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Rodeio e Così: Novos Endereços em São Paulo, a Mesma Essência

Entre madeira, martinis e pratos que resistem ao tempo, duas formas de renovar sem apagar a memória.

4 min

Há restaurantes aos quais voltamos pela comida. E há aqueles aos quais voltamos também pela sensação de reconhecer o lugar, o maître, a mesa, os rituais. Quando uma casa dessas muda de endereço, a pergunta não é apenas como ficou a decoração. É o que, afinal, viaja junto.

Pensei nisso ao visitar, em um intervalo de poucas semanas, dois velhos conhecidos de São Paulo. O Rodeio mudou poucos metros adiante, na mesma calçada da Rua Haddock Lobo; o Così deixou os Jardins e foi para o Itaim. Os dois trocaram de cenário. Cada um, à sua maneira, precisou decidir o que preservar.

A madeira e a picanha

No Rodeio, a mudança é visível assim que se entra. A churrascaria fundada em 1958, durante décadas instalada no mesmo imóvel dos Jardins, ganhou um novo projeto de Isay Weinfeld. O teto de madeira domina o olhar. O ambiente, antes associado a uma São Paulo de outras décadas, agora tem uma linguagem assumidamente contemporânea. Não é uma reprodução da casa antiga. E talvez seja justamente esse o ponto.

O teste decisivo, para mim, veio quando a picanha fatiada chegou à mesa. Excelente, como sempre. Vieram também o arroz biru-biru, o palmito pupunha com molho de alcaparras e o couvert. A familiaridade estava toda ali, no prato. O Rodeio mudou de roupa, mas manteve aquilo que me faz querer voltar.

Só faltou um rosto conhecido. Chagas, maître que durante anos fez parte da história do restaurante e mais recentemente estava no Iguatemi, se aposentou. Seu irmão Evaldo, presença antiga da unidade dos Jardins, continua recebendo os clientes na casa nova. A lembrança de Chagas me fez pensar que a memória de um restaurante também tem voz, gestos e gente.

DivulgaçãoPicanha Fatiada, batata Soufle, Farofa e Arroz Rodeio

Um martini e um ratinho

No Così, a transformação tem outra escala. Depois de Santa Cecília e dos Jardins, o restaurante de Renato Carioni desembarcou no Itaim, no complexo do The Westin. Gostava muito do charme da casa anterior, mas a nova versão surpreende. O salão está mais sofisticado, e o bar, daqueles que convidam a começar a noite sem pressa, é um capítulo à parte.

Pedi um dry martini. Veio impecável. Perto dali, uma obra com vários Ratatouilles, o ratinho da animação da Disney, quebra a solenidade do ambiente. A referência poderia parecer óbvia demais em um restaurante; ali, curiosamente, funciona. É uma piscadela bem-humorada no meio de um espaço muito elegante.

Tadeu BrunelliRestaurante Cosí, em São Paulo

À mesa, o jantar começou com uma caprese reinventada. Depois veio o prato que ainda me faz lembrar da visita: risoto de pistache com crudo de vieira e caviar. É uma combinação luxuosa, mas o resultado tem algo de comida de conforto. O novo menu preserva referências da trajetória do Così e incorpora outras preparações, entre elas releituras do ovo mollet e do pato. Para fechar, um suflê de chocolate chegou quente, no ponto que eu esperava.

Se o Rodeio apostou em mudar o cenário sem mexer nos seus protagonistas, o Così parece ter usado o novo endereço para ampliar o repertório. São movimentos distintos, mas que respondem à mesma questão: como acompanhar o presente sem perder o que fez alguém se apaixonar por uma casa?

Saí dos dois com a impressão de que tradição não precisa significar imobilidade. Às vezes, basta mudar alguns números na mesma rua. Outras vezes, mudar de bairro. O importante é que, quando a comida chega à mesa, ainda exista algo que nos faça reconhecer o lugar.

*Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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