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O Que Explica os Recordes nas Bolsas Americanas e do Ouro

Esses dois tipos de ativos estão subindo ao mesmo tempo, algo que só havia ocorrido uma vez antes, no início da década de 1970 e o desfecho não foi positivo

4 min

Normalmente, o ouro e o mercado de ações não dividem os holofotes. Quando isso acontece, pode significar que sinais tradicionais de medo e confiança estão se sobrepondo ou que algo mais profundo está acontecendo.

Na segunda-feira (22), o ouro e o índice S&P 500 renovaram suas máximas, o feito tem se repetido ao longo do ano. Isso porque o metal acumula alta de 44% nas bolsas dos EUA neste ano, enquanto o índice avançou 14%. Ainda em 2025, as duas classes de ativos atingiram recordes no mesmo dia seis vezes, contra dez vezes no ano anterior.

O fenômeno não é muito comum. De 1970 até 2023, isso só ocorreu em duas ocasiões, ambas em 1972, ano seguinte à decisão do presidente Richard Nixon de encerrar a conversibilidade do dólar em ouro, o que permitiu que o metal passasse a ser negociado livremente. É um padrão claramente fora do ritmo da história e por boas razões.

O ouro é considerado um porto seguro e costuma se sair melhor quando as perspectivas econômicas são incertas. Isso tem sido raro na maior parte dos últimos 50 anos. Jim Stack, fundador e CEO da Stack Financial Management, em Whitefish, Montana, destaca que houve apenas quatro períodos nos últimos 54 anos em que esse metal atingiu uma máxima histórica.

Já as ações geralmente sobem quando as condições parecem favoráveis — ou, na era moderna dos bancos centrais, quando a situação parece ruim o suficiente para que os investidores passem a esperar uma onda de impressão de dinheiro.

Essa relação pode continuar, mas a história sugere que não vai durar para sempre. Em algum momento, um dos ativos vai se descolar do outro. Qual deles vai se sustentar dependerá de o rumo da economia apontar para um crescimento consistente ou para novas dificuldades.

Dólar é a resposta

Uma interpretação para o momento atual é que os agentes estão inseguros e se posicionando ao mesmo tempo para crescimento e risco. Outra hipótese, que pode estar ligada à primeira, é a forte queda do dólar. Algo defendido por Marko Papic, estrategista-chefe da BCA Research.

“A resposta é: o dólar está despencando”, resume ele, ao explicar por que ouro e ações estão brilhando ao mesmo tempo. Papic argumenta que a divisa dos EUA foi sustentada por anos pela expectativa de desempenho econômico superior permanente dos Estados Unidos. Grande parte dessa força, segundo ele, veio da resposta fiscal à pandemia. Trilhões de dólares em gastos acabaram sendo injetados na economia. Mas esse dinheiro agora acabou.

Só neste ano, o Índice Dólar, que mede a moeda americana em relação a seus principais parceiros comerciais, recuou 10%. Se confirmado, será seu pior desempenho desde a queda de 15% em 2003. Um dólar mais fraco favorece o ouro, que é precificado em dólares. O enfraquecimento também beneficia as ações americanas, tornando-as mais baratas para investidores estrangeiros.

Ao mesmo tempo, tarifas e tensões comerciais obrigaram outras regiões a estimular suas próprias economias em vez de depender da demanda dos Estados Unidos. Papic chama o fim da dominância fiscal americana de ponto de virada. “Moedas sobem e descem”, afirma. “O erro maior é acreditar que os ativos americanos sempre terão desempenho superior. Isso é impossível.”

Peter Corey, cofundador e estrategista-chefe de mercado da Pave Finance, em Nova York, vê a mesma dinâmica. Ele destaca que a inflação vem caindo nos EUA desde 2022, o que apoiou os lucros corporativos e impulsionou as ações. Ao mesmo tempo, o dólar mais fraco tornou o ouro mais atraente. “Dois pontos importantes estão ocorrendo simultaneamente”, diz Corey. “Com a inflação sendo contida, isso é positivo para as ações. Enquanto isso, a queda do dólar em valor leva os investidores para o ouro.”

Corey traça um paralelo com o início da década de 1970. A inflação caiu entre 1970 e 1972, o que ajudou as ações a subir. Em 1973, a inflação reacelerou, o Federal Reserve (Fed) dobrou os juros em um ano e o S&P 500 perdeu metade do valor. Ele alerta que, se a alta dos preços voltar a disparar, os mercados de hoje podem enfrentar um desfecho parecido. “Os investidores estarão ainda mais sensíveis ao Fed agora do que há 50 anos”, afirma.

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