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Conheça Derek Stevens: o Último Magnata dos Cassinos de Las Vegas

Com US$ 1 bilhão investidos no Circa, o bilionário aposta em experiências para revitalizar a Fremont Street

8 min

Por volta das 18h de uma terça-feira, no fim de dezembro, cerca de 500 apostadores formam fila no cassino Golden Gate, na Fremont Street, no centro de Las Vegas. O objetivo: garantir um voucher para bebidas grátis com Derek Stevens, o proprietário bilionário do local. As chamadas bartender dancers, vestidas com bralettes, calcinhas e botas go-go, balançam ao som de “I Gotta Feeling”, do Black Eyed Peas, enquanto dois convidados se aproximam para apertar a mão do anfitrião.

“Todo cassino precisa de sua própria atração, e as pessoas são atraídas por um open bar”, diz Stevens, de 58 anos. Ele comprou o Golden Gate — o hotel e cassino mais antigo de Las Vegas — em 2006. Cinco anos depois, adquiriu o The D, também na Fremont Street. Do outro lado da via está sua joia da coroa: o Circa, inaugurado em 2020 ao custo de US$ 1 bilhão (R$ 5,4 bilhões).

Cada voucher de bebida vem em um envelope dourado que geralmente contém US$ 5 (R$ 27) pré-carregados em um cartão — mas o valor pode chegar a US$ 1.000 (R$ 5,4 mil). O Golden Gate promove o happy hour todas as noites, sete dias por semana. E é seguro dizer que os apostadores gastam mais nos caça-níqueis do que o cassino desembolsa em bebidas.

Um funcionário entrega o microfone a Stevens, e a música diminui. “Sempre achei que não há nada melhor em Vegas do que tomar algumas bebidas e talvez ganhar um jackpot”, diz à multidão. “É assim que a noite começa. E agradeço por vocês quererem começar aqui.”

Vestindo camisa oxford branca, terno azul e um relógio Richard Mille, Stevens é o último representante de uma espécie em extinção em Las Vegas: o magnata de cassinos independente.

Com três propriedades, administradas ao lado do irmão mais novo, Greg, Stevens tem um patrimônio estimado em US$ 1,2 bilhão (R$ 6,5 bilhões), segundo a Forbes. Em uma cidade moldada por lendas como Jay Sarno, Kirk Kerkorian e Benny Binion — e reinventada por Steve Wynn e Sheldon Adelson — quase todos os grandes operadores atuais, da MGM à Caesars, venderam seus terrenos para fundos imobiliários (REITs), mantendo apenas a operação dos cassinos e pagando aluguel.

Stevens seguiu o caminho oposto: é dono dos prédios e do terreno sob eles. Enquanto os cassinos da Strip sofreram no último ano com a queda no turismo internacional, o centro de Las Vegas foi impulsionado por apostadores americanos, atraídos por quartos mais baratos, pela facilidade de circular a pé pela Fremont Street e pelo espetáculo oferecido pelo Circa.

Um novo ícone na Fremont Street

Com 60 andares na esquina da Fremont com a Main Street e aparência de navio de cruzeiro, o Circa é a única opção de alto padrão no centro da cidade.

O Fremont Casino, da Boyd, é nostálgico, mas envelhecido. O Golden Nugget, de Tilman Fertitta, parece parado no tempo. O Binion’s, onde nasceu a World Series of Poker, segue praticamente sem reformas desde os anos 1970.

O Circa, porém, é outra coisa. É atração turística em si — a essência de Vegas.

O resort abriga a maior casa de apostas esportivas do mundo, distribuída em três andares com assentos estilo cinema, uma tela capaz de transmitir 19 jogos simultaneamente e o Stadium Swim, a maior piscina da “Cidade do Pecado”, aquecida a 36 °C no inverno, com uma tela de TV de 43 metros de altura. Stevens a chama de “aquatic theater” e diz ter construído “a melhor piscina da maldita história do mundo”.

A aposta que deu certo

Desde a inauguração do Circa, em outubro de 2020, a receita de jogos do centro de Las Vegas cresceu 40%. A Forbes estima que o resort gere cerca de US$ 280 milhões por ano (R$ 1,5 bilhão) em receitas de apostas — aproximadamente 35% de toda a arrecadação de cassinos do centro.

O impacto foi tão grande que o hotel já recebeu bilionários como Steve Cohen e até o então recém-empossado presidente Donald Trump, em janeiro de 2025.

Stevens também carrega episódios dignos de roteiro policial. Em 2023, um golpista se passou por ele ao telefone e convenceu um funcionário a entregar US$ 1,1 milhão (R$ 5,9 milhões) em dinheiro em um estacionamento. O plano funcionou — até o criminoso ser preso. Em outro episódio, Stevens foi multado em US$ 250 mil (R$ 1,35 milhão) por autoridades de Nevada após dar fichas a apostadores sem a documentação exigida. Ele nega irregularidades.

“Stevens faz muitas das coisas que seus predecessores faziam — só que maiores”, diz Mike Green, professor da UNLV. “Wynn teve seus problemas, Adelson se foi, e poucos restaram. Stevens pode ser o último magnata.”

Ele discorda: “Sou apenas um cara vendendo cerveja na ponta do bar.”

Da indústria automotiva aos cassinos

Nascido em Grosse Pointe, Michigan, Stevens é filho de um arquiteto e de uma professora de matemática cuja família fundou, no início do século 20, uma empresa de fixadores para a indústria automotiva. Após se formar na Universidade de Michigan, em 1993, tornou-se CEO da Cold Heading Co. — cargo que ocupa até hoje.

“Para ser sincero, são apenas alguns caras em uma garagem”, diz, em um raro momento de modéstia.

A realidade é que a empresa é uma das principais fornecedoras de porcas e parafusos do setor automotivo — e foi esse fluxo de caixa que permitiu aos irmãos Stevens comprarem o Golden Gate e o The D. O investimento no CircaUS$ 500 milhões (R$ 2,7 bilhões) em capital próprio — veio dos lucros dos dois primeiros cassinos.

O quarteirão inteiro — e o salto de ambição

Em maio de 2006, Stevens procurava investir em um estado sem imposto de renda. Vestindo camiseta e chinelos, acabou entrando no Golden Gate. Usou um telefone interno e, por acaso, o então dono Mark Brandenburg atendeu.

Minutos depois, Stevens dizia querer investir em cassinos. Horas depois, saía com 50% do Golden Gate, após pagar US$ 7,5 milhões (R$ 40 milhões). Em 2008, comprou o restante da participação. No ano passado, adquiriu também o terreno do hotel por US$ 19 milhões (R$ 102 milhões).

“Sempre achei importante ser dono da terra”, diz em seu escritório no Circa. “Talvez eu seja antiquado, mas hoje quase todos na Strip alugam seus terrenos.”

A estratégia reduz acesso a capital, mas também diminui riscos. “Em uma recessão, o aluguel sempre vence”, afirma.

Em 2011, os irmãos compraram o Fitzgerald’s, reformaram o prédio de 36 andares e o rebatizaram como The D. Quatro anos depois, adquiriram o envelhecido Las Vegas Club, além de outras propriedades do quarteirão — incluindo o icônico Glitter Gulch, cujo letreiro da vaqueira Vegas Vickie hoje brilha dentro do Circa.

Restava apenas uma pequena loja de camisetas. Stevens comprou o imóvel por US$ 13,5 milhões (R$ 73 milhões) — o metro quadrado mais caro de sua trajetória. Assim, tornou-se dono de todo o quarteirão.

Com apoio do Credit Suisse, levantou US$ 450 milhões (R$ 2,4 bilhões) em dívidas e investiu mais US$ 500 milhões (R$ 2,7 bilhões) do próprio bolso. A meta: inaugurar o Circa até 31 de dezembro de 2020 para aproveitar benefícios fiscais de depreciação acelerada.

“Sem isso, as contas não fechariam”, diz.

Sustos e vitórias

Quando a Covid-19 fechou Las Vegas em março de 2020, Stevens apostou que a crise passaria — e manteve as obras em ritmo de 24 horas por dia. O resort abriu nove semanas antes do prazo, em outubro de 2020.

“A aposta deu certo, mas foi angustiante”, diz. “Achei que toda minha carreira poderia ir por água abaixo.”

A recompensa veio rápido. “2021 e 2022 foram dois dos melhores anos da história de Vegas”, afirma.

Hoje, o centro de Las Vegas cresce, enquanto a Strip desacelera. Entre 2023 e 2024, a receita de jogos do centro subiu 2,4%, enquanto a da Strip caiu 1%.

No 60º andar do Circa, o Legacy Club exibe bustos de lendas como Sam Boyd, Benny Binion, Howard Hughes e Steve Wynn. Questionado sobre seu legado, Stevens diz que ainda é cedo.

E garante que o Circa não será seu último projeto. Do outro lado da rua, no Symphony Park, ele e o irmão possuem o último terreno do centro zoneado para jogos.

“Em algum momento”, diz, olhando para a área vazia, “algo vai nascer ali.”

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