De vez em quando, eu reparo em como meus netos parecem esquecer do mundo ao redor quando ficam com uma caixa de lápis e uma folha de papel na mão. A gente larga isso cedo demais.
Em qualquer idade, quando pegamos um lápis de colorir e começamos a preencher um desenho ou rabiscar algo próprio, o cérebro entra em outro modo de funcionamento.
Muitas pessoas vivem presas em um ciclo difícil de interromper. Tentam resolver um problema, não conseguem, os pensamentos ficam presos nisso, a angústia aparece, voltam ao problema. Mexem no celular enquanto isso, mas continuam, de fato, presas naquele lugar. O cérebro fica ativado o tempo todo, e o resultado é estresse e ansiedade.
Colorir parece funcionar como um botão que interrompe esse circuito. Não é uma terapia milagrosa, mas a ciência vem mostrando que o movimento repetitivo, a escolha das cores e o foco que a atividade naturalmente convida a ter ativam um estado próximo ao da meditação — e que 20 minutos já são suficientes para reduzir níveis de estresse e ansiedade de forma significativa.
Mas há algo mais que merece atenção: diferentemente de quase tudo o que fazemos na vida adulta, colorir não exige performance nem excelência. Quer dizer, não precisamos ser bons nisso. Duas pessoas que colorem o mesmo desenho vão, cada uma à sua maneira, encontrar as cores que lhe parecem certas para preencher aqueles espaços. E é possível que o alívio venha exatamente daí: da experiência de fazer algo para si mesmo, sem julgamento.
Isso se aproxima de outras estratégias que usamos em saúde mental: a meditação e o relaxamento guiado, por exemplo. Essas são técnicas que compartilham o mesmo princípio de desacelerar o fluxo de pensamentos e ancorar a atenção no presente. Quando estamos concentrados com lápis e papel à frente, é menos provável que fiquemos remoendo o que está nos incomodando.
Não foi por acaso, portanto, que os adultos voltaram a se interessar por colorir e que livros voltados a esse público passaram a ter o seu espaço nas livrarias.
Se você nunca tentou, faço uma sugestão simples: reserve 20 minutos do seu dia, escolha um desenho que lhe agrade – você encontra online muitas opções gratuitas para imprimir -, deixe o celular longe e permita que o cérebro descanse. Sem pressa, sem a necessidade de cumprir uma meta. Apenas você, as cores e a sua criatividade.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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