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O Que o Próximo Governador de Santa Catarina Terá de Resolver para Sustentar a 6ª Maior Economia do País

Enquanto o agro e a indústria batem recordes de exportação, a disparidade regional e o alto do custo de vida atrapalham a expansão catarinense

9 min

Santa Catarina ostenta indicadores socioeconômicos que contrapõem com padrões de países desenvolvidos: uma matriz produtiva diversificada, agronegócio exportador e um setor de serviços turbinado pelo turismo. Com um Produto Interno Bruto (PIB) que ultrapassou em 2023 a marca de R$ 500 bilhões, a sexta maior economia do país é ancorada pela maior taxa de participação industrial e por recordes no comércio exterior.

Santa Catarina registrou a menor taxa de desemprego do país no segundo trimestre de 2026, de 2,1%, segundo a Pnad Contínua do IBGE. A média nacional foi de 5,4%. Apesar do mercado de trabalho aquecido e do dinamismo empresarial, o próximo governador terá de enfrentar desafios para sustentar o crescimento no longo prazo.

Para Roberto Uebel, economista, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM) e professor de RI da ESPM, o estado vive um momento produtivo excelente, mas a manutenção desse ritmo esbarra em pelo menos três obstáculos. “O primeiro é a necessidade contínua de investimento e manutenção da infraestrutura, especialmente a conexão rodoviária do interior com os portos. O segundo é a desigualdade regional ainda muito marcada entre a força do Litoral/Vale e as carências do Oeste/Sul. E o terceiro é a questão da mão de obra, em que a atração demográfica esbarra no alto custo de vida urbano e na escassez de trabalhadores para sustentar a produtividade industrial e do agro”.

Diferente de seu vizinho Rio Grande do Sul, que lida com a evasão populacional, Santa Catarina continua registrando saldo positivo na atração de moradores de outras regiões do país e do exterior. Essa atração, contudo, esbarra no limite da infraestrutura e do mercado imobiliário das cidades.

O Mapa do Trabalho Industrial da CNI estima que Santa Catarina precisará qualificar 953,4 mil trabalhadores entre 2025 e 2027. Desse total, 151,1 mil precisarão de uma nova formação, para atender à criação de empregos e à reposição de profissionais. Outros 802,3 mil necessitarão atualizar suas competências. “A escassez de mão de obra é um desafio compartilhado no Sul, mas ela é sintomática não apenas de um ambiente de pleno emprego, e sim da relação entre remuneração e custo de vida”, analisa Uebel.

Esse diagnóstico também é de Beny Fard, analista geopolítico, macroeconômico e sócio da Segundo Minuto, que enxerga um descolamento entre a valorização do metro quadrado e a renda média real do trabalhador local. “Em Florianópolis estima-se hoje algo em torno de R$ 8,2 mil de renda mensal para uma pessoa viver com razoabilidade e cerca de R$ 16,6 mil para uma família de quatro pessoas, com o metro quadrado passando de R$ 13 mil. Enquanto que em Balneário Camboriú o custo mensal orbita na ordem de R$ 7,4 mil e em Joinville ficamos na casa dos R$ 5 mil”, diz Fard.

Para o analista, o litoral virou vitrine de um capital imobiliário externo positivo, mas a falta de planejamento urbano penaliza a economia real. “O problema é quando a valorização do ativo anda muito mais rápido que a produtividade da economia local. Aí o professor, o enfermeiro, o garçom e o operário da metalmecânica vão sendo empurrados para os municípios do entorno, e a cidade passa a importar diariamente a mão de obra que não consegue mais hospedar. Trata-se de um erro clássico de gestão pública, que trava a oferta de moradia com burocracia e zoneamento anacrônico enquanto a demanda explode”, afirma Fard.

Infraestrutura: como conectar o interior aos portos?

Enquanto o turismo e o setor de serviços concentram-se na faixa litorânea, o agronegócio e a agroindústria têm no Oeste catarinense a sua principal força motriz.

A falta de uma malha ferroviária integrada e a sobrecarga das estradas dificultam o transporte de cargas. Em muitos casos, produtores do Oeste encontram custos de frete e trajetos mais vantajosos escoando cargas pelos portos de Paranaguá (PR) ou Rio Grande (RS) do que pelos terminais catarinenses de Itajaí, Navegantes ou Imbituba.

Para melhorar a fluidez do transporte de cargas, segundo estimativa da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), SC precisa investir R$ 57 bilhões em infraestrutura de transportes até 2029. A maior parte, cerca de R$ 40 bilhões, seria destinada às rodovias. As ferrovias demandariam quase R$ 10 bilhões, e o transporte aquaviário, que inclui os portos, outros R$ 4,9 bilhões.

“O nó é ao mesmo tempo geográfico, federativo e orçamentário. Santa Catarina tem uma geografia de serra que encarece qualquer obra, tem seus principais corredores sob domínio federal e depende do humor de Brasília. A BR-470 segue com a duplicação inacabada há décadas e a BR-282 permanece sem previsão concreta de avanço”, explicou Fard.

Para o analista econômico, o próximo gestor precisa assumir o protagonismo via concessões, estadualização de trechos e parcerias com o mercado de capitais para garantir estabilidade regulatória.

Uebel compartilha da mesma tese. “É mais rápido, por exemplo, você sair de caminhão ali da região de Chapecó até o Porto de Rio Grande ou o Porto de Paranaguá do que o Porto de Itajaí. Isso é um desafio que aí depende de investimentos do governo estadual e do governo federal.”

Diplomacia do agronegócio

No campo do agronegócio, Santa Catarina vive um momento histórico ao atingir recordes nas exportações de carnes, dados do Comex Stat (sistema de estatísticas de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC). 

O estado superou 1,24 milhão de toneladas e US$ 2,84 bilhões no acumulado dos primeiros sete meses do ano, impulsionado pelas vendas de frango e suínos para mercados exigentes como Japão, Arábia Saudita, Países Baixos e China.

Esse desempenho reflete a força da agroindústria catarinense: o estado respondeu por 51,3% da receita brasileira com exportações de carne suína entre janeiro e julho de 2026. Na carne de frango, a participação foi de 24,7%, de acordo com o levantamento da Epagri/Cepa com dados do Comex Stat. Esses números colocam Santa Catarina entre os principais polos exportadores de proteína animal do país. 

Para Leandro Rocha, especialista do IMDS (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social), esse dinamismo é acompanhado por um ecossistema socioeconômico robusto, quando destaca que “Santa Catarina se sobressai por apresentar indicadores muito fortes de renda, mercado de trabalho aquecido com desemprego mínimo e baixa incidência de pobreza em relação à média nacional”.   

Apesar do forte momento, os desafios do setor ultrapassam as fronteiras locais e ganham contornos geopolíticos e regulatórios. Para Uebel, os riscos para o agronegócio envolvem a volatilidade do mercado internacional, tarifas externas e eventos climáticos extremos que exigem atenção contínua do gestor público.

Nesse cenário de incertezas globais, Fard defende que a resposta passe pela consolidação de uma diplomacia subnacional e técnica. “O agro catarinense não precisa de tutela, precisa de previsibilidade. O próximo governo deve bancar a rastreabilidade digital e a certificação de origem como bens públicos, blindar o status sanitário do estado e atuar com diplomacia comercial técnica e permanente, abrindo mercados onde o cliente está”, enfatizou.

O alerta sobre mão de obra qualificada

Embora Santa Catarina apresente ótimos indicadores de renda e baixa taxa de pobreza extrema na comparação nacional, o panorama de indicadores estaduais do IMDS emite sinais de alerta focados na juventude.

Os dados apontam descompassos no ensino médio, com taxas relevantes de retenção e abandono escolar, além de indicadores de saúde pública e vulnerabilidade social entre os mais jovens que chamam a atenção.

Santa Catarina não é uma economia de serviços simples, diz Fard, mas sim um estado industrial e exportador com polos de metalmecânica, cerâmica, têxtil, agroindústria e tecnologia. “É uma economia que consome engenheiro, técnico, programador e soldador em ritmo acelerado. Embora a rede pública tenha avançado no IDEB, o estado despencou no ranking da rede privada.”

O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é um indicador da qualidade da educação básica no Brasil, que funciona em uma escala de 0 a 10. A nota geral de Santa Catarina no ensino médio em 2023, dado mais recente divulgado pelo Ministério da Educação, foi de 4.5. No ciclo anterior, de 2021, a média do território catarinense foi 4.2. O ensino médio da rede privada de SC obteve nota 5.8 versus nota 6 da análise anterior.

Esse cenário se choca com a transição demográfica do estado, que possui uma das expectativas de vida mais altas do país, de 81 anos segundo o IBGE, contra 76 anos da média do Brasil, o que já pressiona significativamente as contas públicas com despesas previdenciárias e de saúde.

Se a parcela jovem da população não for devidamente capacitada e absorvida por empregos de maior valor agregado, o estado corre o risco de ver sua produtividade futura comprometida no exato momento em que a pressão fiscal do envelhecimento populacional atingir o pico. Garantir a qualidade da educação técnica, o ensino médio integrado e a saúde dos adolescentes será decisivo para assegurar a competitividade do modelo catarinense nas próximas décadas.

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