Fazer um drink em casa já não significa apenas misturar destilado, gelo e refrigerante. Entre xaropes premium, bitters artesanais, espumas prontas e kits completos de coquetelaria, uma nova geração do mercado vem apostando na sofisticação do consumo doméstico — um movimento que cresce na esteira da alta coquetelaria, da cultura dos mocktails e da busca por experiências mais autorais dentro de casa.
O sinal mais recente dessa transformação veio da francesa Monin. Menos de um ano após inaugurar uma fábrica no Brasil, sua primeira na América Latina, a companhia acaba de lançar seu e-commerce nacional, mirando diretamente o consumidor final e profissionais independentes. Já presente em 15 mil pontos de venda por aqui, a expectativa é que a operação digital movimente R$ 5 milhões no primeiro ano — ajudando a marca a ultrapassar os R$ 160 milhões em faturamento no mercado nacional em 2026.
O movimento ajuda a dimensionar como o Brasil se tornou estratégico para o mercado global de ingredientes de coquetelaria. Segundo Thiago Zanon, diretor comercial e de marketing da marca em solo nacional, o país vive um momento de amadurecimento do consumo. “O consumidor brasileiro — tanto o profissional quanto o consumidor final — vem buscando experiências mais criativas e sofisticadas. Isso aparece na evolução da mixologia, no crescimento dos mocktails e também no interesse por sabores mais elaborados”, afirma.

A aposta acompanha um fenômeno global. O mercado internacional de xaropes para coquetéis deve saltar de US$ 5,33 bilhões em 2025 para US$ 7,21 bilhões até 2030, impulsionado pela popularização da mixologia doméstica, pela demanda por bebidas premium e pelo avanço das versões naturais e com menos açúcar.
Ao mesmo tempo, o universo da coquetelaria vem passando por uma mudança comportamental importante: menos consumo em volume e mais atenção à experiência.
Nesse contexto, marcas que antes orbitavam exclusivamente bares e restaurantes passaram a falar diretamente com quem prepara coquetéis em casa.
O consumidor virou bartender
Tradicionalmente associada ao food service e à alta coquetelaria, a Monin percebeu nos últimos anos uma expansão do uso doméstico de seus produtos. O novo e-commerce disponibiliza mais de 70 itens — entre xaropes, purês e cordiais — além de receitas e uma ferramenta de inteligência artificial que sugere combinações e modos de preparo para usuários de diferentes níveis de experiência.
“No Brasil, os sabores mais procurados continuam sendo os perfis cítricos e frutados, como maracujá, limão e frutas vermelhas. Mas também vemos crescer o interesse por linhas mais sofisticadas e por aplicações ligadas a cafés e drinks sem álcool”, diz Zanon.
A empresa afirma ter registrado crescimento superior a 30% em volume de vendas no país nos últimos quatro anos. Parte desse avanço acompanha a própria evolução da cena de bares brasileira — hoje mais sofisticada, autoral e conectada a tendências internacionais.
Mas há também outro fator: a profissionalização do consumo casual.
A era do drink “semi-pronto” e ingredientes autorais
O crescimento do mercado não acontece apenas entre marcas premium internacionais. Empresas brasileiras vêm encontrando espaço justamente na simplificação da experiência doméstica.
É o caso da Easy Drinks, fundada pelos irmãos Bruno e Fabrício Lot. Especializada em preparados não alcoólicos para coquetéis, a empresa faturou quase R$ 25 milhões no último ano vendendo frutas processadas, espumas, xaropes e kits prontos para drinks.

A lógica é simples: reduzir etapas sem eliminar completamente a experiência do preparo.
Hoje, o portfólio inclui bases para Moscow Mule, Cosmopolitan, Whisky Sour, Piña Colada e misturas de frutas prontas para uso, dando suporte a um público que quer não só conveniência, mas a experiência de testar receitas em casa sem necessariamente dominar técnicas complexas de bar.
Outro segmento que cresce rapidamente é o dos bitters e ingredientes autorais voltados à coquetelaria premium. A brasileira NIB Bebidas acaba de anunciar uma collab com a italiana Fabbri 1905 para lançar o primeiro bitter produzido com Amarena Fabbri original — ingrediente clássico da mixologia italiana. A edição limitada chega acompanhada de um tour latino-americano de experiências e masterclasses para bartenders.
A expectativa da empresa é alcançar faturamento próximo de R$ 3,5 milhões com o novo produto em seu primeiro ano completo.
Para Pablo Moya, fundador da marca, o mercado brasileiro atravessa seu momento mais sofisticado até aqui. “O consumidor está mais interessado em origem, ingredientes e narrativa. O bitter deixou de ser apenas um detalhe técnico e passou a ocupar um papel central na construção dos novos clássicos”, afirma.
O avanço da categoria acompanha também a explosão dos mocktails (os drinks sem álcool) e das bebidas de baixa graduação alcoólica, tendência que ganhou força especialmente entre consumidores mais jovens.

No fim das contas, o crescimento desse mercado parece refletir uma mudança maior no comportamento contemporâneo: a tentativa de transformar a experiência doméstica em algo mais ritualizado e personalizado — sem perder a qualidade.