O Ibovespa encerrou esta quarta-feira (12) aos 167 mil pontos. A queda de 0,23% marcou o sétimo fechamento seguido com sinal negativo. Na terça-feira, o principal índice acionário brasileiro caiu 2,5%, no menor fechamento desde 20 de janeiro. Nas sete sessões negativas, acumulou perda de 5,9%, ficando ainda mais distante dos recordes de abril, quando superou 199 mil pontos no intradia.
A diferença entre os dois momentos ajuda a contar a história da Bolsa neste ano: o capital estrangeiro que impulsionou o índice no primeiro trimestre perdeu força, as expectativas para os juros mudaram e novos riscos entraram na conta dos investidores.
Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, o ano pode ser dividido claramente em dois blocos. No primeiro trimestre, uma combinação favorável de fatores externos e domésticos levou a uma entrada de R$ 53,8 bilhões de investidores estrangeiros na Bolsa brasileira.
Naquele momento, o mercado esperava a continuidade da queda dos juros nos Estados Unidos, enquanto, no Brasil, dados de inflação mais controlados sustentavam as apostas em cortes da Selic. Os resultados das empresas também ajudavam. Essa combinação, diz Nossig, consolidou um ambiente local altamente atrativo para o investidor estrangeiro.
Bruna Senne, analista de renda variável da Rico, uma das marcas da XP, também vê o fluxo estrangeiro como sustentação na primeira fase do ano. “Esse movimento de alta lá do começo do ano teve um grande principal condutor, que foi o fluxo de capital estrangeiro. Subimos à medida que o gringo trouxe dinheiro para cá”, afirma.
Além da expectativa de corte de juros, havia os preços baixos. “Muitas empresas de qualidade e com bons fundamentos estavam sendo negociadas a preços atrativos. Pesou o famoso valuation barato, a Bolsa barata, no momento de expectativa de início de ciclo de corte de juros”, diz Senne.
O que mudou no segundo trimestre
A história muda no segundo trimestre. Nossig, da Nomad, aponta a guerra entre Estados Unidos e Irã e a deterioração do cenário para os juros, dentro e fora do Brasil, como dois marcos dessa virada.
“O conflito geopolítico desencadeou uma forte aversão ao risco global, enquanto pressões inflacionárias afastaram perspectivas de alívio de política monetária”, afirma. Ao mesmo tempo, ocorreu uma mudança importante no destino do dinheiro internacional.
A estrategista de ações da Nomad destaca que as projeções de lucro por ação das empresas americanas passaram por revisões expressivas para cima, movimento que não ocorreu na mesma intensidade com as companhias brasileiras. Além disso, parte dos recursos destinados aos emergentes migrou para mercados mais expostos à inteligência artificial.
Segundo ela, esse descompasso, combinado à “migração do capital de mercados emergentes para a Coreia do Sul e Taiwan, em busca de exposição ao setor de Inteligência Artificial”, levou a uma saída de R$ 17,4 bilhões de capital estrangeiro da Bolsa brasileira no segundo trimestre.
Senne identifica o mesmo movimento. “O estrangeiro passou a, em alguns momentos, retirar dinheiro aqui do Brasil ao mesmo tempo em que nós vimos até as próprias bolsas de países emergentes que têm um peso maior nesse tema de inteligência artificial se destacando”, afirma. “A gente viu uma nova rotação de fluxo estrangeiro, dessa vez saindo do Brasil para o tema de AI.”
Na Coreia do Sul, o Kospi chegou ao recorde de 9.114,55 pontos em junho, depois de acumular uma alta de 75% apenas até o início de maio. Em Taiwan, o Taiex também renovou máximas e superou os 48 mil pontos. O peso dos dois países foi tamanho que, em junho, o índice MSCI Ásia-Pacífico excluindo Japão acumulava alta de 27% no ano; sem Coreia e Taiwan, teria queda de 4%. A valorização foi puxada principalmente por fabricantes de chips ligados à IA, como TSMC, Samsung Electronics e SK Hynix.
Por que o estrangeiro começou a sair
Nossig, da Nomad, explica que o mês de agosto adicionou novos elementos à mudança de fluxo. No exterior, as tensões geopolíticas e a manutenção dos juros elevados nas economias desenvolvidas favoreceram ativos considerados mais seguros, como os títulos do Tesouro americano.
No Brasil, entraram na conta a temporada de balanços, a política monetária e a percepção de risco local. “A frustração com o desempenho e com os comunicados corporativos das grandes empresas do índice, conhecidas como ‘blue chips’, pesou diretamente na decisão do investidor externo”, afirma a estrategista da Nomad.
Ela cita ainda declarações e resultados que apontaram para uma distribuição menor de proventos extraordinários em companhias relevantes para o índice, como a Petrobras.
Outro ponto foi o Banco Central. Segundo Nossig, o tom mais duro e cauteloso do Copom, junto a leituras de inflação ligeiramente acima do esperado, passou a indicar que a flexibilização monetária poderia ocorrer de maneira mais lenta.
“Embora juros elevados favoreçam a renda fixa, eles elevam o custo de capital das empresas listadas e desestimulam os aportes em renda variável”, afirma.
Senne também considera a mudança nas expectativas para a Selic um dos elementos centrais da perda de fôlego. “As expectativas de corte de juros aqui no Brasil diminuíram”, diz. Segundo ela, o cenário mais benigno observado no início do ano “acabou se deteriorando ao longo de 2026”.
Eleição começa a entrar no preço
A eleição presidencial é fator que tende a ganhar importância daqui para a frente no humor dos investidores. “Começamos a incorporar um pouco mais o chamado trade eleitoral”, afirma Senne.
A analista ressalta que não se trata apenas de uma preferência do mercado por determinado candidato. A preocupação está na condução das contas públicas a partir de 2027.
“Não é eleição pela eleição do candidato preferido A ou B. Mas o que o investidor olha nesse momento é mais nessa preocupação com relação à condução da política fiscal a partir do ano que vem”, diz.
Nossig também espera uma influência crescente das eleições sobre as cotações. “A eleição presidencial é, por definição, um evento de forte incerteza que injeta volatilidade no mercado de ações, e esse efeito sobre o Ibovespa tende a se intensificar à medida que a data do pleito se aproxima”, afirma.
Para a estrategista da Nomad, o investidor estrangeiro tende a ficar mais defensivo diante do aumento da incerteza. Ela ressalta, porém, que esse movimento não representa necessariamente uma aposta em um candidato ou cenário específico, mas uma estratégia de proteção de portfólio diante de oscilações mais fortes.
Selic, fiscal ou cenário externo?
Nos próximos meses, dificilmente haverá apenas um fator responsável pela direção da Bolsa. Nossig, estrategista da Nomad, coloca Selic, fiscal, eleições, atividade econômica e cenário externo praticamente no mesmo bloco de importância. Os lucros corporativos ficam momentaneamente um pouco mais distantes do centro das atenções depois do fim da atual temporada de resultados.
“O cenário externo, guiado pelos juros nos Estados Unidos e pelas tensões geopolíticas, continuará sendo o fiel da balança para a atração ou fuga do decisivo fluxo de capital estrangeiro”, afirma.
Ao mesmo tempo, Selic e atividade econômica determinam o custo de crédito e o apetite ao risco no mercado doméstico, enquanto fiscal e eleições passam a ser tratados de maneira cada vez mais interligada.
Senne também evita escolher apenas uma variável, mas começa a análise pelo fluxo externo. “Se fosse colocar numa balança, o que viria primeiro seria qual é o motivo pelo qual o estrangeiro trouxe dinheiro para cá e qual motivo ele poderia tirar dinheiro daqui. Porque foi o fluxo estrangeiro que sustentou essa alta do Ibovespa no começo do ano”, afirma.
Estar barata não garante alta
A correção trouxe novamente os preços das ações brasileiras para níveis considerados atrativos. “A gente voltou para níveis de preço e valuation favoráveis”, afirma Senne.
Nossig explica que a avaliação de que a Bolsa está barata parte principalmente dos múltiplos das empresas do Ibovespa, hoje inferiores à própria média histórica e aos níveis observados em outros mercados.
Mas desconto, por si só, não é suficiente. “O simples fato de um mercado estar barato não garante uma alta automática nas cotações, pois esse desconto precisa de gatilhos macroeconômicos claros para se transformar em valorização efetiva”, afirma Nossig.
O primeiro deles é a trajetória dos juros. Uma queda sustentável da Selic reduz a competição com a renda fixa, diminui o custo de capital das empresas e aumenta o valor presente dos lucros esperados.
O segundo é a confiança no cenário doméstico. Segundo a estrategista da Nomad, o desconto atual dos papéis brasileiros embute um elevado prêmio de risco, relacionado principalmente às incertezas fiscais e econômicas. Para que esse desconto diminua, seria necessária uma melhora na percepção sobre as contas públicas, combinada a um ambiente internacional mais favorável.
O que pode levar o Ibovespa novamente às máximas
Nossig resume em três as condições para que a Bolsa entre em um novo ciclo consistente de recordes: inflação convergindo e juros em queda, recuperação da credibilidade fiscal e retorno do apetite global por mercados emergentes. “O catalisador doméstico mais poderoso é o alívio na curva de juros de longo prazo”, afirma.
Segundo a estrategista, uma melhora da percepção fiscal teria um efeito duplo: abriria espaço para juros menores sem pressionar novamente a inflação e reduziria o custo de capital das empresas. No exterior, o movimento dependeria de um ambiente mais favorável à tomada de risco.
Ela aponta aponta um ciclo prolongado de cortes de juros nos Estados Unidos como um gatilho capaz de incentivar a migração de recursos para emergentes. Commodities mais estáveis e uma diminuição das tensões geopolíticas completariam esse cenário.
Na direção contrária, o risco mais importante está nas contas públicas. “O principal risco de queda para a Bolsa brasileira reside na deterioração das contas públicas e no consequente descontrole das expectativas de inflação”, afirma.
Uma piora fiscal poderia pressionar as taxas futuras de juros, enfraquecer o real e obrigar o Banco Central a manter a Selic elevada por mais tempo.
XP mantém cenário-base de 200 mil pontos
Apesar da correção, o time de research da XP mantém em 200 mil pontos o valor justo do Ibovespa no cenário-base para o fim de 2026.
A projeção combina quatro metodologias: fluxo de caixa descontado, múltiplo preço sobre lucro, EV/Ebitda e uma abordagem bottom-up com base nos preços-alvo dos analistas para as ações do índice.
Pela média dos modelos, o cenário-base chega a 200.525 pontos, cerca de 20% acima do fechamento desta quarta-feira.
No cenário pessimista, com juro real de 8,5%, múltiplos menores e redução de 20% nos preços-alvo, o Ibovespa ficaria em 159.396 pontos.
Já no cenário otimista, com juro real de 5,5%, expansão dos múltiplos e preços-alvo 20% maiores, a estimativa sobe para 260.149 pontos.
A distância entre esses números ocorre justamente pelas variáveis destacadas pelas duas especialistas: juros, fiscal e fluxo estrangeiro podem levar o índice a trajetórias muito diferentes até dezembro.
No curto prazo, Senne coloca uma faixa específica no radar. Para ela, a região entre 165 mil e 168 mil pontos funciona como um “divisor de águas”.
“À medida que o índice conseguisse segurar essa faixa até os 165 [mil] pontos, a gente pode ter uma correção um pouco mais limitada no curto prazo e até ter uma região de suporte importante. Se ele perder essa região, a gente pode começar a ter ali uma continuidade dessa correção”, afirma.