Viajar nunca foi algo natural para mim, talvez porque eu passe os dias tentando dar conta dos muitos papéis que desempenho: o médico, o supervisor da clínica, o gestor de organizações médicas. Sempre tenho algo a resolver, responder, organizar e, nesse contexto, sair da cidade para desacelerar é menos simples do que parece.
Nos últimos anos, estimulado pela minha mulher, tenho viajado mais e aprendido algo curioso: viajar muda a maneira como experimentamos o tempo. Por alguns dias, a experiência da viagem parece nos devolver uma relação menos produtiva com o tempo, algo raro nesse mundo em que vivemos.
Talvez seja por isso que tantas pessoas voltem das férias dizendo se sentir diferentes. Não porque elas mudaram radicalmente, mas porque conseguiram sair do modo automático que costumamos viver, ainda que por um período breve de tempo.
Especialistas têm estudado esse fenômeno. Quando estamos mergulhados na rotina, o cérebro economiza energia repetindo padrões conhecidos: os mesmos horários, o mesmo caminho para o trabalho… Viajar interrompe essa lógica. Somos expostos ao novo: a outra língua, outros hábitos e comidas, ruas e pessoas que não conhecemos. Isso exige mais atenção do cérebro, aumentando nossa percepção do presente.
Isso faz com que o tempo pareça correr em outra velocidade durante uma viagem. Os dias ficam mais longos na memória porque foram vividos com mais presença.
O curioso é que até isso começamos a transformar em desempenho. Nas últimas décadas, a lógica da produtividade invadiu também aquilo que deveria ser um respiro, uma pausa. Férias passaram a ser planejadas como provas de eficiência: roteiros exaustivos, como se nada pudesse ficar de fora, produção incessante de imagens para redes sociais e checklists de experiências. Em vez de pisar no freio, a aceleração só mudou de cenário.
Não por acaso, muita gente tem buscado outras formas de viajar. O chamado slow travel propõe menos destinos acumulados e mais presença, menos obrigação de aproveitar tudo e mais espaço para viver o lugar. Pode ser caminhar sem pressa por uma cidade, mudar os planos no meio do caminho, se hospedar nas casas dos locais (sim, existe essa possibilidade em muitos lugares do planeta) ou passar a tarde sem fazer nada digno de um post na rede social.
Minhas duas últimas viagens tiveram um pouco disso. Não havia sinal de internet, por isso, percebi algo que temos esquecido: quando ninguém está dividido entre telas, as pessoas realmente se conectam. Conversamos longamente, rimos, dividimos histórias, vivemos.
Algumas das experiências mais marcantes de uma viagem raramente aparecem nas fotografias. Viajar faz tão bem justamente porque conseguimos viver o momento enquanto ele acontece.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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