Você já deixou alguma coisa para resolver nos 45 do segundo tempo? Essa expressão é uma das mais conhecidas da língua portuguesa justamente porque praticamente todos nós, em algum momento da vida, adiamos tarefas e decisões difíceis até o último instante.
O problema é quando isso se transforma em hábito. De fato, há uma ilusão confortável de que deixar para depois reduz o sofrimento, quando, na prática, acontece justamente o contrário disso. O problema não some. Ele continua ali, drenando energia e nos deixando ansiosos.
Procrastinar não elimina o desconforto. Pelo contrário, o projeto complicado e a conversa difícil continuam esperando, a tese de mestrado permanece em branco. E quanto mais o tempo passa, maior costuma ser o peso emocional.
Estudos mostram que a dificuldade de lidar com emoções negativas, o medo de fracassar e de ser imperfeito estão entre os fatores mais ligados à procrastinação. A questão não é exatamente adiar a realização da tarefa, mas postergar o desconforto que ela provoca.
Um dos exemplos mais cotidianos — e difíceis — da vida é a demissão de um funcionário querido ou o término de uma relação amorosa que já não funciona mais. Esperamos o momento certo para dar o primeiro passo, quando talvez ele não exista. Adiar isso não evita que entremos em contato com aquilo que vai doer.
A procrastinação não é um destino inevitável. Assim, fazer alguns ajustes ajudam a reduzir esse ciclo de adiamento e ansiedade.
Disciplina
A ideia de disciplina aqui não é a de uma rigidez extrema, mas da capacidade de fazer o que precisa ser feito mesmo quando o trabalho, a tarefa e a conversa são chatos, desconfortáveis ou cansativos.
Minimetas
Isso é algo que uso muito na minha clínica. Dividir algo que se tem (ou se quer) fazer em pequenas etapas realizáveis ajuda a reduzir a sensação de ameaça e de que se tem a fazer é impossível de ser realizado. Vale o alerta de não transformar as pequenas metas em uma nova forma de adiamento infinito.
Desconecte-se do que rouba o seu foco
Se há uma dificuldade real em “mergulhar” em uma tarefa, vale diminuir ao máximo os estímulos que contribuem para a distração, como o celular.
Às vezes, pedir ajuda é necessário
Em algumas situações, a procrastinação pode esconder algo mais sério do ponto de vista emocional e psíquico. Se ela se tornou crônica ao ponto de atrapalhar a sua vida, seus relacionamentos ou seu trabalho, talvez seja hora de pedir ajuda a um profissional de saúde mental.
Vencer a procrastinação talvez não tenha relação com se tornar mais produtivo o tempo todo, mas com viver de forma mais leve. Porque, muitas vezes, o sofrimento não está na conclusão da tarefa, mas no tempo que passamos fugindo dela.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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