A leitura do mercado sobre as prévias operacionais do quarto trimestre de 2025 das empresas de real estate brasileiras listadas na B3 indica um setor que segue operando em dinâmicas diferentes, a depender do segmento de atuação. Eles não trazem os números finais do ano passado, mas funcionam como um termômetro para entender qual foi o desempenho do setor.
Pelas análises do Itaú BBA, BTG Pactual, XP e Santander sobre os números divulgados pelas empresas, percebe-se que aquelas com foco em baixa renda mantiveram um desempenho mais consistente, com bom nível de vendas, maior velocidade de comercialização dos projetos e geração relevante de caixa.
Já as empresas voltadas à média e alta renda apresentaram resultados mais heterogêneos, com algumas apresentando bons números, e outras, nem tanto, refletindo um ambiente de juros ainda elevados e um comprador mais cauteloso na tomada de decisão.
Os relatórios dos bancos, emitidos a partir da última segunda-feira (12), destacam que a capacidade de geração de caixa ganhou peso importante na análise dos números. A fotografia que se enxerga dessas 12 empresas analisadas é a de um cenário macroeconômico mais restritivo, em que o mercado tem olhado além do volume de vendas, avaliando se essas vendas estão, de fato, se convertendo em entrada de recursos no caixa das companhias.
Nesse sentido, a Cury se destacou relatório elaborado pela XP ao reportar geração de caixa de R$ 321 milhões no trimestre e R$ 683 milhões no acumulado de 2025, o que reforçou a percepção positiva dos analistas sobre sua conversão operacional.
Outro indicador bastante mencionado foi a velocidade de vendas, que mede o percentual do estoque vendido em determinado período e ajuda a avaliar a aceitação dos projetos pelo mercado. No segmento econômico, esse índice permaneceu em patamares mais elevados, sustentado principalmente pelo crédito direcionado e pela demanda ligada aos programas habitacionais.
Nos casos ligados à baixa renda, como no da Cury e Tenda (Alea), os relatórios destacam velocidades trimestrais próximos a 40%. Já entre empresas de média e alta renda, como Even, Helbor e Cyrela, os bancos apontam velocidades mais moderadas, com exemplos próximos de 17%. O ponto fora da curva no segmento foi a Lavvi, com alta de 28% no trimestre. Apesar do bom resultado e de ser o melhor entre as voltadas à alta renda, o número é inferior aos 37% atingidos no mesmo período de 2024.
Prós e contras
Entre os pontos de destaque dos relatórios das prévias está no desempenho da Plano&Plano, que registrou vendas líquidas de R$ 1,47 bilhão, numa alta de 125% em relação ao ano anterior, enquanto a MRV gerou R$ 175 milhões em caixa no segmento Minha Casa Minha Vida, impulsionada pela melhora nos repasses.
No segmento de média e alta renda, os dados mostram boa absorção em projetos específicos. A Moura Dubeux, que atua no Nordeste, reportou lançamentos acima das expectativas, enquanto a Lavvi, empresa do grupo Cyrella, alcançou velocidade de vendas de 28% com o segundo maior volume de lançamentos de sua história.
A Melnick, construtora focada no mercado gaúcho, teve crescimento de 65% nas pré-vendas líquidas. Já a Even concentrou 88% das vendas do trimestre em estoques, e a Helbor reforçou o caixa com a venda de terrenos.
Entre os pontos de atenção, a Cyrela apresentou queda de 32% nas vendas líquidas e redução da velocidade de vendas de 32% para 17% na comparação anual. A Tenda registrou pré-vendas abaixo das estimativas na divisão principal e lançamentos inferiores ao planejado na Alea, a divisão de casas pré-fabricadas da construtora, impactados por adiamentos de projetos.
Confira abaixo um resumo dos relatórios de bancos sobre algumas empresas que divulgaram as prévias de seus números nesta semana.
Cury (CURY3)
- Resultado: Geração de caixa de R$ 321 milhões no 4T25 e R$ 683 milhões no acumulado de 2025. As pré-vendas líquidas somaram R$ 1,44 bilhão, crescimento de 22% em relação ao ano anterior, com velocidade de vendas elevada no segmento econômico.
- Avaliação: A XP Investimentos destacou a forte conversão de vendas em caixa, atribuída ao alto volume de repasses e à disciplina operacional. A corretora reforçou a companhia como principal referência no segmento de baixa renda.
Cyrela (CYRE3)
- Resultado: Vendas líquidas caíram 32% na comparação anual, enquanto os lançamentos recuaram 33%. A velocidade de vendas foi de 17% no trimestre, abaixo dos 32% observados no 4T24.
- Avaliação: O BTG Pactual classificou os números como suaves, mas em linha com as expectativas, destacando que, apesar da desaceleração, a demanda pelos projetos lançados segue saudável.
Direcional (DIRR3)
- Resultado: Vendas líquidas de R$ 1,52 bilhão no trimestre, queda de 4% ano a ano. A velocidade de vendas foi impactada pela concentração de lançamentos em dezembro, enquanto a divisão Riva apresentou desempenho mais estável.
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Avaliação: O BTG Pactual avaliou que os números ficaram abaixo das estimativas, mas atribuiu o resultado a fatores pontuais ligados ao calendário de lançamentos.
Even (EVEN3)
- Resultado: As vendas líquidas cresceram 42% na comparação anual, com 88% do volume proveniente da venda de estoques.
- Avaliação: O BTG Pactual destacou a surpresa positiva na venda de estoques, mas manteve postura cautelosa em função do cenário de juros elevados no segmento de média e alta renda.
Helbor (HBOR3)
- Resultado: Crescimento de 28% nas vendas líquidas e melhora na velocidade de vendas. Os lançamentos ficaram abaixo das estimativas após o adiamento de um projeto relevante. A companhia realizou venda de terrenos no período.
- Avaliação: O Itaú BBA considerou o desempenho operacional positivo e apontou que a venda de terrenos deve contribuir para o caixa, mantendo uma visão mais seletiva para o setor.
Lavvi (LAVV3)
- Resultado: Vendas líquidas de R$ 1,12 bilhão no trimestre, com velocidade de vendas de 28%. O volume de lançamentos foi o segundo maior da história da companhia.
- Avaliação: O BTG Pactual avaliou o trimestre como sólido e destacou que o consumo de caixa observado já era esperado, dado o investimento na aquisição de terrenos.
MRV (MRVE3)
- Resultado: Velocidade de vendas de 23% no trimestre. O segmento MCMV gerou caixa operacional de R$ 175 milhões, impulsionado pelo aumento dos repasses. Os lançamentos totalizaram R$ 2,9 bilhões.
- Avaliação: O Itaú BBA apontou que os números indicam avanço no processo de ajuste operacional da companhia, com melhora gradual da geração de caixa.
Melnick (MELK3)
- Resultado: Lançamentos de R$ 455 milhões, alta de 111% em relação ao 4T24, e crescimento de 65% nas pré-vendas líquidas.
- Avaliação: A XP Investimentos destacou o aumento relevante da atividade operacional e projetou reação positiva do mercado aos números apresentados.
Moura Dubeux (MDNE3)
- Resultado: Lançamentos cresceram 115% na comparação anual, enquanto as vendas líquidas avançaram 34%, com boa absorção dos projetos de alto padrão.
- Avaliação: A XP Investimentos avaliou que os resultados superaram suas estimativas, destacando a consistência da demanda e a visibilidade operacional.
Plano&Plano (PLPL3)
- Resultado: Pré-vendas líquidas de R$ 1,47 bilhão no trimestre, crescimento de 125% ano a ano, superando as projeções dos analistas.
- Avaliação: A XP Investimentos ressaltou a elevada capacidade de absorção dos projetos, mesmo após um volume significativo de lançamentos.
Tenda (TEND3)
- Resultado: Pré-vendas abaixo do esperado na divisão principal e lançamentos aquém das estimativas na Alea, em função do adiamento de um projeto no Rio Grande do Sul.
- Avaliação: O Santander apontou que a redução nos repasses pode pressionar a geração de caixa no curto prazo, apesar de a companhia permanecer próxima do guidance anual da divisão principal.