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Como o Desejo de Ser Mãe Reescreveu a Carreira da Nova VP de Pessoas da Heineken

Andrea Bianchi fala sobre o caminho até a liderança, a nova era de recursos humanos e o impacto da maternidade na sua trajetória

11 min

Há cinco anos, Andrea Bianchi encarou um dilema. Após construir uma carreira de 13 anos na Whirlpool, foi convidada a assumir a diretoria de pessoas e desenvolvimento organizacional da Heineken no Brasil. O desafio exigia sair da zona de conforto justamente quando ela tinha um plano pessoal inegociável. “Joguei limpo e falei: a proposta é legal, mas tem um ‘problema’: eu quero engravidar”, lembra a executiva, à época com 36 anos. “Do outro lado, ouvi: ‘E por que isso é um problema? A gente contrata seres humanos’.”

A aposta mútua deu certo. Cinco meses após entrar na Heineken, durante a segunda onda da pandemia em 2021, Andrea engravidou de Manuela, hoje com quatro anos. Neste mês, no exato dia em que completou cinco anos de companhia, o telefone tocou com uma nova surpresa: o convite para assumir a cadeira de vice-presidente de pessoas no Brasil. “O que busco agora é manter essa liderança humanizada, valorizando as pessoas além dos seus crachás.”

A promoção veio com bagagem. Quando entrou na cervejaria, Bianchi recebeu de Raquel Zagui, sua antecessora no cargo, a missão de aumentar a presença de mulheres na liderança. Sob sua gestão, o índice saltou de 28% para 46%. “Lembro que, há 15 anos, entrava em reuniões de vice-presidência e via pouquíssimas mulheres. Hoje, já somos mais de 40% na mesa”, diz. “Há um outro olhar para coisas que não se via antes.”

"Me motiva saber que estamos deixando algo maior para a sociedade, como iniciativas de diversidade, inclusão e direitos humanos", diz Andrea
Divulgação“Me motiva saber que estamos deixando algo maior para a sociedade”, diz Andrea

Filha de uma enfermeira e um engenheiro, a paulistana cresceu com referências de lideranças femininas dentro de casa. “Sempre tive o espelho da minha mãe, que atuava fora, e o modelo das minhas avós”, conta. “Uma trabalhou a vida inteira e a outra sempre me avisava: ‘O estudo ninguém te tira. E tenha o seu próprio dinheiro, porque ninguém merece depender dos outros’.”

Ao longo de uma carreira de quase 20 anos, que começou na empresa júnior da faculdade de administração, Andrea já foi expatriada para os Estados Unidos, gerenciou crises durante a Covid-19 e mergulhou no chão de fábrica para entender, na prática, como reduzir a rotatividade de operários. “No começo da minha carreira, queriam que eu apenas entrevistasse candidatos e os encaminhasse para a folha de pagamento. Mas eu queria entender o negócio e o desafio real da área.”

A seguir, a nova VP de pessoas da Heineken detalha os impactos da maternidade, avalia a evolução da área de recursos humanos nas grandes empresas e explica por que a inteligência artificial não vai substituir o “olho no olho” na gestão de talentos.

Confira os destaques da entrevista com Andrea Bianchi, nova VP de pessoas da Heineken Brasil

Forbes: Como foi o processo para chegar a essa posição?

Andrea Bianchi: Não vou dizer que foi totalmente surpresa, porque foi um processo muito bem conduzido pela Raquel [Zagui, ex-VP] e pelo Maurício [Giamellaro, CEO]. Nós já vínhamos conversando há um tempo sobre isso. É engraçado porque o Maurício me ligou exatamente no dia em que completei cinco anos de Heineken. Achei que fosse só para me dar os parabéns, mas foi também o convite para fazer parte do processo seletivo. Quando mudei de função internamente, saindo da área de desenvolvimento organizacional para atuar como Business Partner mais próxima do negócio, já foi pensando um pouco nessa sucessão e em me preparar. Então, eu já sabia, mas não achava que ia ser tão rápido.

O que te levou para o RH?

De uma mãe da área da saúde e um pai de exatas nasceu uma administradora. Como eu sempre fui muito curiosa, achei que a administração fazia sentido pela amplitude. Na faculdade, entrei na empresa júnior para cuidar de responsabilidade social e logo assumi a gestão de uma equipe de 15 voluntários. Foi ali que a aproximação com as pessoas me chamou a atenção. Fui estagiar na Rede, do Itaú, e na Danone, até que, em 2008, fui picada pelo “bichinho” dos programas de trainee. Fui para a Whirlpool, onde começou a minha trajetória profissional.

Você passou mais de uma década na Whirlpool. Como foi esse período e a decisão de ir para o exterior?

Fui para o chão de fábrica em Joinville trabalhar com retenção de operários, depois atuei como BP de marketing e de suprimentos, porque sempre quis morar fora e precisava dessa visão global. Mais tarde, fui promovida a líder dos meus antigos pares e acabei assumindo as demandas globais da área. A empresa estava se globalizando e o RH precisava acompanhar. Fui convidada para ir aos Estados Unidos. Não foi uma decisão fácil, porque meu marido, Alexandre, com quem estou há 20 anos, estava super bem no trabalho dele. Mas ele decidiu deixar a empresa para irmos juntos. Moramos três anos em Michigan.

E como foi o retorno ao Brasil?

Voltei em janeiro de 2020 para redesenhar o modelo local de RH e, em março, estourou a pandemia. Eu cuidava da parte mais dura (remuneração, folha de pagamento, benefícios) para Brasil e México. Nossa área foi drasticamente afetada: tivemos que lidar com o espaçamento seguro de milhares de pessoas nas fábricas, transporte, férias coletivas. No final de 2020, eu estava bastante cansada, mas sentia que já tinha deixado a minha marca na empresa. Foi aí que a Heineken bateu na minha porta.

Também foi nesse período que você decidiu engravidar?

Eu e meu marido adiamos a vontade de ter filhos duas vezes: durante a expatriação, por falta de rede de apoio lá fora, e depois no auge da pandemia. Achava que fosse engravidar na Whirlpool, porque estava lá há 13 anos e já tinha uma reputação. Quando a Heineken me procurou com uma proposta de mais autonomia e visibilidade, joguei limpo com os líderes. A Raquel garantiu que me contrataria até se eu já estivesse grávida. Ter esse lado humano foi o que me fez vir para cá.

Como a maternidade impactou a sua forma de liderar no dia a dia?

Quando você tem filho, precisa ser muito mais produtiva. Se tenho uma reunião às 8h, o time sabe que posso entrar um pouco atrasada porque estou deixando minha filha na escola. Teve um dia em que eu estava conduzindo um comitê com a vice-presidência; eu e a Manuela estávamos com Covid. Ela começou a tossir sem parar no fundo. Pedi desculpas, expliquei a preocupação e a equipe inteira foi acolhedora. Antecipamos a reunião para que eu a levasse ao pediatra. Ter muitas mães e pais na empresa faz a gente se entender. Nem tudo são flores na maternidade, e entender as dores do outro nos conecta e reflete no lado humano da liderança.

Você assumiu a missão de acelerar a diversidade na Heineken. Como foi esse processo?

Quando entrei, a meta de alcançar 50% de mulheres na liderança em cinco anos havia acabado de ser lançada. Implementamos muitas ações intencionais, como vagas afirmativas e programas de desenvolvimento. Também entramos na coalizão MOVER, com o desafio de ter 40% de pessoas pretas e pardas até 2030, número que hoje está em 36%. Ter diversidade interna, incluindo nosso grupo focado em profissionais 50+, torna as reuniões muito mais produtivas, porque nosso consumidor também é diverso.

Como você viu o papel do RH evoluir ao longo desses quase 20 anos?

Não precisamos mais brigar por um assento na mesa do negócio; isso já é intrínseco. No começo da minha carreira, me mandavam apenas entrevistar o candidato e colocar na folha de pagamento. Eu dizia: “Não é assim. Eu quero fazer parte e entender o desafio”. O RH precisa entender profundamente do negócio para conseguir falar sobre estratégia de pessoas. Hoje, a cultura é feita de símbolos e rituais, e você precisa estar lado a lado com as operações para medir a temperatura da organização.

Para o futuro, qual legado você quer deixar na posição?

Sempre fui movida a transformações com propósito. Nesta era de IA e de todo mundo com a cara nas telas, quero deixar uma liderança humanizada. A IA traz muitos ganhos de produtividade e autonomia para o colaborador, mas não podemos perder a conversa de qualidade e a troca de relação. É prestando atenção nas pequenas coisas que você nota quando a performance de alguém cai e consegue resgatar essa pessoa conhecendo a história dela. A tecnologia não substitui o lado humano.

Como as mulheres da sua família te inspiraram nessa jornada?

Minha mãe sempre trabalhou; ela era enfermeira e depois foi para a vida acadêmica. Sempre tive esse espelho dentro de casa, de que fazia sentido atuar fora. Além disso, tive duas avós: uma trabalhou a vida inteira em uma gráfica com o meu avô, e a outra nunca trabalhou fora. Talvez por isso, essa segunda sempre me dizia: “Primeiro, o estudo ninguém te tira. E segundo, tenha o seu próprio dinheiro, por menor que seja, porque ninguém merece depender de ninguém.”

Como é a sua rotina hoje?

O dia começa cedo. Tomo café em família e me divido com o Alexandre para levar a Manu à escola. Meu trabalho é híbrido, então depende da agenda. O expediente termina por volta das 18h, quando vou para a academia ou fico com a minha filha. Brinco com ela, coloco para dormir e depois assisto algo para desconectar. Brinco que, quando saio da Heineken, vou para o meu “terceiro turno” brincar de Barbie. É um jogo diário de “estica e puxa” para encaixar um pilates de manhã ou um esporte à noite, mas dá certo.

Andrea também gosta de praticar exercícios junto com a filha
Acervo pessoalAndrea também gosta de praticar exercícios junto com a filha

Tirando o crachá, quem é a Andrea?

Uma pessoa bastante aberta e fácil de lidar. Tenho melhores amigos que estudaram comigo desde a pré-escola até hoje. Sou pragmática e prática, mas tenho um coração muito acolhedor. Gosto de me divertir. Já fui muito da noite; hoje a chuteira de balada está aposentada, mas continuo amando música, dançar e receber pessoas em casa.

A trajetória de Andrea Bianchi, VP de pessoas da Heineken

Por quais empresas passou

Whirlpool, Danone e Rede, empresa de meios de pagamento do Itaú.

Formação

Graduada em administração pela PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e pós-graduada em gestão estratégica de pessoas pela FIA.

Primeiro emprego

Estagiária de recursos humanos na Rede.

Primeiro cargo de liderança

Gerente de RH na Whirlpool.

Um hábito essencial na rotina

“Ter momentos de trabalho profundo ou de resposta de e-mail, no meio da rotina. Também busco equilibrar minha rotina com atividades físicas e momentos de qualidade com minha família.”

Um livro, podcast ou filme que inspira sua visão de gestão

“Tenho grande interesse por conteúdos relacionados à liderança humanizada, cultura organizacional e desenvolvimento de pessoas. Também gosto de acompanhar discussões sobre o futuro do trabalho, bem-estar e a transformação das relações no ambiente corporativo.”

O que te motiva

“Saber que estamos deixando algo maior para a sociedade, como iniciativas de diversidade, inclusão e direitos humanos. Contribuir para a construção de um ambiente onde as pessoas possam crescer, ser autênticas e sentir que fazem parte de algo maior.”

Um conselho de carreira

“Tenha curiosidade para aprender continuamente, construa relações de confiança ao longo da trajetória e não perca sua autenticidade. Carreira também é sobre conexões humanas e capacidade de adaptação.”

Tempo de carreira

18 anos.

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