Durante anos, o uísque na Coreia era algo servido em karaokês para impressionar o chefe — ou consumido junto a rótulos escoceses importados em jantares de negócios. Mas, nos últimos anos, a relação do país com a bebida mudou: o que antes era uma obrigação corporativa se transformou em um verdadeiro interesse.
Hoje, uma nova geração de destiladores está moldando o futuro do uísque coreano, com bebidas destiladas, envelhecidas e misturadas localmente, que se sustentam por mérito próprio. Deixou de ser apenas uma imitação do escocês — são rótulos com identidade coreana, expressivos e, em muitos casos, surpreendentes.
O uísque coreano ainda está em seus primeiros capítulos — mas já apresenta narrativas interessantes. Muitos desses rótulos ainda são difíceis de encontrar fora da Coreia (por enquanto), o que torna a descoberta ainda mais atraente. Ao buscar novas garrafas ou compor uma prateleira de rótulos internacionais, vale reservar um espaço para Seul.
A seguir, um panorama sobre as origens do uísque coreano e alguns rótulos a serem conhecidos por quem deseja antecipar tendências.
Um breve histórico do uísque coreano

Por muito tempo, o uísque na Coreia foi sinônimo de importados — principalmente escoceses e, mais recentemente, japoneses. Conglomerados locais como HiteJinro e Doosan chegaram a engarrafar blends sob licença, mas uísque genuinamente nacional era raro.
Esse cenário começou a mudar nos anos 2010. Alterações na legislação de bebidas alcoólicas facilitaram a destilação em pequena escala, e alguns produtores pioneiros — alguns com formação na tradição escocesa — passaram a armazenar barris. Assim, o país optou pela grafia whisky (sem o “e”). Agora, a Coreia começa a produzir rótulos verdadeiramente interessantes. Embora ainda não tenham décadas de envelhecimento, contam com algo que os escoceses nunca terão: uma perspectiva local e um passaporte coreano.
Three Societies Distillery – Ki One “Tiger Edition”
Namyangju, Província de Gyeonggi

A Three Societies representa o momento em que o uísque coreano conheceu seu “primo mais velho” que estudou no exterior e voltou com boas histórias. Fundada pelo empresário coreano-americano Bryan Do e liderada pelo mestre destilador escocês Andrew Shand (ex-The Macallan), trata-se da primeira destilaria coreana dedicada ao single malt.
O rótulo Ki One Tiger Edition — a primeira edição lançada — foi engarrafado com 56,2% de graduação alcoólica, diretamente do barril, e produzido com 100% de cevada coreana. Apresenta notas de castanha assada, geleia de damasco, biscoito de cereais e um toque cítrico, com um final surpreendentemente estruturado para uma bebida jovem. Pode ser considerado o “baile de debutante” do uísque coreano — com listras de tigre, como sugere o nome.
Golden Blue – The Signature
Busan

O Golden Blue é, para a Coreia, o que o Crown Royal representa no Canadá: popular, onipresente e mais suave do que se imagina. Trata-se tecnicamente de um blend, com graduação alcoólica de 36,5%, o que o enquadra como uísque segundo as leis coreanas, embora possa gerar dúvidas em outros países. Ainda assim, é um rótulo feito para ser apreciado em momentos informais.
O The Signature apresenta sabores de mel suave, torradas de cereais e um leve final com chá floral. É bastante consumido por coreanos que estão começando a explorar o universo do uísque ou por quem busca algo sofisticado sem grandes exigências de paladar.
White Tiger Distillery – Paektu Malt
Província de Gyeongsang do Norte

Batizada em referência ao tigre branco mítico da Coreia e ao Monte Paektu — considerado o “teto espiritual” da península —, essa nova destilaria já nasce com pretensões grandiosas. E, ao que tudo indica, pode ter êxito.
O rótulo Paektu Malt oferece notas delicadas de pera asiática, amêndoa, especiarias amadeiradas e jujuba, envolvidas por uma textura suave que revela cuidado na mistura e apuro sensorial. Com mais experiências de envelhecimento regional previstas, a White Tiger é uma das marcas a serem acompanhadas por quem se interessa por uísques com história e personalidade.