Tenho conhecidos que, toda vez que saem de carro comigo, arrumam alguma encrenca no trânsito. Desesperam-se se o motorista da frente anda devagar, irritam-se se o semáforo demora para ficar no verde. Eu percebo o quanto sofrem. Enquanto eu aceito a situação — afinal, não há nada a fazer —, eles voltam estressadíssimos para casa.
A impaciência é produto do nosso tempo. Pare alguns minutos para pensar: praticamente toda tecnologia que você conhece foi desenhada para eliminar a espera. O Pix, por exemplo, mas também o streaming, a IA, o check-in antecipado online, o delivery que chega em praticamente meia hora. Mas, se a tecnologia de fato nos fez economizar tempo, ela não eliminou a espera da vida; apenas nos deixou menos preparados para encará-la.
Há muitas e boas razões para levar isso a sério. Um estudo de 2012 mostra que pessoas mais pacientes apresentam menos depressão e maior satisfação com a vida. A pesquisadora que realizou essa pesquisa encontrou algo muito interessante: a paciência se cultiva. Ao aplicar um treino de poucas semanas aos voluntários, ela conseguiu aumentar a sensação de bem-estar deles, o que sugere que a paciência pode ser desenvolvida.
Num outro estudo mais recente, publicado este ano, as autoras observaram pessoas em esperas angustiantes, como aguardar o resultado de um exame médico. As mais pacientes se preocupavam menos e abriam espaço para emoções positivas, como calma, mesmo em meio à incerteza.
Essa é a lição. Paciência não é resignação. É apenas parar de brigar com o relógio. E, quando pensamos em investimento em saúde mental, é justamente disso que precisamos. Temos de ter paciência para tratar de uma depressão ou de problemas com o sono, para sair de um burnout, para mudar hábitos de vida. Nada disso acontece tão rapidamente quanto uma operação via Pix. Ao contrário, exige o que a vida moderna nos ensinou a desprezar: paciência para esperar.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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