Minha rotina de trabalho já foi um verdadeiro “non-stop”. Durante anos, emendei reuniões e atendimentos sem interrupção para finalizar a jornada por volta das 18 horas com uma constatação incômoda: eu não havia reservado tempo sequer para as necessidades mais básicas.
Há alguns anos, decidi virar esse jogo. Passei a introduzir breves pausas ao longo do dia. Meu estado de espírito mudou, mas o maior ganho foi outro: chegar à noite menos exausto e ainda com ânimo para o lazer — como fazer uma segunda caminhada com meus pets.
Especialistas chamam de micropausas qualquer interrupção breve que ajude a quebrar a monotonia de tarefas mentalmente desgastantes. Elas não têm uma duração fixa, mas precisam ser longas o suficiente para desligar a mente daquilo que estava sendo feito, ainda que momentaneamente.
Meu ritual no consultório é bem simples: levanto-me da cadeira, caminho alguns passos para esticar as pernas e preparo um cafezinho na máquina. Essa pausa curta já é o suficiente para alongar o corpo e o pescoço —sempre bastante penalizado —, respirar profundamente e retomar o trabalho mais focado e relaxado.
Embora pequenas, essas interrupções têm grande impacto no nosso estado geral e no manejo do estresse. Funcionam como um botão de “reiniciar”, devolvendo a capacidade de concentração. Mais do que descanso, a micropausa é uma ferramenta contra a fadiga mental.
Os benefícios não são apenas cognitivos, mas também físicos. Estudos demonstram que longas jornadas de trabalho sentado estão associadas a maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes e problemas ósseos e musculares. Movimentar-se ao longo do dia de trabalho é trabalhar a favor da prevenção.
Mudar hábitos, no entanto, exige autovigilância. Quem nunca prometeu a si mesmo que faria intervalos frequentes e chegou ao final do dia sem praticamente ter saído da cadeira?
Se você não tem tanta disciplina, use a tecnologia a seu favor (como eu): aplicativos ou relógios inteligentes podem ajudar lembrando a hora de parar. Outra estratégia simples é manter uma garrafa grande de água sempre por perto. Naturalmente, o corpo avisará quando for o momento de se afastar da tela por alguns instantes.
Terminar o dia mais relaxado e com mais energia não exige grandes feitos nem mudanças radicais. Bastam algumas pausas ao longo do expediente — uma pequena gentileza que você pode fazer à sua mente.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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