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A Ciência, o Cérebro e a Arte de Errar

Reconhecer os próprios erros não é fraqueza: é o que nos ajuda a aprender e evoluir

3 min

Outro dia, na minha clínica, houve um daqueles ruídos de comunicação. Algo que havia pedido saiu diferente do combinado. Aqui entre nós, quem tinha se comunicado mal era eu. Diante da equipe, falei o que costumo falar nessas horas: “Eu errei. Ponto”. Quem trabalha comigo costuma estranhar, acha que estou dizendo algo da boca para fora e que vou cobrar depois. Não é assim. Quando assumo a falha, estou ganhando: paro de carregar o peso de ter sempre razão.

Aos 72 anos, ouço com frequência de profissionais mais jovens: “Como o senhor conseguiu acertar tanto para chegar até aqui”? Não cheguei até aqui por ter acertado muito, mas por ter errado bastante, ter sobrevivido aos meus erros, aprendido com eles e, principalmente, ter reconhecido cada um deles.
Admitir o erro traz um certo desconforto, mas logo atrás dele vem uma liberdade. A humildade intelectual de reconhecer que se errou abre espaço para experimentarmos mais, testarmos mais, criarmos mais.

A ciência, aliás, é construída em cima dessa ideia, da capacidade de dizer “pensávamos uma coisa, mas não era isso, era outra coisa”. A ciência só avançou porque houve pesquisadores e intelectuais que reviram suas posições. O reconhecimento do erro é parte do método científico, não uma falha dele.

Não é só a ciência que funciona assim, mas o nosso cérebro. Estudos vêm mostrando que o cérebro de pessoas que acreditam ser capazes de evoluir presta mais atenção ao erro e acerta mais na tentativa seguinte. Daí que se chega a uma conclusão que é bastante simples: o que nos faz aprender não é evitar o erro, é encará-lo de frente.

Vejo isso na prática todo santo dia. Cada vez que admito que me enganei, aprendo alguma coisa que de outra forma o orgulho jamais me deixaria ver. Reconhecer o erro, portanto, não é um gesto de fraqueza, mas de virtude. E também um caminho pelo qual aprendemos mais.

Daí se pode pensar que o oposto do erro não é o acerto, mas a negação, porque quem admite que errou continua aprendendo — assim o faço dia após dia.

*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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