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Mercado de Bioinsumos no Brasil Já É o Maior do Mundo e Ainda É Minúsculo

Fórum em São Paulo reúne produtores, pesquisadores e empresas para discutir expansão, regulação e adoção de tecnologias biológicas no campo brasileiro

8 min

O mercado brasileiro de bioinsumos chegou à safra 2025/2026 movimentando cerca de de R$ 5,3 bilhões apenas em biodefensivos, com 107 milhões de hectares tratados, mas ocupa apenas algo em torno de 6% dos gastos com defensivos e inoculantes no País. Nesta terça-feira (18), em São Paulo, o Fórum Bioinsumos no Agro colocou essa expansão em uma perspectiva que ultrapassa a substituição de produtos químicos no campo e alcança temas como segurança produtiva, geopolítica, modelos de distribuição, propriedade intelectual e regulação. Os números apresentados pela Kynetec mostram que enquanto a área agrícola brasileira avançou entre 3% e 4% ao ano nas últimas cinco safras, a área tratada com defensivos cresceu 11% e a tratada com biológicos, mais de 30%.

“Hoje temos por volta de 6% do movimentado em cima de produtos de base biológica”, disse Vitor Hugo Leite, coordenador de inteligência de mercado da Kynetec Brasil, empresa global de pesquisa de mercado, dados e inteligência especializada em agricultura e saúde animal. O levantamento considera soja, milho, cana-de-açúcar, algodão, café e hortifrúti e contabiliza produtos efetivamente aplicados nas lavouras, a partir de entrevistas anuais com mais de 14 mil agricultores. A conta ainda não inclui bionutrição.

A soja, responsável por cerca de metade do mercado considerado pela Kynetec, já tem mais da metade da área adotando algum tratamento com bioinsumos. São mais de 58 milhões de hectares. No controle de nematoides, mais de 80% da área tratada utiliza produtos de base biológica. No algodão, o índice de adoção chega a 80% da área, impulsionado, entre outras aplicações, pelo tratamento industrial de sementes com bionematicidas. No milho segunda safra, a mudança ocorreu em poucos ciclos: em 2020, apenas 6% da área recebia manejo biológico. A disseminação da cigarrinha e do complexo de enfezamentos ampliou o uso desses produtos em associação aos químicos.

Os números mostram também a distância entre as tecnologias que já encontraram espaço comercial e os alvos que permanecem atendidos majoritariamente por moléculas químicas. Na soja, por exemplo, os produtos para ferrugem, manchas, percevejos e lagartas ainda deixam uma parcela ampla a ser disputada pelos biológicos. Para Leite, a tendência de anos mais quentes, ciclos mais curtos de pragas e avanço de problemas como mosca-branca, cigarrinha, mancha-alvo e plantas resistentes mantém a necessidade de controle. A perspectiva não é de eliminação dos químicos, mas de ampliação das combinações entre ferramentas.

Essa escala colocou os bioinsumos em outra discussão, que é a capacidade de o País transformar conhecimento em autonomia produtiva. Alberto Pfeiffer, coordenador do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo, relaciona o avanço dos biológicos à mudança ocorrida nas cadeias globais. Para ele, a percepção internacional deixou de ser organizada exclusivamente em torno da eficiência econômica e passou a incorporar segurança nacional, domínio tecnológico e capacidade interna de produção.

“Esse saber é um recurso de poder tecnológico e produtivo”, afirmou Pfeiffer. Sua avaliação parte da posição brasileira na agricultura tropical, construída em décadas de pesquisa, adaptação de cultivares e sistemas produtivos em condições de temperatura, solo e regime de chuvas distintos dos encontrados nos principais polos agrícolas de clima temperado. Para o pesquisador, os bioinsumos entram nessa equação como tecnologia capaz de reduzir vulnerabilidades da produção e abrir novas fontes de matérias-primas, inclusive a partir do cultivo de algas e do aproveitamento da plataforma oceânica brasileira.

DivulgVitor Leite, Alberto Pfeiffer e Roberto Levrero

Nessa estratégia, dependência externa de fertilizantes e moléculas agrícolas é um dos pontos sensíveis. O desenvolvimento de soluções biológicas para nutrição e proteção das lavouras não elimina as importações, mas amplia o conjunto de alternativas produzidas internamente. Pfeiffer acrescenta outro ativo a essa conta: os dados gerados pela agricultura tropical. As informações sobre o desempenho de produtos, ambientes, micro-organismos, culturas e sistemas de produção podem alimentar pesquisa, inteligência artificial e as novas tecnologias. “O dado é o cerne da fronteira tecnológica”, disse.

Essa discussão chega também à formulação de regras, porque o Brasil participa de cadeias agropecuárias submetidas a padrões definidos por União Europeia, Estados Unidos, China e outros mercados compradores. Pfeiffer defende que nos bioinsumos o País atue como formulador de padrões internacionais, em vez de apenas adaptar sua produção a normas criadas no exterior.

A distância entre escala potencial e faturamento atual aparece dentro das próprias empresas que atendem o produtor. Na Copercitrus, por exemplo, cooperativa que reúne 41 mil agricultores, as vendas de bioinsumos cresceram 37,5% no ano passado e vêm avançando acima de 30% ao ano. Mesmo assim, representam apenas 3% dos negócios da cooperativa com insumos.

Segundo Mateus Kfouri Marino, presidente do conselho de administração da organização, a composição da demanda mudou nos últimos dois anos. Se a adoção começou principalmente entre usinas de cana-de-açúcar e grandes produtores, agora ela cresce entre pequenos e médios agricultores.

“Você precisa estar lá no dia a dia do lado dele, ensinando como misturar, como aplicar, como armazenar, mostrando o resultado, o que deu certo e o que não deu certo.”

Marino afirma que um produto biológico não pode ser avaliado isoladamente da rotação de culturas, manejo de solo, fertilização, irrigação, defensivos químicos, agricultura de precisão e demais práticas da propriedade. Na cana-de-açúcar, por exemplo, bionematicidas, biofungicidas e bioinseticidas já fazem parte do plantio em muitas áreas atendidas pela cooperativa. No café, produtos organominerais também passaram por uma etapa anterior de demonstração e ganharam espaço comercial.

O modelo cooperativista ganha peso nesse processo porque a introdução de um insumo exige assistência dentro da propriedade. A Copercitrus mantém cerca de 700 veículos com equipes percorrendo fazendas. Para Marino, armazenagem, mistura, aplicação e avaliação dos resultados demandam acompanhamento, principalmente entre produtores de menor escala. A cooperativa acaba assumindo parte do risco de introdução da tecnologia até que ela alcance volume suficiente para atrair mais agentes privados. “Produtividade, redução de custos se dá com a integração de todas essas tecnologias, do drone, do VANT, do sistema de plantio, da rotação de cultura, da planta de cobertura, do químico, do fertilizante químico, do fertilizante orgânico, do bioinsumo, do manejo”, diz ele.

Um desafio de cadeia

A expansão comercial também encontra uma indústria que ainda trabalha com um conjunto restrito de micro-organismos e formulações. Felipe Itihara, gerente de inovação da Koppert Brasil, afirmou que o setor cresce entre 25% e 30% ao ano há vários ciclos, mas continua utilizando muitos dos mesmos ativos biológicos. Segundo ele, chegar à parcela do mercado de proteção ainda ocupada pelos químicos exigirá novas cepas, formulações e produtos, além de capacidade industrial para produção em escala. “Será que a gente também não está pensando isso com os biológicos? Será que a gente está pensando na praga e não no sistema produtivo?”, disse Itihara.

Na pesquisa, a distância é ainda maior. Rodrigo Mendes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, afirma que o estágio atual dos bioinsumos representa apenas uma parte das possibilidades associadas aos micro-organismos presentes nas plantas e no solo. A próxima etapa científica, segundo Mendes, passa pelo estudo do microbioma associado às plantas, e não apenas de micro-organismos isolados. Isso exigirá avanços em bioprospecção, triagem, formulação, estabilidade, produção industrial e técnicas de aplicação.

“Mas o que revoluciona não é a pesquisa aplicada. O que revoluciona é a pesquisa que a gente chama de básica”, disse Mendes.

O avanço dessa pesquisa coloca propriedade intelectual e produção on-farm entre os temas regulatórios. Itihara defende o direito do produtor de fabricar bioinsumos para uso próprio, mas afirmou que indústria e produção dentro das fazendas precisam operar sob critérios capazes de assegurar qualidade, segurança e respeito aos direitos sobre cepas e materiais de partida. A definição dessas regras passa a determinar quanto da pesquisa feita no País conseguirá chegar ao campo, em que condições a produção on-farm poderá crescer e até onde empresas estarão dispostas a investir em novas cepas, formulações e estruturas industriais.

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