1. Início
  2. /
  3. Colunas
  4. /
  5. Como o Estresse Fala com Você?
Colunas

Como o Estresse Fala com Você?

O estresse raramente se apresenta como esperamos: ele pode surgir em forma de dor, irritação, insônia ou hábitos que mascaram um sofrimento silencioso

3 min

Praticamente dez em cada dez pessoas com que convivo diariamente estão estressadas. Muitas delas, porém, não chegam para mim com essa queixa. O que eu ouço delas geralmente é que estão com dor, irritadas ou sem conseguir dormir. Por conta disso, não associam esses sintomas ao estresse.

O estresse fala conosco o tempo todo, mas raramente usa a linguagem que esperamos. Ao contrário, ele fala muitas línguas: pelo corpo, quando não encontra palavras. Pelos pensamentos, quando não encontra descanso. E pelos hábitos, quando não encontra saída.

Passamos a vida tentando identificar o estresse na única língua que conhecemos e que nos foi ensinada: a da tensão. Mas ele costuma se expressar em muitos idiomas diferentes. Talvez por isso seja tão difícil reconhecer o próprio sofrimento.

Muitas pessoas explodem e acham que têm dificuldade de guardar a raiva. Outras vivem distraídas ou cansadas porque trabalham sem parar. Nem sempre o problema é descontrole emocional ou burnout. Pode ser o estresse falando e falando alto.

O estresse por vezes não aparece como sensação, mas como comportamento. Exemplos clássicos são passar horas nas redes sociais sem perceber ou ficar verificando mensagens no celular o tempo todo, procrastinar ou, ainda, comprar sem necessidade.

O que dificulta reconhecer o estresse é que raramente os sinais vêm acompanhados de tradução. O aperto da mandíbula no meio da madrugada pode ser confundido com um problema articular. O redemoinho de pensamentos que recusa a deixar a cabeça descansar pode ser confundido com ansiedade. A irritação constante com pessoas que não fizeram quase nada pode ser considerada problema de temperamento e a incapacidade de dizer não pode ser taxada de generosidade.

Cada sintoma parece ter uma explicação mais fácil porque olhar para o que se esconde debaixo dele exige mais trabalho.

Reconhecer essas linguagens do estresse não vai diminuir as dificuldades da vida, resolver conflitos e muito menos fazer os boletos pararem de chegar. Mas pode fazer você chegar ao problema antes que o problema chegue a você.

O estresse quase sempre dá um sinal de alerta, que nem sempre se parece com um aviso. Na minha experiência de mais de 40 anos de clínica, quem adoece de estresse quase nunca foi pego de surpresa. Os sinais estavam lá. Só não sabiam decifrá-los.

*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.