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Proteína É a Estrela do Mercado Fitness, mas Excesso Não Garante Desempenho nem Saúde

Informações nutricionais ganham cada vez mais destaque nos rótulos e são aposta da indústria para aumentar as vendas

6 min

Os produtos ricos em proteína são vendidos como uma forma de manter uma alimentação saudável e os músculos em dia. Os mais diversos itens nas gôndolas do supermercado destacam em cores chamativas informações nutricionais que prometem ajudar na forma física. 

Segundo o relatório do Global Wellness Institute, o mercado de bem-estar deve movimentar cerca de US$ 10 trilhões em 2029. Para comparação, em 2022, era de US$ 5,48 trilhões. Os alimentos que funcionam como um suplemento fazem parte desse setor, e a oferta está em expansão.

“Esse mercado é muito grande e cresce cada vez mais, e tudo o que está atrelado a ele cresce na mesma esteira puxado pelas mesmas motivações. Não é um fenômeno só do Brasil, é mundial”, afirma Flávio Bizarrias, pesquisador e coordenador do CEAM (Centro de Estudos Aplicados em Marketing), da ESPM.

A crescente demanda impulsionou o surgimento de empresas, o lançamento de produtos e versões enriquecidas de itens convencionais. A engenharia de alimentos consegue aliar o sabor e a tabela nutricional para agradar a esse exigente público.

“É possível incluir proteínas e aumentar o teor proteico de uma ampla variedade de alimentos industrializados, desde que isso seja permitido pela regulamentação específica daquela categoria”, explica Tatiana Tribess, professora de Engenharia de Alimentos do Instituto Mauá de Tecnologia.

O desafio é técnico: a adição de proteínas pode alterar sabor e textura. “Não basta simplesmente aumentar o teor proteico, é necessário manter sua qualidade e aceitação pelo consumidor”, afirma Tatiana.

Novos hábitos

Os grandes potes vendidos em lojas de suplementos deixaram de ser o único caminho para quem quer reforçar a proteína na dieta. As barrinhas foram as primeiras a fazer sucesso e, hoje, itens que não têm relação com uma vida fitness, como cerveja, refrigerante, salgadinho e macarrão instantâneo, são vendidos como saudáveis.

“As pessoas não têm mais um momento para consumir aquele alimento rico em tal proteína, em tal nutriente. É o tempo todo. Estou na fila do supermercado e tenho uma barrinha de proteína à mão. Estou no trabalho e tenho uma bebida proteica do meu lado”, diz Flávio.

O aumento do consumo de proteína está associado a hábitos saudáveis, porém nem sempre é necessário. “A prática de atividade física voltada à manutenção da saúde não implica, por si só, a necessidade de suplementação proteica”, diz Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição.

Segundo Manuela, alimentar-se de forma variada e equilibrada já é suficiente para fornecer os nutrientes de que o corpo necessita para a manutenção da saúde. “Uma alimentação baseada principalmente em alimentos in natura e minimamente processados, conforme orienta o Guia Alimentar para a População Brasileira, pode fornecer a energia, as proteínas e os demais nutrientes necessários”, explica.

Rótulos e vendas

O whey protein costumava fazer parte da rotina só de atletas de alta performance ou daqueles que buscavam um corpo definido e volumoso. Agora o produto é consumido por um público muito mais heterogêneo e, muitas vezes, iniciante nas atividades físicas. 

O crescimento nas vendas pode ser comparado à trajetória dos produtos zero açúcar no mercado nacional. Uma parcela dos consumidores entendeu que é bom ingerir menos açúcar e passou a substituir a versão tradicional com o objetivo de ter hábitos saudáveis.

Esse sucesso, porém, exige atenção ao que está estampado nas embalagens. Segundo a Anvisa, os produtos considerados “fonte de proteína” devem conter no mínimo 5g de proteína por porção de referência. Já aqueles de “alto conteúdo de proteína” devem conter no mínimo 10 g.

O rótulo interfere na decisão do consumidor e, por isso, muitas empresas passaram a destacar algumas informações nutricionais para demonstrar alguma vantagem que vá além do preço e da marca. Nos mais diferentes produtos, a quantidade de proteína em gramas virou destaque na embalagem.

“Está crescendo o público que, no meio do dia de trabalho, pega uma barrinha ou toma uma bebida carregada de algum nutriente. E esse público precisa das informações destacadas no rótulo de maneira mercadológica e não do ponto de vista nutricional”, diz o pesquisador da ESPM ao comentar como a indústria se comunica com o consumidor.

Essa estratégia de marketing está relacionada a uma mudança de comportamento da população, que tem praticado mais exercícios, se preocupado mais com o corpo e prestado mais atenção ao que come.

“O teor de proteína vem ganhando relevância como atributo de escolha para consumidores em mercados como Estados Unidos, Alemanha e Austrália. No Brasil, observamos movimento semelhante, com o crescimento de produtos proteicos em categorias muito diversas, incluindo bebidas, lácteos, snacks e produtos de conveniência”, diz a professora do Instituto Mauá de Tecnologia.

É saudável?

Consumir proteína em excesso não traz benefícios adicionais e pode fazer mal à saúde. O ideal é que um nutricionista avalie as necessidades e os objetivos de cada paciente para definir a alimentação e indicar se vale a pena suplementar.

Para adultos, um parâmetro frequentemente adotado é de aproximadamente 0,8 grama de proteína por quilograma de peso corporal ao dia. Entretanto, esse número representa uma referência e não deve ser interpretado como uma prescrição individual nem aplicado isoladamente.

De maneira geral, não é recomendável aumentar substancialmente a ingestão de proteínas ou utilizar suplementos de forma continuada sem avaliação profissional. “Os possíveis efeitos de uma ingestão elevada variam de acordo com a quantidade consumida, o tempo de exposição e as condições de saúde da pessoa. Indivíduos com doenças renais, hepáticas ou outras condições clínicas exigem atenção especial”, orienta a nutricionista.

Um profissional deve montar a dieta adequada para o objetivo de cada um, acompanhar os resultados e reavaliar a necessidade de manter a suplementação. Essa é uma forma de reduzir riscos, evitar gastos desnecessários e garantir um acompanhamento individualizado.

“Só o aumento do consumo de proteína não está necessariamente ligado a melhores resultados na academia ou na prática esportiva”, diz Manuela.

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