentirá mais feliz?

No início, a senhora enfrentou resistência tanto dos pacientes quanto da comunidade médica. Como essa visão sobre os procedimentos estéticos mudou ao longo das últimas décadas?

Mudanças enormes aconteceram. Os baby boomers agora aceitam que é racional cuidar de si mesmo, mas não querem falar sobre o assunto. A Geração X está no meio termo entre os boomers e os millennials. Os millennials adoram e são muito focados na prevenção. Eles entendem, olham para o futuro, observam o que pode acontecer, compartilham na internet e não têm estigma algum.

Além disso, os millennials são hoje a maior parcela da força de trabalho em qualquer país ocidental. A Geração Z, eu não tenho tanta certeza, mas acho que serão infectados pela atitude de prevenção, porque eles podem ver quão bem isso funciona para os millennials. Não é mais algo só para a Elizabeth Taylor, é para pessoas que querem parecer e se sentir no seu melhor. E é acessível e viável para todos. Isso que é tão incrível, não é mais uma conta cirúrgica gigante.

Olhando para o futuro, quais avanços têm maior potencial para transformar a medicina estética nos próximos anos? O que mais a entusiasma hoje e como a inteligência artificial pode acelerar essa evolução?

A inteligência artificial e a modelagem computacional serão cada vez mais utilizadas como ferramentas preditivas, capazes de indicar quais avanços têm maior potencial antes mesmo da realização de estudos clínicos.

A IA é tão boa quanto o que você faz dela, então temos que alimentá-la com boas informações para que possa nos ajudar. Quanto ao futuro da medicina, sei que Elon Musk sente que em três anos não haverá mais médicos e tudo será feito por robôs. E eu simplesmente não consigo acreditar nisso, porque as pessoas gostam de pessoas, gostam de empatia, querem ser compreendidas. As pessoas gostam de um relacionamento e, mais ainda, de um relacionamento a longo prazo.

Uma das maravilhosas médicas brasileiras, a Dra. Ada Trindade de Almeida, realizou vários estudos (e colaborei com ela em alguns deles) mostrando como estudos e tratamentos de longo prazo, de mais de 10 anos, realmente permitem que as pessoas continuem parecendo mais jovens, se sentindo melhores e perfeitamente saudáveis. Então acho que esse lado de longo prazo é muito emocionante.

Também acho fascinante descobrir como o uso de neuromoduladores como o Botox pode afetar nosso humor, pois sabemos que muitas pessoas sofrem com a depressão e que é muito difícil para elas e suas famílias. Isso pode se tornar uma parte muito importante do tratamento do humor, ajudando na ansiedade social e melhorando a autoestima, tornando as pessoas mais felizes. Será muito empolgante ver como isso vai se desenrolar no futuro.

Sua descoberta nasceu da capacidade de escutar e observar uma paciente. O que essa experiência pode ensinar sobre inovação?

Ela ensina que você deve sempre ter a mente aberta. A mente é como um paraquedas, só funciona quando está aberta. E isso se liga àquela questão da gratidão. Ficar feliz pelas pessoas compartilharem o que sentem com você e realmente escutar, acho que faz parte dessa atitude.

Minha última pergunta é mais pessoal. Quando a senhora pensa no seu legado, como gostaria de ser lembrada?

Eu acho que provavelmente a resposta estaria ligada à sua pergunta. “Ela ouviu”.

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