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“Quando Governo Pisa no Acelerador e BC no Freio, o Resultado da Economia é Incerto”, Diz Economista-Chefe do JP Morgan

Para Cassiana Fernandez, o Brasil tem fatores estruturais que sustentam uma visão positiva de longo prazo, mas enfrenta desequilíbrios que limitam uma queda mais acelerada da Selic

8 min

Com expectativa de novo corte na Selic, o mercado volta suas atenções nesta quarta-feira (17) para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom). Segundo o boletim Focus divulgado na segunda-feira (15), a maior parte dos analistas espera uma redução de 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica de juros de 14,50% para 14,25% ao ano.

Para a reunião de agosto, as projeções também apontam para mais um corte da mesma magnitude, o que levaria a Selic para 14%. Apesar disso, as expectativas para os juros de longo prazo voltaram a subir nas últimas semanas, refletindo as dúvidas do mercado sobre o cenário fiscal e a capacidade de o país sustentar uma trajetória de queda mais intensa da taxa básica.

“Quando você tem o governo pisando no acelerador com a política fiscal e o Banco Central tentando pisar no freio, surge uma dúvida sobre qual será a velocidade final da economia”, afirma Cassiana Fernandez, economista-chefe para a América Latina do JP Morgan.

Segundo o Focus, a projeção do mercado para a Selic ao fim de 2026 passou para 13,75%, acima dos 13,50% estimados na semana anterior. Para dezembro de 2027, a expectativa também avançou para 12%, ante 11,50% há uma semana.

Na avaliação de Fernandez, o Brasil segue reunindo atributos estruturais que sustentam uma visão positiva de longo prazo, mas enfrenta desequilíbrios que limitam o espaço para uma queda mais acelerada dos juros.

“Tem um lado estrutural e tem um lado cíclico nessa história. No lado estrutural, eu ainda vejo que o Brasil tem muita oportunidade”, diz.

Brasil tem o que o mundo procura

Em meio à corrida global por energia, alimentos, minerais estratégicos e infraestrutura para inteligência artificial, o Brasil aparece como um dos mercados emergentes mais bem posicionados para atrair investimentos.

“O Brasil tem muito do que o mundo procura hoje”, comenta Fernandez. Entre os destaques, ela cita a abundância de recursos naturais, o potencial para exploração de terras raras, a capacidade para receber investimentos em data centers e o fato de o país ser uma das economias mais digitalizadas entre as nações em desenvolvimento.

Segundo a economista-chefe, a digitalização da economia brasileira, aliada à bancarização da população e ao crescimento do setor de fintechs, ainda pode contribuir para que o Brasil capture ganhos de produtividade associados ao avanço da inteligência artificial nos próximos anos.

Outro fator favorável para o país, na comparação com outros mercados emergentes, são as reformas implementadas ao longo dos últimos anos. Entre elas estão a reforma trabalhista de 2017, mudanças voltadas para aumento da transparência fiscal, o teto de gastos, a reforma da Previdência e, mais recentemente, a aprovação da reforma tributária sobre o consumo em 2023.

“O Brasil provavelmente é o único país do mundo que eu consigo me lembrar que você teve mais protestos a favor da implementação da reforma da Previdência, aumento da idade mínima de aposentadoria, do que contra”, ressalta.

Fiscal limita espaço para queda dos juros

Quando a análise se desloca para o curto prazo, porém, o diagnóstico se torna mais cauteloso. A principal preocupação, segundo Fernandez, está na condução da política fiscal e nos impactos que ela produz sobre a política monetária.

A economista lembra que a economia brasileira vinha operando acima do seu potencial, com desemprego próximo das mínimas históricas e inflação ainda pressionada. Diante desse cenário, o Banco Central elevou os juros para níveis considerados bastante restritivos com o objetivo de desacelerar a atividade econômica e reduzir as pressões inflacionárias.

“Os sinais de desaceleração já começavam a aparecer quando o governo decidiu ampliar estímulos fiscais para sustentar o crescimento econômico. Essa combinação reduziu significativamente o espaço de atuação da autoridade monetária”, afirma.

Segundo ela, a desaceleração era necessária para reduzir a inflação e promover estabilidade econômica ao longo do tempo.

O JP Morgan ainda enxerga espaço para novos cortes da Selic no curto prazo. A expectativa do banco é de uma redução adicional de 0,25 ponto percentual na reunião desta quarta-feira, seguida por um comunicado que mantenha as próximas decisões dependentes da evolução dos indicadores econômicos.

No cenário-base da instituição, uma redução dos riscos geopolíticos, acomodação dos preços das commodities e desaceleração dos estímulos fiscais em função das restrições impostas pela legislação eleitoral poderiam abrir espaço para mais dois cortes de juros antes das eleições.

Famílias protegidas, empresas pressionadas

Para Fernandez, o atual ambiente econômico tem produzido uma dinâmica desigual entre famílias e empresas.

De um lado, as famílias seguem amparadas por um mercado de trabalho aquecido, pela ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, pelo aumento do salário mínimo e por programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola 2.

Segundo a economista, esse movimento pode criar uma percepção de que o governo sempre estará disponível para socorrer consumidores endividados, alterando a dinâmica de crédito no país.

Do outro lado, as empresas enfrentam uma realidade mais difícil. Além do aumento da carga tributária para ajudar no ajuste fiscal, companhias lidam com custos maiores de mão de obra, pressão sobre insumos e um custo financeiro elevado decorrente dos juros altos.

“Cada semana você vê mais companhias enfrentando problemas de crédito e reestruturação. As margens estão caindo”, diz.

Na avaliação dela, essa situação não pode se prolongar indefinidamente. “Não é sustentável” que famílias e empresas continuem caminhando em velocidades tão diferentes.

“Em algum momento as corporações precisarão repassar esses custos ao consumidor, gerando mais inflação, ou começarão a desistir e a demitir”, alerta.

Brasil está saindo do radar?

Segundo Fernandez, o interesse dos investidores estrangeiros pelo Brasil diminuiu em relação ao entusiasmo observado no início do ano.

Naquele momento, a combinação entre dólar mais fraco, expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos, valorização das commodities e maior apetite global por risco favorecia os mercados emergentes.

Além disso, o Brasil era visto como um dos principais beneficiários do cenário internacional por ser exportador líquido de petróleo e estar geograficamente distante dos principais conflitos geopolíticos.

Nos últimos meses, porém, a economia americana surpreendeu pela resiliência. “Em vez de desacelerar, a atividade econômica continuou forte, o mercado de trabalho permaneceu aquecido e as pressões inflacionárias persistiram”, afirma.

Com isso, investidores passaram a rever suas expectativas para a política monetária americana. “Agora o investidor vê mais retorno no dólar porque a economia americana continua forte”, comenta.

O movimento reduziu o fluxo destinado aos mercados emergentes e, consequentemente, ao Brasil. Ao mesmo tempo, permanecem as dúvidas sobre a trajetória fiscal brasileira e a capacidade de estabilizar a relação entre dívida e PIB.

Segundo a economista-chefe do JP Morgan, a principal preocupação do mercado continua sendo como o país conseguirá financiar déficits nominais próximos de 8% a 8,5% do PIB nos próximos anos sem agravar ainda mais a dinâmica da dívida pública.

Selic nas urnas

Para Fernandez, o comportamento da Selic após as eleições dependerá da forma como os mercados reagirem ao resultado das urnas.

Na avaliação dela, uma taxa próxima de 13,75% ainda representa uma política monetária bastante restritiva.

Caso o próximo governo adote uma política fiscal menos expansionista ou avance em medidas de consolidação fiscal, o espaço para novos cortes poderá aumentar. “Quem quer que ganhe a eleição terá de fazer mudanças na condução da política fiscal. O cenário eleitoral, aliás, ocupa posição central nas discussões dos investidores”, afirma.

Segundo ela, investidores estrangeiros tendem a enxergar a eleição brasileira de forma menos polarizada do que o mercado doméstico.

Uma eventual continuidade do atual governo é associada à manutenção de uma política fiscal mais flexível. Já uma vitória da oposição costuma ser vista por parte dos investidores locais como um cenário mais favorável à responsabilidade fiscal.

Ainda assim, Fernandez considera prematuro precificar o resultado eleitoral. “Desde a eleição de Fernando Henrique Cardoso, não tivemos uma eleição em que os quatro meses anteriores não tenham trazido algum evento relevante capaz de alterar a percepção dos eleitores”, afirma.

Historicamente, segundo ela, a bolsa brasileira costuma apresentar desempenho inferior ao de outros mercados nos seis meses que antecedem as eleições, mas tende a se recuperar após o pleito, independentemente de quem vença.

Caso o resultado eleitoral venha acompanhado de sinais concretos de responsabilidade fiscal, a economista acredita que os primeiros ativos a reagir positivamente serão os juros de longo prazo.

“A primeira reação vai vir na curva longa, refletindo a percepção do prêmio de risco que você tem para carregar essa dívida. O mercado vai ver a curva inclinar para baixo”, projeta.

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