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As Palavras do Copom: o Que Mudou no Discurso do BC  e o Que Deve Chamar Atenção no Comunicado

Mais do que a decisão, mercado busca pistas no discurso sobre o rumo dos juros

4 min

Às vésperas da nova decisão sobre juros, que será anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central no início da noite desta quarta-feira 29, o mercado financeiro majoritariamente espera mais um corte de 0,25 ponto percentual que levará a taxa Selic dos atuais 14,75% para 14,50 % ao ano. Com a calibragem da taxa precificada, a atenções estão voltadas para o tom da comunicação e as palavras utilizadas. A escolha dos termos dará a dimensão do que está por vir na próxima reunião, em junho.

O início do ciclo de corte de juros, em março, veio acompanhado de uma mudança na comunicação. Com o avanço do conflito no Oriente Médio e o choque nos preços do petróleo, o comitê deixou de lado indicações mais explícitas.

“A ata de março mostra o Copom abandonando aquele guidance explícito que eles haviam dado em janeiro, e ele passou a usar as palavras tipo incerteza, cautela, serenidade, como âncoras do discurso, condicionando os próximos passos da instituição à evolução do cenário externo e dos possíveis impactos aqui para a inflação aqui no Brasil”, diz a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli.

Em janeiro, o Banco Central havia sinalizado pela primeira vez a possibilidade de iniciar um ciclo de cortes. Em março, confirmou o movimento, com redução de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14,75% ao ano.

Um levantamento das atas mais recentes mostra que, na reunião de março, a primeira com redução da Selic, o Banco Central aumentou a frequência de termos ligados à incerteza e ao risco. Foram 8 menções a “incerteza”, 6 a “riscos” e 2 a “cautela”, somando 16 referências, o maior nível desde o fim de 2025. As atas de dezembro e de janeiro registram 11 menções a esses termos, enquanto a de novembro de 2025 soma 13.

A linguagem aparece nos trechos centrais da ata de março. Logo na abertura, o BC afirma que o ambiente externo “tornou-se mais incerto” e que o cenário “exige cautela”. Ao longo do documento, o diagnóstico se repete: a incerteza aumentou, os riscos se intensificaram e a condução da política monetária deve seguir condicionada à evolução do cenário.

Segundo a economista, essa mudança já foi incorporada pelo mercado, o que fica mais evidente na curva de juros. “Hoje o mercado tem menos certeza sobre quais serão, qual será o próximo movimento do Copom por conta disso, por conta desse cenário mais incerto que o Banco Central deixou claro na última ata de que vai ficar dependente da evolução dos próximos indicadores e do quadro do cenário externo”, diz.

O que o mercado vai olhar no discurso

Para o economista Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos, o Copom deve dar destaque ao cenário externo, citando a situação geopolítica e a pressão gerada pela alta do petróleo. “Eu acho que deve sinalizar também ali sobre aquela gordura adicional que o Galípolo falou”. O especialista se refere à fala do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, de que o conservadorismo adotado ao longo de 2025 deixou o comitê em posição mais confortável para avaliar os efeitos da guerra.

“O que vai ditar a percepção do mercado depois da reunião é o que eles estão concluindo ali de taxa neutra e se a política monetária ainda é contracionista apesar das projeções de inflação”, diz.

Teles também chama atenção para um ponto recorrente na comunicação: “E ele sempre fala muito também sobre juros por um período bastante prolongado. Esse bastante prolongado dele já passa de um ano, e ele ainda considera alto o 14,75 justamente por ele falar de política como contracionista.”

Outras casas seguem na mesma linha. Mais do que a decisão sobre a Selic, o mercado deve concentrar atenção no tom do comunicado do Copom, que tende a vir mais cauteloso diante da piora das expectativas de inflação e da incerteza global.

Para o economista-chefe do Citi Brasil, Leonardo Porto, o cenário externo “recomenda serenidade e cautela na condução da política monetária”. Na avaliação de Marco Antonio Caruso, do Santander, a comunicação deve “evoluir apenas marginalmente”. Já o BTG Pactual espera maior ênfase nos riscos. Para Paula Zogbi, “a sinalização para junho ficará no radar”.

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