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Como as Bets Engoliram o Salário dos Brasileiros e Viraram um Risco para as Empresas

Entre consignado facilitado, apostas online e descontos legais, o profissional chega ao fim do mês devendo o próprio salário

5 min

A Forbes mostrou recentemente que o Brasil bateu, em 2026, seu recorde histórico de endividamento: 83,5 milhões de pessoas negativadas, segundo a Serasa, em um ambiente de juros básicos de 14,25% ao ano.

A mesma reportagem mostrou que o crédito concedido por fintechs saltou 330 vezes em uma década, somando R$ 53,8 bilhões só em 2025, alta de 51% sobre 2024, conforme levantamento da PwC Brasil e da ABCD (Associação Brasileira de Crédito Digital).

Dentro desse crescimento, o consignado privado passou de 40% para 47% da carteira das fintechs de crédito, prova de que emprestar para quem tem holerite virou o negócio mais seguro do mercado.

Esse movimento ganhou um novo capítulo com o Crédito do Trabalhador, consignado que o empregado CLT contrata diretamente pelo aplicativo Carteira de Trabalho Digital, autenticado via conta gov.br.

A modalidade, disponível desde março de 2025 para cerca de 47 milhões de profissionais, promete juros menores e prazos mais longos que o crédito pessoal comum. A margem consignável é limitada a 35% do salário líquido, conforme a Lei 10.820/2003.

O problema é que esses 35% não são os únicos descontos possíveis em um contracheque. Além do consignado, existem os descontos de coparticipação em planos de saúde, de faltas e atrasos e de pensão alimentícia. Em alguns setores, ainda há o cartão de crédito ou descontos que a própria empresa concede para o funcionário comprar seus produtos.

Some-se a isso o crédito pessoal tomado em fintechs e bancos digitais, hoje muito mais acessível do que há dez anos. O resultado é um funcionário que, no fim do mês, vê pouco ou nada a receber. Ele pode até fechar a folha com saldo negativo e ter de recorrer a novos empréstimos para cobrir o próprio salário já consumido.

O impacto das apostas online

Sobre essa base frágil, cresce ainda o fenômeno das bets. Um estudo do Banco Central já apontava, em 2024, que as apostas online haviam ultrapassado os juros bancários como principal motor de endividamento nas famílias de baixa renda.

Em 2025, apostadores chegaram a movimentar entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês, e a arrecadação tributária do setor saltou de R$ 2,2 bilhões para R$ 4,5 bilhões nos quatro primeiros meses de 2026 frente ao mesmo período do ano anterior.

Com a Copa do Mundo de 2026, a expectativa é de que o Brasil movimente cerca de R$ 31 bilhões em apostas, parte de um investimento publicitário global das casas de apostas estimado acima de US$ 20 bilhões (R$ 100 bilhões) durante o torneio.

A engenharia por trás do vício é conhecida da psicologia comportamental: as plataformas usam reforço intermitente, deixando o apostador ganhar nas primeiras rodadas para gerar sensação de controle e liberar dopamina, antes de reduzir drasticamente as chances de vitória. Bônus e créditos extras costumam aparecer justamente depois de uma perda, mantendo o usuário engajado.

Some-se a isso a comparação constante com a vida exibida por outras pessoas nas redes sociais, e o resultado é um ciclo de apostas movido tanto pela dopamina quanto pela tentativa de replicar um padrão de consumo inatingível pelo próprio salário.

Consequências para as empresas

Os efeitos aparecem na produtividade. Uma pesquisa da SalaryFits, empresa do grupo Serasa Experian, mostra que 66% dos profissionais relatam mais estresse por causa de dívidas, 47% sentem exaustão física e 33% notam queda direta na própria produtividade.

Dados da CNDL/SPC Brasil vão na mesma direção: 61% dos inadimplentes relatam queda de produtividade no trabalho, e 80% afirmam ter sofrido algum efeito na saúde física ou mental.

Do lado das empresas, além dos efeitos percebidos em faltas no trabalho, o varejo brasileiro perdeu R$ 42,1 bilhões em 2025 com quebras operacionais e furtos, segundo a pesquisa Abrappe/KPMG. Os furtos internos respondem por cerca de 8% a 10% dessas perdas, e estudos da própria Abrappe sobre prevenção de perdas apontam a pressão financeira e o endividamento entre os principais gatilhos por trás do furto interno.

Diante desse cenário, a questão salarial deixou de ser apenas relacionada à estratégia de competitividade frente ao mercado e de reconhecimento pela performance alcançada, e passou a ter ainda mais ênfase na saúde financeira corporativa e na gestão de riscos.

Empresas que ignoram o quanto seus empregados já comprometeram da renda, entre consignado, descontos previstos em lei e crédito informal, correm o risco de conviver com equipes mais estressadas, menos produtivas e, no limite, mais expostas à tentação do furto.

Frente a um profissional que já vive de contracheque em contracheque, fazendo malabarismo para fechar as contas no final do mês, ignorar os efeitos dessa nova “epidemia” de endividamento apenas adia, com juros, as consequências que as empresas já começam a sentir.

*Fernanda Abilel é professora na FGV e sócia-fundadora da How2Pay, consultoria focada no desenho de estratégias de remuneração.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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