Três colecionadoras abrem seu acervo

Renato Pizzutto
Camila Yunes diante de uma peça de Joseph Kosuth que traz o “conceito A da desmaterialização”

A palavra “arte” já representou para boa parte do público jovem algo antiquado e maçante, uma imagem poeirenta que remetia a matérias de escola e peças de museu. No entanto, ao lado dos atuais avanços da tecnologia e de gadgets impensáveis poucas gerações atrás, essa coisa “antiquada” começou a despertar o interesse da “garotada”.

Segundo o economista e leiloeiro Acacio Lisboa, de 39 anos (filho de James Lisboa, uma das maiores autoridades do mercado de arte do país), o tema entrou na moda. “Virou cool, como aconteceu com os vinhos há algum tempo. Os jovens passaram a se interessar cada vez mais. Muitas vezes, frequentam as galerias sem comprar nada. Mas querem entender, participar do movimento”, diz Acacio, que trabalha com o pai na Galeria Frente, em São Paulo. “Quando eu comecei no ramo, na década de 70, existiam só cinco galerias na cidade. Hoje são tantas que não dá tempo de ver tudo o que tem para ver”, confirma James. A Galeria Frente, nos Jardins, expõe obras de artistas consagrados como Candido Portinari, Tarsila do Amaral, Burle Marx e Tomie Ohtake.

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Pai e filho acreditam que a inserção do jovem no cenário artístico ajuda a promover o mercado como um todo, mesmo que hoje eles não sejam os maiores compradores. “Todo galerista gosta de receber alguém que busca se informar, porque essa pessoa pode ser o comprador de amanhã – e um cliente bem tratado sempre volta”, ensina James.

JOVENS ‘CONVERTIDOS’

Camila Yunes Guarita, de 27 anos, é neta de Jorge Yunes, um dos maiores colecionadores de arte do Brasil, dono de mais de 30 mil peças que vão do século 4 a.C. até a década de 1970. Por influência do avô, ela se tornou uma colecionadora precoce. “Ele era um homem amplo, tinha ‘vontade de mundo’, queria conhecer tudo, e transmitiu isso para mim”, conta ela, lembrando que o avô a levava a balés e óperas.

Camila, que começou a carreira como arquiteta, apaixonou-se de vez pela arte após uma temporada em Paris, onde trabalhou para a renomada Galleria Continua. De volta ao Brasil, ela transformou um antigo projeto, o GoART (que nasceu na faculdade), naquilo que mais tarde seria a Kura, sua própria empresa de arte, por meio da qual dá consultorias e ajuda outros novatos a começarem suas coleções. “Minha missão de vida é a transformação: busco transformar as pessoas que cruzam meu caminho usando a Kura como instrumento. Monto a coleção de acordo com o que cada pessoa gosta, com aquilo que a toca.”

Renato Pizzutto
Obra do argentino Julio Le Parc (de madeira, acrílico e náilon), um das peças favoritas do acervo particular de Jéssica Cinel

Um bom exemplo do trabalho da Kura é a coleção de Jéssica Cinel, de 28 anos. O interesse da jovem pela arte começou quando ela foi estudar em Londres. “Aquela cidade respira arte, e pouco a pouco eu comecei a me interessar”, lembra. Mais tarde, decidida a se aprofundar no assunto, fez mestrado em arte asiática na Sotheby’s de Londres. Para Jéssica, o ato de colecionar vai muito além de um simples hobby – tem um propósito maior por trás. “A arte tem o poder de transformar, de encantar. Eu quero que minha coleção cresça para que eu possa dividir isso com a sociedade.” O apreço de Jéssica pela arte reverberou na família a ponto de sua irmã Victoria, de 22 anos, começar a própria coleção. Elas são filhas de Washington Cinel, dono de uma das maiores empresas de segurança do país, a Gocil.

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Sofia Derani, de 27 anos, começou a colecionar com uma idade em que o adolescente normalmente está focado em outros interesses. Comprou sua primeira obra aos 14 anos: um quadro do artista francês Mr. Brainwash. Amante de street art, Sofia concorda que “foi picada pelo bichinho da arte muito nova” com a ajuda do pai (o empresário Marcos Derani), que a levava a antiquários e exposições. “Coleciono por paixão. Recebo muitas propostas de compra por minhas peças, mas não me desfaço delas de jeito nenhum.” Entre as obras, uma enorme tela na qual foi retratada pelo artista Speto, além de outra de autoria de Kobra.

Renato Pizzutto
Sofia Derani entre dois destaques da street art brasileira: à esquerda, obra de Speto retratando a colecionadora de 27 anos; à direita, quadro de Kobra

O reflexo do interesse juvenil por arte não se restringe aos novos colecionadores. A arquiteta Roberta Bussab, de 30 anos, que atuava prioritariamente como designer de interiores, percebeu o aquecimento do setor e passou a se especializar: estudou mercado de arte na Sotheby’s e arte contemporânea no M.Inq (SP). Hoje sua principal atividade é como consultora de arte. Para esta reportagem, colaborou com a curadoria das peças destacadas.

Camila, Jéssica e Sofia têm outro ponto em comum: todas fazem parte do programa Jovens Patronos do Masp, que foi criado em 2016 com o objetivo de aproximar pessoas com menos de 40 anos do propósito do museu: divulgar a arte, especialmente para as novas gerações. E, com isso, transformar a sociedade – e o mundo .

Veja, na galeria de fotos abaixo, peças do acerva das três jovens colecionadoras:

  • Série de painéis da artista Barbara Wagner (premiada na Bienal de Veneza, em 2019) do acervo de Camila Yunes

  • Silêncio, de Leonora Barros, do acervo de Camila Yunes

  • Eggs and Flowers, da paulistana Erika Verzutti, do acervo particular de Jéssica Cinel

  • Stacked Porcelain Vases as a Pilar, do chinês Ai Weiwei, do acervo particular de Jéssica Cinel

  • A primeira aquisição da coleção de Sofia Derani: peça do artista francês Mr. Brainwash

Série de painéis da artista Barbara Wagner (premiada na Bienal de Veneza, em 2019) do acervo de Camila Yunes

Reportagem publicada na edição 75, lançada em março de 2020

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