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Dos Calçados ao Açúcar: Os Setores Brasileiros Mais Ameaçados Pela Tarifa dos EUA

Nova sobretaxa ameaça até R$ 76 bilhões da economia brasileira e pressiona exportações de madeira, açúcar, calçados, tabaco, papel e celulose

8 min

Mesmo com uma extensa lista de exceções ao tarifaço, a decisão dos Estados Unidos de sobretaxar produtos brasileiros afeta diretamente o Brasil e pode colocar em risco pelo menos 0,5 a 0,6 ponto percentual do PIB em 2026, no cenário mais duro (25% + 12,5% combinados), o equivalente a uma perda estimada da ordem de R$ 76 bilhões, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria, a CNI.

O governo estima que a taxa atinja 18% das vendas do Brasil aos Estados Unidos. Entre os setores mais atingidos pela nova tarifa dos Estados Unidos estão madeira processada, açúcar orgânico, etanol, têxteis, calçados, tabaco, papel e celulose, produtos manufaturados, máquinas agrícolas.

O impacto tende a ser maior sobre produtos com forte dependência do mercado norte-americano, como pallets, pisos, compensados e madeira serrada, além do açúcar orgânico brasileiro, que responde por parcela relevante das importações dos EUA.

Calçados e tabaco também devem perder competitividade, enquanto fabricantes de papel e celulose alertam para uma queda ainda maior nas vendas ao país

Em entrevista coletiva convocada pelo governo na tarde desta quinta-feira, 16, para responder às tarifas anunciadas de madrugada pelos EUA, o vice-presidente Geraldo Alckmin disse que a medida do governo Trump é injusta e descabida, acrescentando que os argumentos apontados partem de uma base “totalmente falsa”. O governo prometeu um programa para apoiar os setores mais afetados.

Para a Amcham (Câmara Americana de Comércio), o tarifaço anunciado é negativo para a relação bilateral e coloca o Brasil entre os países com condições mais restritivas no mundo para acessar o mercado norte-americano, afetando duramente mais de US$ 11 bilhões em exportações industriais e do agronegócio.

O governo do Brasil classificou a sobretaxa como compensatória. “Não se pode esquecer também que a investigação sob a Seção 301 serviu para compensar, do ponto de vista legal, a derrota do governo dos Estados Unidos na Suprema Corte sobrea política unilateral de aplicação de tarifas a todos os países”, diz nota divulgada na manhã desta quinta-feira pelo Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior.

Fernanda Salzedas, sócia de Global Trade da Ernest Young, afirmou que o Brasil deve iniciar uma estratégia de negociação diplomática para ampliar a lista de produtos excluídos da medida. “No médio e longo prazo, o fortalecimento e negociação de acordos comerciais com outras jurisdições tendem a reduzir a dependência do mercado americano e aumentar a resiliência dos setores mais expostos à tarifa”, explicou. 

Setores afetados se manifestam contra o tarifaço  

Ao longo do dia, diversas entidades representantes dos setores mais afetados pelo tarifaço demonstraram preocupação com os impactos das tarifas na competitividade dos produtos brasileiros nos Estados Unidos:

Setor madeireiro

O setor de madeiras já havia sido taxado no ano passado, quando o presidente Donald Trump apresentou uma grande lista de tarifas como punição para vários países por razões protecionistas. Nesse novo capítulo, o ramo madeireiro tinha expectativas de ficar de fora da nova lista.

De acordo com a Abimci, Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente, o setor exporta em média 50% do que produz para os norte-americanos, um montante de US$ 1,2 bilhão. Os EUA consomem pallets, pisos, compensados, madeiras serradas e outros itens que passam por industrialização no Brasil.

Em comunicado, a Abimci alertou sobre os graves efeitos das tarifas propostas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). “Os impactos potenciais dessas medidas são significativos. Além das consequências das novas tarifas, preocupa o fato de que concorrentes internacionais poderão operar com tarifas menores, ampliando ainda mais a perda de competitividade da indústria brasileira.”

Açúcar orgânico e Etanol

O setor, durante as audiências em Washington, defendeu a não inclusão do açúcar orgânico e não esperava as tarifas.

O país produz cerca de 280 mil toneladas. Em 2024, exportou 140 mil toneladas para os EUA já que americanos importam todo o açúcar orgânico que consomem, e no mesmo ano o Brasil representou 46% do volume importado, seguido da Colômbia, com 85 mil toneladas aos EUA, da Argentina (51 mil toneladas) e Paraguai (28 mil toneladas).

A UNICA, União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia, citou o desequilíbrio da decisão em comunicado. “A análise apresentada pelo USTR também desconsidera importantes assimetrias no comércio bilateral, entre elas as restrições impostas pelos Estados Unidos às importações de açúcar brasileiro.”

A instituição também responde pelo Etanol e em comunicado reforçou que a tarifa pré existente de 18% é validada pela Organização Mundial do Comércio (a OMC). “A tarifa brasileira de importação de etanol, atualmente fixada em 18%, é plenamente compatível com as regras da OMC. A alíquota é aplicada de forma não discriminatória a todos os países que não possuem acordo preferencial com o Mercosul e permanece significativamente abaixo do limite consolidado pelo Brasil na OMC, de 35%.”

Indústria Têxtil e de Confecção e Calçados

A Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), reforçou que a situação aumenta a insegurança no comércio internacional e reduz a competitividade das empresas, colocando em risco investimentos, produção, emprego e integração das cadeias produtivas.

A Associação ainda lembrou da relação de parceria entre os países Brasil e Estados Unidos e acrescentou que divergências comerciais devem ser tratadas por meio da negociação. A instituição não divulgou valores em exportações que possam ser comprometidos.

O presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), Haroldo Ferreira, explicou que a decisão representa retrocesso para a relação entre os dois países. “Trata-se de uma medida que penaliza não apenas os exportadores brasileiros, mas também importadores, marcas, varejistas e consumidores norte-americanos, dada a interdependência produtiva e comercial entre os dois países”, explicou.

De acordo com dados da associação, os Estados Unidos consomem mais de 2 bilhões de pares de calçados por ano e produzem cerca de 20 milhões de pares, volume equivalente a aproximadamente 1% de seu consumo interno.

Para as exportações totais de calçados, a associação prevê um recuo médio de 7,1% até o fim de 2026, indicando um agravamento de 3,5 pontos percentuais na comparação com a estimativa anterior que foi feita levando em consideração a tarifa de 2025.

Tabaco

A competitividade do tabaco brasileiro no mercado norte-americano, que representa um destino de grande relevância para as exportações do setor, corre riscos diretos, de acordo com o SindiTabaco. A entidade manifestou preocupação com as barreiras tarifárias, ressaltando que tais medidas prejudicam contratos comerciais, o planejamento industrial e o rendimento de milhares de produtores.

Os EUA importam 9% do tabaco do Brasil e em 2025 os americanos compraram US$ 195,3 milhões durante o ano todo. Já no primeiro semestre de 2026, o Brasil exportou US$ 88,8 milhões para os EUA, o que representa uma redução de 31% em comparação com o período anterior.

A associação não publicou ainda dados de projeção a partir da confirmação da sobretaxa.

Papele Celulose

De acordo com a Indústria Brasileira de Árvores, a IBÁ, responsável pelo setor de árvores cultivadas para fins industriais e de restauração, as vendas externas de papel recuaram 48,5% em toneladas esse ano, em comparação com 2025.

A Ibá informa que seguirá acompanhando os próximos capítulos e atuando em diálogo permanente com o governo brasileiro.

Produtos químicos

Embora as isenções alcancem até 71% do valor exportado pelo setor, 58% dos produtos químicos brasileiros continuam sujeitos à sobretaxa. Os grupos mais afetados são Tintas, Vernizes e Lacas; Fibras Têxteis Sintéticas; e Sabões, Detergentes e Produtos de Perfumaria, praticamente sem produtos contemplados pelas isenções.

Em seguida aparecem os segmentos de Químicos Orgânicos e Resinas e Elastômeros, igualmente impactados. Já os segmentos de Químicos Inorgânicos e Defensivos Agrícolas tendem a sofrer impactos mais limitados, em razão da elevada participação de produtos incluídos na lista de isenções

A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) estima um custo adicional de US$ 66 milhões até o fim de 2026 e defende medidas temporárias de apoio aos exportadores, a continuidade das negociações com os Estados Unidos para ampliar as isenções e o reforço das ações contra importações realizadas em condições desleais.

“A imposição dessas tarifas não encontra fundamento na realidade econômica do comércio bilateral e tende a gerar custos e ineficiências para cadeias produtivas integradas nos dois países. A Abiquim continuará defendendo soluções negociadas que preservem a competitividade, os investimentos e a previsibilidade das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos”, diz André Passos Cordeiro, presidente executivo da Abiquim.

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