Em seus 472 anos, celebrados neste domingo (25 de janeiro), São Paulo reafirma um dos seus traços mais marcantes: a capacidade quase infinita de acolher, transformar e reinventar quem escolhe viver sob seu ritmo intenso. Cidade de chegadas e recomeços, a capital paulista sempre exerceu um magnetismo singular sobre estrangeiros em busca de oportunidades, liberdade criativa e novos horizontes.
Muito além dos clichês associados ao Brasil, a cidade se impõe como uma metrópole global, vibrante, plural e imprevisível, onde diferentes culturas, sotaques e trajetórias se cruzam diariamente. Para franceses, espanhóis, americanos, belgas, peruanos e tantas outras nacionalidades que decidiram chamar a cidade de lar, o fascínio está justamente nesse território em constante construção, capaz de transformar o improvável em possível.
Nesta reportagem especial de aniversário, a Forbes reúne histórias de estrangeiros que escolheram São Paulo não apenas como endereço, mas como plataforma de vida, trabalho e criação. Profissionais de áreas tão diversas quanto moda, gastronomia, design e tecnologia compartilham os caminhos que os trouxeram até aqui — e revelam por que, em meio ao caos e à potência da cidade, encontraram pertencimento, propósito e futuro.
Confira a seguir 6 histórias de como São Paulo mudou as vidas (e carreiras) desses estrangeiros:
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1 / 6 DivulgaçãoAdélaïde de Grandcourt, designer e dona da marca Vitry – francesa
Adélaïde de Grandcourt é francesa, nascida em Paris, e vive entre a Europa e o Brasil há mais de uma década. Recentemente, voltou a se instalar de forma permanente em São Paulo, onde dirige a filial brasileira da Vitry, marca francesa de beleza fundada em 1795 e pertencente à sua família há gerações. À frente da operação local, lidera a expansão da maison no país, com foco em inovação, curadoria de produtos e crescimento estratégico. Para 2026, acelera a presença da Vitry no varejo premium, com exclusividades, novas parcerias e um plano de expansão para mercados como Belo Horizonte, Brasília e Florianópolis.Como você veio parar em São Paulo?
Recém-formada pela École de la Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, vim para São Paulo para passar alguns meses. O que seria temporário acabou se transformando em quatro anos. Aqui, criei minha marca de roupas sob medida e trabalhei com Sarah Chofakian, aprofundando meu contato com o universo do couro e descobrindo o artesanato brasileiro, que há mais de doze anos é uma fonte constante de inspiração no meu trabalho.Por que escolheu SP?
Vim para acompanhar meu namorado da época, que fazia intercâmbio na cidade — algo totalmente fora dos meus planos. Mas o desconhecido me intrigava. Era uma oportunidade assustadora, que resolvi abraçar. Nunca me arrependi: São Paulo mudou profundamente minha trajetória pessoal e profissional.O que te fascina sobre a cidade?
São Paulo é movimento, transformação e possibilidade. Como parisiense de Saint-Germain-des-Prés, cresci cercada por história, tradição e permanência. Isso é reconfortante, mas também pode ser limitador. O Brasil, para mim, representa o futuro, a abertura e o campo das possibilidades. Foi aqui que, aos 22 anos, criei a minha marca. Tudo o que parecia impossível em Paris se tornou viável em São Paulo, que segue sendo, para mim, a verdadeira capital das oportunidades.O que te prende aqui?
Mesmo após voltar à França durante a pandemia para trabalhar na empresa familiar de cosméticos, o potencial do mercado brasileiro me trouxe de volta. Hoje estou 100% baseada em São Paulo, liderando projetos maiores, como a implantação da filial da empresa no Brasil. São razões pessoais e profissionais que me movem diariamente e tornam essa cidade uma fonte constante de evolução e estímulo.O que fez ou faz você se sentir em casa?
A família que construí por meio de encontros sinceros. Desde os meus 20 anos, formei um círculo de amigos que me acompanhou em todas as etapas da minha trajetória. Soma-se a isso a energia brasileira, muito mais alinhada com quem eu sou. Sou uma parisiense que escolheu viver na luz, no calor e na abertura do Brasil — sempre pronta para novos encontros, histórias e projetos.O que mais gosta de fazer em São Paulo?
Amo dois extremos da cidade. De um lado, circular entre meus fornecedores de couro na Lapa, no Brás e no Bom Retiro, visitando fábricas, oficinas e costureiras — é ali que nascem minhas criações. Do outro, participar da vida cultural, de eventos de moda, lançamentos, exposições e novos restaurantes, onde sempre encontro pessoas interessantes e histórias inesperadas. São Paulo, para mim, é o retrato completo da experiência humana — intensa, diversa, caótica e absolutamente fascinante. -
2 / 6Emmanuel Lejeune, estilista e dono da marca homônima – belga
Nascido em uma família de diplomatas, filho de mãe brasileira e pai belga, Emmanuel Lejeune foi criado entre três continentes. Depois de passagens por Madrid, Costa do Marfim, Tel Aviv e Hong Kong, o estilista – formado na ESMOD de Paris – voltou a morar em São Paulo em 2026, lançando sua marca homônima de roupas no mercado nacional. Ele estreou com a coleção Devaneio, que “une a sensualidade do Brasil ao ‘chic’ europeu”.Como veio parar em SP?
Nasci na Bélgica e viajei o mundo por causa do trabalho da minha mãe, oficial de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Ela se aposentou e fomos morar em Bruxelas. Após a pandemia, pelo desejo de minha mãe de se religar às suas raízes brasileiras, decidimos voltar a São Paulo, lugar onde nunca havíamos morado.Por que escolheu SP?
Escolhi SP porque é o centro da moda brasileira e fazia todo o sentido pelo desenvolvimento da minha carreira. Eu já tive ateliês em Tel-Aviv e Hong Kong, e meu objetivo é estabelecer a marca Emmanuel Lejeune no Brasil.O que te fascina sobre a cidade?
A grandeza de São Paulo me fascina, assim como seu espírito borbulhante.O que te prende aqui?
Gostei das pessoas daqui, do fato de meu trabalho estar tendo um retorno tão positivo e de poder desenvolver a minha marca em um pólo de moda como São Paulo.O que faz para se sentir em casa?
Aprendi a me sentir em casa em todas cidade onde morei, como Madri, Abidjan, Varsóvia, Hong Kong, Tel-Aviv, Cantão e Bruxelas. Todos os lugares têm lados positivos e negativos, e é importante ter uma flexibilidade para focar no positivo e aproveitar ao máximo a experiência que estamos tendo.O que mais gosta de fazer em SP?
Adoro criar minhas coleções e me conectar com toda a cadeia produtiva que colabora com a marca. Adoro a Bela Vista por ser um bairro muito central e com muitas atividades, sinto que estou onde as coisas acontecem. Como restaurante, gosto muito do Bistrot de Paris, que serve uma comida francesa refinada que remete à culinária da minha infância. Passo muito tempo lendo e costumo frequentar atividades culturais, como ir a museus e galerias de arte. São Paulo é realmente um grande polo cultural e de negócios. -
3 / 6 DivulgaçãoEmily Ewell, CEO da Pantys – americana
Emily Ewell – de Washington, radicada em São Paulo desde 2013 – é CEO e cofundadora da Pantys, pioneira em femtech sustentável, com inovações para menstruação, maternidade e incontinência. Engenheira química com MBA e mestrado em saúde pública pela UC Berkeley, tem mais de 20 anos de experiência em marketing digital em saúde para setores privado, público e ONGs. Porta-voz global, detém diversas patentes e é reconhecida pela Bloomberg entre as 500 pessoas mais influentes da América Latina, além de Liderança de ImPact como representante do ODS 12 no Brasil.Como você veio parar em São Paulo?
Vim a São Paulo inicialmente a trabalho, quando atuava em consultoria na Deloitte. Depois do meu MBA, morei na Suíça e trabalhei em uma empresa farmacêutica. Um dos projetos que liderei envolvia a implementação de uma solução digital na área da saúde no Brasil, voltada ao acompanhamento de pacientes com doenças crônicas. Passei a vir com frequência para apoiar o desenvolvimento da equipe local e, nesse processo, acabei me apaixonando por São Paulo. O ambiente de inovação, o ecossistema de startups e a força da economia criativa me conquistaram — e foi isso que me motivou a me mudar definitivamente para cá.Por que São Paulo?
Não diria que escolhi São Paulo – acho que São Paulo me escolheu, principalmente pelo trabalho. Quando estrangeiros pensam no Brasil, normalmente imaginam praia e Rio de Janeiro. Eu já conhecia bem o Nordeste, especialmente Recife, que eu adoro. Para mim, São Paulo é um pouco como Paris na França: é onde tudo acontece. A cidade mistura o mercado financeiro com o ecossistema de startups, reúne diferentes áreas e concentra oportunidades. É um mercado riquíssimo para trabalhar, ainda que menos procurado pelo turismo. Quem vem para São Paulo, na maioria das vezes, vem a trabalho e é exatamente isso que torna a cidade tão interessante.O que mais te fascina na cidade?
O que me fascina em São Paulo é que, na verdade, não existe um único São Paulo. A cidade é formada por muitos bairros completamente diferentes entre si, cada um com sua própria atmosfera, arquitetura, arte, restaurantes e energia. O centro é completamente distinto do Itaim, que é diferente de Pinheiros – cada região tem uma personalidade muito clara. É impossível ficar entediado aqui. Você encontra influências do mundo inteiro, como a forte presença da cultura japonesa, por exemplo, além de uma diversidade enorme de experiências. Sempre há algo novo para descobrir.O que te prende aqui?
Sem dúvida, as pessoas. Já morei na Espanha e na Suíça, e o Brasil tem algo muito especial nesse aspecto. As pessoas são calorosas, carinhosas e têm uma gentileza que é sofisticada, mas ao mesmo tempo leve. Existe também um humor muito próprio: o brasileiro sempre encontra uma forma de brincar, de rir, independentemente da situação. Essa mentalidade é algo com que aprendo todos os dias e que me prende profundamente ao país.O que faz você se sentir em casa em São Paulo?
Eu sou de Washington, DC, uma cidade extremamente diversa, com pessoas do mundo inteiro, e isso me conecta muito com São Paulo. A diversidade cultural da cidade – nos museus, restaurantes, exposições, música e artes – me faz sentir em casa. Aqui consigo me relacionar com pessoas de diferentes países, mas também de todas as regiões do Brasil. Na Pantys, por exemplo, trabalhamos com lideranças femininas da Amazônia, e muitas vezes conseguimos encontrá-las em São Paulo. Essa possibilidade de troca, de acesso e de inspiração constante é algo incrível e muito especial.O que você mais gosta de fazer em São Paulo?
Gosto muito de programas ligados a bem-estar e wellness. Sou fã da Awake, uma clínica próxima aos Jardins que oferece sound healing e tratamentos energéticos bem diferentes. Eles trabalham com mapeamento energético e experiências que não são tão fáceis de encontrar em outras cidades. Também gosto muito da Contrast, em Pinheiros, com ice baths e sauna. São Paulo tem uma oferta incrível para quem busca bem-estar. O interessante é ver como práticas como o sound healing, que comecei a fazer há alguns anos, hoje se tornaram uma grande tendência — parece que estão em todos os lugares. -
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4 / 6 Thays BittarMari Woodman, chef – peruana
Nascida em Piura, no norte do Peru, e formada em Paris, a chef Marisabel Woodman escolheu São Paulo como lar há mais de uma década. Desde então, evoluiu de uma barraca de comida de rua para um restaurante Bib Gourmand do Guia Michelin – o La Peruana, no Jardins. Em 2025, expandiu seus negócios na capital com a abertura do Mares de La Peruana, em Pinheiros.Como você veio parar em São Paulo?
Eu vim morar em SP em agosto de 2012 para conhecer o trabalho do Alex Atala. Entrei nos seus restaurantes, o D.O.M e o Dalva e Dito, e acabei ficando no Brasil.Por que escolheu SP?
Para mim, São Paulo é a capital gastronômica do Brasil. Achei que tinha uma grande oportunidade de fazer comida peruana aqui: tinham pouquíssimas opções de restaurantes peruanos na cidade e o paulistano tem poder aquisitivo alto, além de ser muito aberto a provar coisas novas.O que te fascina sobre a cidade?
A diversidade, a abertura e o prazer que o paulistano sente para conhecer culturas novas e aceitar elas do jeito que são.O que te prende aqui?
Os meus restaurantes, o La Peruana e o Mares de La Peruana. Amo São Paulo, mas amo mais o mar – algum dia espero voltar a morar em alguma cidade com oceano.O que faz você se sentir em casa?
Ser mãe. Minhas filhas nasceram aqui. Ter meus restaurantes peruanos aqui em São Paulo também – entro neles e me sinto no Peru, especialmente porque quase toda a minha equipe é de lá. Como todos estamos fora “fazendo pátria” aqui, sinto que vibramos igual. Somos uma família.O que mais gosta de fazer em São Paulo?
Comer, adoro! Estou conhecendo a noite paulista que também é muito divertida, os bares com música boa, cocktails incríveis e comida gostosa são meu novo vício. Gosto muito de Pinheiros e Barra Funda. Adoro o Caracol Bar, que junta o que mais gosto: comida boa, drinks bons, música incrível e dá pra cansar sem parar por horas. Caso é o bar que mais frequento: a comida é perfeita, os drinks deliciosos e sempre inventam coisas novas… Restaurante favorito é muito difícil, porque tenho vários: Cora, Cepa, Nomo…a lista não para. Além de dançar salsa onde minha banda preferida (a Lo Cubano) estiver, minha atividade favorita é fazer yoga. Escapadinhas pra praia para surfar de final de semana também me deixam especialmente feliz. -
5 / 6 DivulgaçãoLucas Jimeno Dualde, designer de interiores – espanhol
Lucas Jimeno Dualde vive e trabalha em São Paulo, onde há mais de 13 anos comanda um escritório multidisciplinar de arquitetura, interiores e design, além de atuar como head de interiores do arquiteto Isay Weinfeld. Nascido em Barcelona, tem formação em moda e têxteis pelo Istituto Marangoni, em Milão, e em Filosofia e Humanidades pela Universidade Pompeu Fabra, em sua cidade natal. Sua produção autoral é pautada pelo rigor formal, atenção à materialidade e um diálogo constante com a natureza.Como você veio parar em São Paulo?
Vim para São Paulo para ficar perto da minha filha.Por que escolheu São Paulo?
A vida familiar me trouxe até aqui e, com o tempo, decidi ficar.O que te fascina na cidade?
As possibilidades que São Paulo oferece. É uma cidade que está sempre vibrando e se transformando. A gastronomia, o movimento das pessoas, essa sensação de ter um pé no Brasil e outro no mundo — além do fato de me permitir desenvolver plenamente o meu trabalho.O que te prende aqui?
A escolha de estar perto dos meus filhos e a minha profissão. São Paulo acabou se tornando o meu lar no presente.O que fez ou faz você se sentir em casa em São Paulo?
Meus filhos, a nossa casa, as obras de arte e o mobiliário com os quais convivo, os amigos e a rotina do dia a dia.O que você mais gosta de fazer em São Paulo?
Gosto de Higienópolis, de almoçar com amigos no Cais, jogar tênis pela manhã e visitar exposições no MASP. -
6 / 6 DivulgaçãoSeba Orth, do Estúdio Orth – francês
Seba é fundador e diretor criativo do Estúdio Orth, escritório multidisciplinar de design de mobiliário e interiores fundado em 2018, ao lado de Luísa Bianchetti, com linguagem autoral que combina rigor formal, materiais nobres e produção artesanal. O estúdio reúne mais de 200 peças originais e desenvolve projetos sob medida, dialogando com arquitetura, simbolismo e permanência. Ele também é idealizador da Ilha dos Cocos, guest house na Costa Verde do Rio de Janeiro, a propriedade é cercada por design, natureza e conforto.Como você veio parar em São Paulo?
Encontros e desencontros da vida. Vim por um motivo, fiquei por outros e, quando percebi, São Paulo já havia se tornado a minha casa.Por que escolheu São Paulo?
São Paulo me ofereceu algo raro: espaço para errar, testar, recomeçar e construir. É uma cidade dura, mas generosa com quem insiste.O que te fascina na cidade?
A vegetação. Árvores gigantes, raízes quebrando calçadas — uma selva urbana tropical convivendo com concreto, pressa e caos. Essa contradição constante me inspira muito.O que te prende aqui?
Meu filho, meu trabalho e a sensação clara de que ainda tenho muito a construir aqui.O que fez ou faz você se sentir em casa em São Paulo?
O dia em que percebi que reclamar de São Paulo havia virado um gesto de carinho.O que você mais gosta de fazer em São Paulo?
Meu bairro é o Pacaembu, onde moro e trabalho — uma espécie de ilha dentro da cidade, perto de tudo. Em cinco minutos de moto, estou no Centro, em Pinheiros, em Higienópolis ou nos Jardins, onde gosto de endereços clássicos que frequento há mais de vinte anos, desde que cheguei: almoçar no Tordesilhas, no Rodeio, ou tomar um vinho no Bar Balcão.O que você mais gosta de fazer em São Paulo?
Circular pela cidade de moto, observando suas camadas, contrastes e histórias escondidas em cada esquina. Ir ao Ceagesp à noite, ao Gasômetro durante o dia, e voltar sempre ao Estúdio Orth, onde passo meus dias e que fica exatamente no cruzamento de tudo isso.