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Formada em Filosofia, Programadora Autodidata Usa Tecnologia para Melhorar Publicações em Braille

Nágila Seidenstucker atua como supervisora de desenvolvimento de sistemas e inovação da Fundação Dorina Nowill para Cegos desde o início de 2024

4 min

Formada em Filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Nágila Seidenstucker começou sua jornada com o braille “por acaso”. Em busca de um emprego após a graduação, foi indicada por um colega para trabalhar no Centro de Apoio Pedagógico e Atendimento às Pessoas com Deficiência Visual (CAP), onde “aprendeu tudo” sobre o sistema de escrita e passou a atuar na adaptação de materiais didáticos.

Pouco antes do início da pandemia de covid-19, a jovem sul-mato-grossense mudou-se para São Paulo de olho em novas oportunidades. De cara, encontrou uma posição como editora freelancer na Fundação Dorina Nowill para Cegos — instituição responsável por um dos maiores parques gráficos voltados à impressão em braille da América Latina, com mais de 14 milhões de páginas impressas.

A partir da experiência com a edição, percebeu alguns desafios do setor. “Dentro do braille, estamos acostumados a conviver com muitos problemas. Existe, inclusive, um conceito dentro da engenharia de software que se chama ‘normalização do desvio’, que é essa tendência de se adaptar aos erros, e isso acontecia muito.”

Para Nágila, a falta de programas específicos e de infraestrutura tecnológica voltada ao sistema braille explica grande parte das dificuldades. “É tudo meio na gambiarra.”

Apesar dos empecilhos, a jovem decidiu que não se contentaria com as limitações e, com a ajuda do marido, desenvolvedor de software, aprendeu a programar e passou a criar soluções para lidar com entraves do dia a dia — como a formatação de números e a sumarização de arquivos.

“Isso fundou a área [Desenvolvimento de Sistemas e Inovação] na qual eu atuo hoje. Eu construí o programa para mim, mas fui ensinando os meus colegas a usarem”, relembra. De solução em solução, Nágila entendeu que a centralização em uma única plataforma seria essencial para a escalabilidade da tecnologia. “Assim começou oficialmente o projeto da Plataforma Braille.”

Em parceria com a CodeBit, a equipe liderada pela programadora autodidata da Fundação Dorina Nowill está desenvolvendo uma plataforma para automatizar a transcrição de arquivos para o sistema braille — da linearização à impressão. Paralelamente, a instituição passou a investir em outras iniciativas tecnológicas, como a Dorina IA, ferramenta de inteligência artificial que gera audiodescrição de imagens com base nas diretrizes de acessibilidade.

Segundo Nágila, o desafio atual é criar procedimentos para a tradução de gráficos, tabelas e mapas. “Você começa a precisar de processos mais específicos conforme a complexidade do material. Então, começamos a montar grupos de estudo e a trabalhar com especialistas para fortalecer as regras que ensinamos à IA.”

Os avanços e possibilidades conquistados por meio da tecnologia contrastam com os obstáculos enfrentados pela comunidade de pessoas com deficiência visualcerca de 6,5 milhões de brasileiros, segundo o IBGE. No país, os dados mostram que a taxa de analfabetismo é maior entre pessoas com deficiência (19,5%) e que apenas 29,2% estão no mercado de trabalho.

“Quando começamos a resolver essas questões, os editores ficam mais felizes e mais atentos. O livro sai mais rápido e com mais qualidade. Consequentemente, ele chega mais rápido às crianças”, diz Nágila.

Os planos da Fundação Dorina Nowill, inclusive, envolvem abrir a Plataforma Braille para professores e instituições de ensino, a fim de que educadores possam adaptar com facilidade conteúdos para seus alunos. “Vamos primeiro fortalecer a ferramenta, que ainda não está com todas as etapas prontas, para que depois os professores consigam criar perfis e acessá-la.”

“Quando começamos a vislumbrar que não precisávamos conviver com os problemas, que a tecnologia poderia resolvê-los, foi uma das minhas principais motivações para seguir em frente. O tempo que antes a gente usava para colocar manualmente pontinho por pontinho, agora usamos para pensar em como transformar aquele material em algo acessível.”
Nágila Seidenstucker

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