A carreira de piloto de avião costuma ser linear. O mais comum é ingressar em uma companhia área como copiloto para, eventualmente, ser promovido a comandante, podendo assumir rotas internacionais e novos modelos de aeronaves ao longo da trajetória. Chegar ao comando é, portanto, o auge dessa carreira. “Meu primeiro voo como comandante foi para Brasília, e o avião estava lotado. Olhei para o lado esquerdo e vi o meu reflexo. Eu, comigo mesma, à frente de tudo”, lembra Marcela Fernandes, promovida a comandante após 10 anos na Azul. Hoje, a profissional de 41 anos é comandante de uma aeronave Embraer, com capacidade para até 136 passageiros, e acumula 7,5 mil horas de voo.
A memória de Gabriela Duarte também continua fresca. A carioca de 50 anos voou como comandante pela Gol pela primeira vez em 2011, após sete anos como copilota na companhia. “Meu pai, que sempre sonhou em ser piloto, dizia: ‘Quando vou te ver com as quatro faixas?’ Quando finalmente me viu com o uniforme completo, ele me abraçou, chorou e disse: ‘Filha, você conseguiu!’.”

Ser piloto de avião, mais do que um sonho de criança, é a profissão mais desejada do mundo – e do Brasil –, segundo um levantamento da plataforma Resume.io. Mas o caminho até a cabine de comando não é simples, especialmente para mulheres.
O setor é um dos mais desiguais em gênero: hoje, existem 7.409 mulheres piloto no mundo todo, o que representa apenas 5,18% dos pilotos das 34 principais empresas aéreas do planeta, de acordo com a International Society of Women Airline Pilots. “As principais barreiras são as poucas referências femininas na profissão, os estigmas sobre a ‘feminilidade’ incompatível com cargos técnicos e a falta de incentivo desde a infância, além do alto custo da formação”, explica Aline Pacheco, professora do curso de ciências aeronáuticas da PUCRS.
Os desafios para alçar voo
Entre certificações e horas de voos – que custam entre R$ 700 e R$ 1000 cada –, há uma série de exigências para quem deseja se formar como piloto e seguir carreira na aviação. “Primeiro, você precisa concluir o curso de piloto privado, e depois o de piloto comercial, que exige muito mais horas de voo e um custo ainda maior”, diz Aline Canedo, copilota de um Boeing de carga na LATAM, em rotas internacionais. “Foi uma fase de muita renúncia, sabia quais etapas precisava completar e vivia em função disso”, lembra Marcela Fernandes. “Seis meses depois de tirar as carteiras, ainda tinha cheques para cobrir.”
Depois da formação, ainda existem os entraves para ingressar em um mercado altamente competitivo. “Quando me formei, tentei entrar na aviação executiva e em táxis aéreos, mas o mercado era muito fechado, especialmente para mulheres”, afirma Gabriela Duarte. “Ouvi diversas vezes que ‘não contratavam mulheres’. Mesmo com habilitações completas, as portas continuavam fechadas.”
“Enquanto alguns entram e deslancham, no meu caso, foi uma trajetória de incertezas, estudo constante, mudanças de aeronave e adaptações.”
Aline Canedo, copilota na LATAM

“Você está pronta, com currículo em mãos e pensa: ‘agora é só trabalhar’. Mas não é bem assim”, diz Karina Guidi, que se formou aos 21 anos e só conseguiu a primeira entrevista de emprego para pilotar um avião aos 27. A pilota acaba de ser promovida a comandante na LATAM após seis anos de companhia, e deve assumir o novo cargo em setembro deste ano.
Entre os conselhos para enfrentar os desafios, Gabriela Duarte, da Gol, destaca que, além de perseverança, é importante buscar meios de se aproximar da aviação antes de fazer grandes investimentos. “Trabalhe como comissária, despachante de voo ou até em solo, dentro de uma companhia aérea. Pode ser uma boa porta de entrada, porque muitas empresas têm seleções internas para pilotos com requisitos menores.”
De copilota a comandante
Após assumir o cargo de copilota em uma companhia aérea, a promoção para comandante envolve uma série de etapas: provas, entrevistas, simuladores e treinamentos, além da espera na lista de senioridade. “Não basta apenas querer o cargo. Quando você entra na empresa, é preciso ter paciência para esperar a sua vez na fila”, explica Aline Canedo, da LATAM. “Precisa haver demanda para novos comandantes – seja com a aquisição de novas aeronaves ou pela aposentadoria dos que já estão na função.”
Na prática, as funções operacionais de um copiloto e de um comandante dentro da cabine são semelhantes. A principal diferença é a gestão e a responsabilidade legal. “Ao fechar as portas do avião, a comandante se torna a autoridade máxima a bordo”, diz Gabriela Duarte. “Somos como o CEO da empresa na cabine de comando.”
Todo o gerenciamento operacional e administrativo do avião é de responsabilidade do comandante: desde o carregamento, o embarque dos clientes e o bem-estar dos passageiros, até o abastecimento, a coordenação da equipe e a condução da aeronave. “Cada voo é um projeto que se inicia e termina em poucas horas, e cabe ao comandante garantir que tudo transcorra com excelência.”

Representatividade importa
Marcela Fernandes só soube que queria seguir carreira na aviação ao conhecer outra pilota enquanto trabalhava como comissária de bordo, aos 19 anos. “Ela me mostrou que era possível: que a gente podia chegar onde quisesse, desde que se esforçasse.”
Segundo as pilotas, o principal obstáculo para aumentar a presença de mulheres na aviação ainda está na base da formação. “Muitas meninas nem sequer cogitam ser pilotas, porque não são expostas a esse tipo de possibilidade desde cedo e não enxergam referências”, diz Duarte.
Para elas, quanto mais mulheres na cabine de comando, maior a chance de inspirar meninas das novas gerações a se enxergarem na aviação. “A partir do momento em que você tem mais referências, o desejo aumenta”, diz Aline Canedo. “Na minha época, eu queria seguir essa carreira, mas não sabia exatamente como.”
As próprias pilotas já se viram como referência no dia a dia do trabalho. “Uma vez, uma mãe e uma criança foram conhecer a cabine. Quando a menina me viu, abriu um sorriso e virou para a mãe na hora: ‘Eu também quero’”, conta Canedo. “Ando pelo aeroporto de uniforme e escuto de algumas meninas: ‘Mãe, é uma piloto!’ De vez em quando, alguém pergunta: ‘Posso fazer uma foto?’ É uma coisa que tem impacto”, afirma Karina Guidi.
O movimento tem surtido efeito: as pilotas enxergam cada vez mais mulheres buscando carreiras na aviação. “Quando comecei, éramos menos de 1% de mulheres pilotas na aviação comercial. Hoje, chegamos a mais de 2% no Brasil”, diz Gabriela Duarte. “Tudo indica que esse número deve crescer”, acrescenta Marcela Fernandes.
No curso de ciências aeronáuticas da PUCRS, a professora Aline Pacheco também tem observado um número crescente de ingressantes mulheres. Em 2024, foram 14 alunas matriculadas em uma turma de 50 ingressantes.
Por mais pilotos mulheres
Parte desse avanço – ainda que lento – se deve a iniciativas que as empresas têm colocado em prática para atrair e reter mais mulheres no setor. A GOL, que conta com 3% de mulheres entre os pilotos, segundo um relatório de 2023, e a LATAM, que contava com 4% de mulheres entre os pilotos em março de 2024, implementaram a Escala Mãe, que permite que mães de crianças pequenas façam voos mais curtos e estejam em casa diariamente.
A LATAM também contratou 39% do total de mulheres que ocupam esse cargo em sua equipe no Brasil entre o início de 2024 e o 1º semestre de 2025. “As companhias têm feito um movimento para contratar mulheres, inclusive já especificando nos anúncios de vaga que a preferência é feminina”, explica Marcela Fernandes, comandante na Azul, companhia que já tem 4,6% de mulheres entre os pilotos.

Além da falta de diversidade de gênero, o setor de aviação também carece de representatividade racial. De acordo com uma pesquisa de 2023 da Organização Quilombo Aéreo em parceria com a UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), em todo o Brasil, não há mulheres negras trabalhando como pilotas em companhias aéreas nacionais.
Na Azul, a informação de que não há nenhuma pilota negra atuando hoje na companhia foi confirmada, enquanto a LATAM e a Gol não abriram os dados específicos. Um relatório de 2023 da Gol aponta que existem 137 pilotos pardos e 10 pretos entre os 1.587 no total da companhia. “Mulheres negras enfrentam desigualdades sociais históricas, como falta de acesso a recursos financeiros, exclusão educacional, racismo estrutural e ausência de representatividade”, afirma a professora Aline Pacheco. “Soma-se a isso a desigualdade de gênero na aviação: tais fatores dificultam a entrada e permanência em profissões classificadas como altamente qualificadas e elitizadas como a pilotagem.”
Em abril de 2024, a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) e o Ministério de Portos e Aeroportos lançaram o programa Asas para Todos, com foco na inclusão de mulheres, pessoas negras e de baixa renda no setor aeronáutico. A ABEAR (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) também aderiu à iniciativa 25by2025 da IATA (International Air Transport Association), comprometendo-se a aumentar a representatividade feminina em cargos de liderança até o final de 2025. “Essas iniciativas deverão facilitar a promoção de algumas mudanças estruturais em nível social e cultural, o que poderá refletir no aumento do número de pilotas”, pontua Pacheco.
Outra entidade à frente dessa mudança é a AMAB (Associação de Mulheres Aviadoras do Brasil), que promove o contato entre candidatas e equipes de contratação de diversas companhias, além de buscar parcerias com escolas de aviação, empresas e instituições que possam oferecer bolsas, treinamentos e oportunidades para mulheres. “É um trabalho de formiguinha, que precisa da participação de toda a cadeia: empresas, governo, escolas, órgãos reguladores e até as próprias famílias”, diz Gabriela Duarte, que também é uma das sócias e cofundadoras da organização. “Se mantivermos esse caminho com seriedade e constância, o número de mulheres na cabine — e principalmente no assento da esquerda — vai crescer.”